Malvados fofinhos

Há umas semanas, aterrorizei o meu filho. Disse-lhe que íamos ver um filme emocionante, em que talvez houvesse um crime e, consequentemente, um criminoso, mas que era um grande mistério. Adorou a ideia. O filme era “A Janela Indiscreta” e ele viu-o com fascínio até à última cena. Não terá entendido grande coisa daquilo que no filme é também uma profunda reflexão sobre a solidão ou o voyeurismo, mas vibrou com a trama policial. Vibrou e assustou-se terrivelmente. Tanto que nessa noite teve dificuldades em adormecer porque só pensava no assassino que poderia entrar pela porta. Ou pela janela. Ou pelo telhado. Que barulho foi este?

Agora já não tem medo nenhum mas ainda se lembra dos nomes dos protagonistas e de muitos detalhes da trama. Esse Hitchcock tem mais filmes?

Confesso que o seu medo me pareceu exagerado e deu-me que pensar. A maior parte dos conteúdos audiovisuais que hoje se produzem para miúdos incluem vampiros, monstros, zombies, feiticeiros, e outras criaturas fantásticas, e nessas tramas não faltam vilões. Mas são vilões cada vez mais bobos, com uma maldade fiteira, pouco credível, quando não depois psicanalisada na própria história para revelar uma mãe autoritária, um pai desatento, um ambiente escolar hostil, e tudo acabar na conversão do vilão à luz esplendorosa da bondade. É tudo fofinho, pronto. Fofinho e “mágico”, esse adjectivo que para tudo serve. A maldade só é maldosa até tropeçar na amizade verdadeira, no amor, na compreensão. Isto até pode ser bonito, mas é pouco útil. Tão preocupados estamos em não traumatizar os catraios que fazemos deles uns papa-açordas.

Temem os zombies que se erguem das tumbas, os vampiros sedentos de sangue, as bruxas que cozinham poções e acham-se seguros num mundo em que eles não se passeiam à luz do dia. Nada imaginam sobre o vizinho sereno e bem-educado que mata a mulher, corta-a em pedaços na banheira e desfaz-se do corpo em sucessivas viagens com uma mala grande.

Já nem vale a pena comparar a sua experiência com a dos seus avós ou até do pai, mas para mim, quando era um pouco mais nova do que ele é agora, o mal era o pai de uma colega de escola que castigava os filhos pondo-lhes as mãos sobre o disco quente do fogão. Que pisava os olhos à mulher com socos, que lhe partiu o nariz com um pontapé. Que tanto terror fazia passar os filhos que quando, certa manhã, partilhámos com a mais nova as primeiras cerejas de Maio, ela encostou-se a um canto do recreio e atirou-nos as cerejas todas à cara, com um riso agudo e enlouquecido, como um animal acossado, incapaz de voltar a confiar. O mal era isso.

Queremos todos proteger os nossos filhos, evidentemente. Eu censuro ao meu reportagens de telejornal, algumas notícias escritas, vídeos que me parecem violentos. Mas ele encontrar-se-á com tudo isso, se não agora depois, e sobretudo encontrar-se-á com o mundo, não na sua versão Walt Disney, mas como é, a história contada por um louco, cheia de som e de fúria, já dizia o Macbeth. Olha, o Macbeth, outra grande história que deu um grande filme. Fica para a próxima sessão.

Comments

  1. José almeida says:

    ” … a maldade só é maldosa quando tropeça na amizade verdadeira….” . Esta frase é muito feliz. Excelente.

  2. joão lopes says:

    O Hichtcock tinha uma(claro,tinha mais) grande virtude:um respeito enorme pelo “seu” publico.O grande Hicht nunca pretendeu “infantilizar” nem “evangelizar” as pessoas que viam os seus filmes.Nos ultimos anos fez-se exactamente o contrario,tirando o caso paradoxal do canal HBO.Desse ponto de vista devia ser “obrigatorio” a visualização de pelo menos um episodio do The Wire ou do True Detective(este sim,um autentico e assustador conto de terror,que faz pensar,que é aquilo que o cinema devia fazer)