Porquê, João, tão cedo?!

Confesso que já devia estar vacinado para o inexorável da partida definitiva: cedo, demasiado cedo, vi partir pais, quando ainda nem me apercebera da falta que eles haveriam de fazer-me, era miúdo; amigos, quando tanta coisa havia para viver em comum; amores, quando é injusto ver partir a luz das nossas almas; gente que fez de mim o que sou hoje, quando, só agora, me apercebo de quanto foram importantes para eu ser exactamente quem sou hoje.

Mas não estou! Continuo a conviver mal com esta cena de ver partir para o outro lado alguém que nos marcou. Sinto-me sempre um pouco despedaçado, bem lá no fundo das emoções, porque, de um dia para o outro, a cadeira ficará vazia. Inexoravelmente vazia.

Foi pela mão do JJC que comecei a escrever aqui. O “homem do stick”, que por vezes se aventura em outros discursos, não escreve o suficiente para ser considerado da família, mas sinto-me tanto da família que ninguém se atreva a dizer que não lhe pertenço.

Também a mim ele me deu nas orelhas: ou porque não escrevia, ou porque não seguia o cânones de edição, ou…

Falámos pouco, fora desta realidade que é publicar. Lembro-me, particularmente, de duas: quando consegui o meu primeiro “troll” e, de certa vez, quando publiquei um desabafo qualquer na minha página do facebook, e ele, simplesmente comentou: “Mal empregado”.

Sobre o meu primeiro “troll”, foi sintético: todos temos os nossos “trolls”, só há uma forma de os matar, com indiferença. Sobre o comentário, claro que fiz um “post” e, por certo, ele sorriu daquela forma que todos conheciam e já aqui o disseram de forma bem mais relevante do que eu seria capaz.

À parte estes momentos, fui muito mais ouvinte. O Aventar tem gente que, nas causas, me encosta a um canto, o Aventar tem gente que, posta a falar, sobretudo nos nossos convívios, me faz parecer ainda mais pequeno. Por isso, oiço. Registo. Aprendo. E vai-me fazer falta tanta coisa de ti, JJC.

Podias ter partido mais tarde: poderias comer as tais tripas que estavam prometidas quando o FC Porto fosse campeão, esta época. Pelo menos isso, ter-nos-ias dado mais de ti, terias gozado à tua maneira com os outros, que não têm o mesmo merecimento que nós, o de sermos portistas de corpo inteiro. Mas, se tinhas que ir por este tempo breve, podias ter esperado mais umas horas, terias visto a lição de andebol que, na segunda parte, demos aos russos, habituais campeões do seu país, e treinados pela figura maior, como técnico, do andebol mundial. Ainda não sabes o resultado?!

cancro2Aliás, se posso ser sincero, acho que, com um pouco mais de sorte, eu poderia ter-te convidado para a marcha solidária na minha cidade actual, Guimarães, organizada pela Associação Vencedores do Cancro Unidos Pela Vida, ontem. Às tantas convidava-se o Dario para fazer um boneco do JJC, ataviado de chapéu e t-shirt, bebendo a água da garrafa que fazia parte do kit de participação. Porra, tu merecias, JJC. Tu merecias, lutador que eras, vencer esta guerra contra um dos piores intrusos, esse bicho maldito que nos rouba, como quer, a vida.

Desculpa lá, mas os aventadores, os convidados, os teus amigos, já disseram quase tudo de ti: da enormidade do teu coração, da incrível força das tuas causas, do que mostraste com orgulho e, por pudor, escondeste, do que foste para os teus amigos, do que continuas a ser para nós. Eu pouco posso acrescentar. Porque, confesso, eu ainda não estou vacinado para cenas destas. Nunca estarei. E continuará a custar muito ultrapassar a partida. Maxime, quando é definitiva.

Definitiva?! Isso é que era bom. Penso que a morte vai lamentar profundamente o momento em que se atreveu a meter-se contigo. Pelo menos, quero acreditar nisso. Funcionará como lenitivo para a tua cadeira vazia no próximo almoço. É bom falarmos de coisas banais, assim a vida acontece como se nada de mau pudesse acontecer-nos: a ti e a nós.