Carta do Canadá: emigração e eleições

Gostaria de partilhar convosco algumas reflexões sobre este tema, ditadas pelas preocupações que me assaltam e respaldadas por uma experiência de 32 anos a viver fora do país. 

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Para já, penso que será realista partirmos duma realidade incontornável: a abstenção. Tendo ela sido de 43% em território nacional e de 88% na diáspora, não creio que os resultados minoritários devam ser motivo de grande festejo e regozijo. Os resultados, mais ou menos vitoriosos, são obtidos numa franja de eleitorado. A esmagadora maioria demonstrou pelo silêncio que não acredita mais no actual estado de coisas e que está cansada dos partidos em presença, envelhecidos e envilecidos pelos jogos de bastidores que tudo devem a interesses pessoais, ao carreirismo, ao nacional-porreirismo que, cego a um mínimo de bom senso, apenas deseja manter na crista da onda aqueles que dão jeito a um determinado estar na política. Numa palavra: manter intacto o caminho directo para a corrupção, é a palavra de ordem que nunca se diz mas se tenta cumprir e até impor. Daí que, quando na Grécia e em Espanha, apareceram movimentos juvenis, virgens de vícios, a pôr os pontos nos ii, o choque sofrido pelo status quo atingiu alturas de crise histérica. A União Europeia, sonho sabotado de alguns e campo de interesses subterrâneos de vários países-tubarões que se alimentam do peixe miúdo, ela mesma perdeu o pé e a vergonha ao pôr os seus tenores a meterem-se em ópera alheia, numa ingerência que faria corar quem quer que tivesse um mínimo de carácter. Pode ser que um conjunto de jovens dos vários países explorados, vítimas da 5ª coluna interna, consiga reverter esta situação batendo as palmas ao bicho na arena europeia, mas também pode não ser por se tratar de um combate de David contra Golias. Em todo o caso, vale a pena tentar com inteligência e coragem, porque o mundo precisa de uma Europa forte, arrependida de maus caminhos, de mãos lavadas e cabeça levantada.

A emigração portuguesa sofre de exploração por parte de quem obrigou as pessoas a repatriarem-se, mas também de abandono. Tem por adquirido que ao estado (a que Portugal chegou) só interessam as economias do trabalhador escorraçado do país por más políticas. Prática que vem como todos sabemos, desde o anterior regime. O emigrante, trabalhador infatigável e geralmente frugal, tem o sonho de comprar lá na terra a casa que nunca poderia ter comprado se não saísse do país, e manda dinheiro através dos bancos portugueses que proliferam cá por fora como cogumelos. Nunca, pela palavra nunca, o estado português se interessou pelo emigrante como investidor, antes preferindo vender o país a retalho a chineses, angolanos e quejandos. Tinha sido fácil ajudar a erguer consórcios financeiros que tomassem posição nas possíveis privatizações. Mas dava muito trabalho realizar tal, não sendo garantido que haveria luvas e tachos para os do costume. Como diria o actual primeiro ministro em corda bamba, que se lixe o sonho de o património nacional ser de portugueses. Sobre esta amarga constatação, o emigrante junta ao ramalhete o facto de o estado (a que Portugal chegou) deitar mão de falsidades para ficar bem no retrato.

Uma delas foi conceder à emigração o direito de votar nas eleições legislativas, presidenciais e europeias. Para tal, pressurosos, alguns partidos abriram logo balcão nas comunidades, o que não aumentou a união dos emigrantes, pelo contrário. Algumas delegações desses partidos, entregues a afilhados e amigalhaços, de olhos postos em viagens de borla e uma possível condecoração, fizeram mau trabalho e deram das suas agremiações má imagem. Admira-se alguém com uma abstenção de 88%? É deste estado de coisas que emana um Conselho das Comunidades em que muito poucos acreditam; um Conselho da Diáspora, inventado pelo actual Presidente da República, ignorado pelos emigrantes por ser tão elitista e snob; e uma Secretaria de Estado das Comunidades com uma folha de serviços que não dá para rir, antes dá vontade de chorar. Acrescente-se que, para votarem, os emigrantes não têm direito a campanha eleitoral, os boletins de votos por correspondência nem sempre chegam a tempo (este ano até não traziam no envelope indicação do país de destino, Portugal no caso), o serviço de inscrições nos consulados obriga a deslocações em dia de semana e em horário de repartição pública(os portugueses não estão e fazer turismo no estrangeiro). Em suma, é tudo demasiado complicado para se poder acreditar que é por acaso.

Todos podemos compreender que Portugal, sendo hoje um pequeno país no espaço europeu, e depois das ilusões desfeitas ao longo de 40 anos, precisa de contar com os seus cidadãos expatriados. Todos desejamos ajudar. Mas para tal, que o estado (a que Portugal chegou) assuma o que tem de assumir e se deixe de histórias para criancinhas, no saboroso dizer do cantor falhado que foi a primeiro ministro. Isso significa que devem ser as comunidades a escolher, no terreno, os seus representantes no parlamento como independentes, sem açaimes partidários. Que esse parlamento promova legislação que dê ao emigrante um estatuto de investidor, se o desejar fazer. Que aos consulados sejam dadas condições para facilitar as inscrições. Que as campanhas eleitorais in loco sejam mantidas pelos concorrentes e seus apoiantes. Que haja um Ministério da Emigração fundado em critérios de competência e isenção. 

Se isto é pedir muito, esqueçam. E deixem de nos enviar aves de arribação para nos sacar votos e dinheiro. Nós não esqueceremos Portugal, mas temos o direito de deixarmos de andar feitos parvos a levar ao colo quem mais merece um pontapé.          

Comments

  1. Ana Moreno says:

    Subtileza da escrita e conteúdo dão gosto!