Havemos de combinar qualquer coisa

Acho que foi em 1988. Olha que sim, pá! Foi no meu segundo ano de serviço, imagina. Lembrava-me da tua figura, uns anos antes, na Clepsidra, esse universo em que eu, puto deslumbrado, podia conviver com a boémia intelectual de Coimbra, fascinado pela boémia e pelos intelectuais e confundindo um bocado as duas ao fim de umas cervejas. Não, acho que nunca falámos um com o outro. Eu andava pelo Orfeon, porque um coro é uma das melhores maneiras de um gajo se esconder e ser aceite ao mesmo tempo.

Em Setembro de 1988, lá estávamos os dois na Escola D. Dinis, na Pedrulha. Calhou termos duas turmas em comum, acho eu. E engraçámos um com o outro. Tu sempre assertivo e eu fascinado, a pensar como é que sabias tanta merda, como é que conhecias tanta gente, como é que tinhas lido tantos poemas. E eu, com a minha frustraçãozinha cobarde própria do gajo que queria ser um dos melhores escritores do mundo sem se dar ao trabalho de escrever, ficava embasbacado. Tu ainda eras a Clepsidra dos excessos que serias sempre e eu já era o burguesinho assustado com pequenas descargas de revolta.

E os fins de tarde no Marcius? Lembras-te? O autocarro tirava-nos da Pedrulha e deixava-nos da Rua da Sofia. Não sei quanto tempo ficávamos à conversa entre finos, empadas, fatias de pizza. Não me lembro de que é que falávamos, mas ficava ali preocupado em dizer coisas, umas inteligentes e outras com piada ou ao mesmo tempo. Quando pressentia (pressentia) a tua concordância ou ouvia a tua espécie de gargalhada, sentia-me doutorado. Agora que penso nisso, percebo que me davas valor, porque não eras gajo para aturar qualquer um. Se te enganaste, enganaste-me.

Depois, como é que foi? Os desencontros do costume. Tu ficaste em Coimbra a exercer o teu direito à boémia e o teu dever de lutar contra tudo o que te metia nojo e a favor da arte e das palavras. É verdade, pá, afastámo-nos um bocado, mas depois havia aquela coisa que se diz sobre a amizade nos livros que dizem sempre o mesmo: sempre que nos reencontrávamos, era só retomar a conversa. Estar contigo era sempre a coisa mais natural do mundo e uma das mais reconfortantes: umas piadas, umas discordâncias, muitas caralhadas. Todo o conforto da amizade, foda-se!

E daquela vez em Castro Marim? Eu, como bom turista, no meio dos dias medievais, vi um gajo igualzinho a ti. Eras tu. É claro que continuámos a conversa que teríamos interrompido uns anos antes em qualquer lado. Até te deste ao luxo de dizer que estavas feliz a produzir nos Vivarte. Isto foi em 2003. Tou-te a dizer, pá!

Mais reencontros e outros desencontros e convidaste-me, para aqui, para o Aventar, em 2009. Posso confessar-te que vos lia e desejava, no fundo, que me convidasses. Sempre fui uma gaja antiquada e devidamente tímida, à espera que a convidem para dançar. Continuavas a ver qualquer coisa em mim, mesmo quando eu não via. Com a idade, não fiquei muito diferente, mas lá consegui disfarçar um bocadinho melhor o orgulho que senti em saber que me consideravas digno de estar aqui. Graças a ti, fui obrigado a escrever, contra o medo de escrever, e ganhei amigos quase tão improváveis como tu.

Gosto muito do Aventar e de muitos aventadores. Até gosto daqueles com quem me chateei. E chateei-me contigo, como acontece com qualquer pessoa normal que te conheça. Mas ouve bem uma coisa, e não me levem a mal: no fundo, no fundo, estar no Aventar foi também uma maneira de estar à conversa contigo outra vez no Marcius. Estar aqui é ser aceite por ti, é ser elogiado por ti. É estar outra vez sentado ao teu lado e ficar disfarçadamente deslumbrado porque te fiz rir. Olha, depois, havemos de combinar qualquer coisa, um dia destes.

Comments

  1. Manuela Cerca says:

    Faltavas tu. Faltavam as tuas palavras envoltas em histórias, carregadinhas de emoção, e grávidas já de saudade, para eu completar o perfil do JJC, que fui arquivando enquanto o lia, catalogando enquanto o via, por aí, fotografando, dando às mãos ao que é belo e abraçando as causas que eu, quase sempre silenciosamente, também considero minhas…
    Depois, depois fica a mágoa, de não ter tido o privilégio de ele, JJC, não ter feito um poucochinho parte do meu Universo. Mas isso, para além de ser egoísmo, é pretenciosismo, porque alguém como ele não é pertença de ninguém.
    (Apesar de com ele não privar, sinto já, e muito,a ausência das suas palavras.)

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