Aos outros do João

abraco

Tentei ficar-me por uma canção, propositadamente pequena, para não destoar do que sempre produz em mim a morte: a certeza da minha própria pequenez. Fiquei ali escondida atrás da pequena canção, a ver passar pelo Aventar os textos de quem procura entender o desmedido mistério que é testemunhar o desaparecimento de alguém de quem se gosta. Pois morrer, ao contrário do que disse Pessoa, não é só não ser visto – sendo certo que a única coisa que cada um sabe sobre morrer aprende-a com a morte dos outros. Não ser visto tem que se lhe diga – para os outros, quero dizer, claro.

Para tornar a vida minimamente aceitável desde sábado passado, fui, uma e outra vez, andar por aí, à chuva e ao vento, para tirar de mim ao menos uma parte da desolação em que a morte do João me deixou. Não cheguei a conhecê-lo pessoalmente, e no entanto tive com ele momentos intensos, por vezes verdadeiramente difíceis, de confronto por e-mail (!), imagine-se isto, se há entendimento para tal coisa: que gostar de alguém – que nunca se viu – possa ser isso, essa coisa desmaterializada e conflituosa. Mas é – foi.

Sucede que agora sei que aquele que nunca tinha visto – vê-lo olhos nos olhos – nunca poderei vê-lo. Por isso me dirijo aos outros dele – amigos do João, escribas deste lugar (de que ele foi um dos mais decisivos construtores) e leitores. Não deixem jamais de fazer em vida (a vossa e a dos outros) o que têm a fazer. Cada um sabe o que é. Não poupem no que têm para os outros com significado nas vossas vidas: em afecto, consideração, admiração, compaixão, empatia.

Digam a verdade, como o João fazia. Digam as saudades, digam as desculpas, digam as culpas também, as vossas e as deles – não queiram morrer atafulhados disso como outros de dinheiro. Avancem juntos em chão limpo, regenerado. Não adiem, deixem-se de imortalidades, que para isso já nos basta uma sociedade que se recusa a pensar a condição da existência humana e o nosso lugar no Planeta.