O bom, o mau e o vilão

Em meados dos anos setenta estava programada a construção de uma central nuclear em Portugal, nomeadamente em Ferrel, concelho de Peniche. Objecto de forte contestação popular ( que culminou com a célebre manifestação de Março de 1976 ), não foi construída. À época havia uma discussão interessante, que era haver correntes de opinião (conservadoras) que defendiam a bondade da energia nuclear desde que fosse usada para fins pacíficos. Ou seja, o átomo proletário era diferente do  átomo capitalista. Claro que depois de vários acidentes em centrais nucleares, nomeadamente Chernobil, nada foi como antes.

Volvidos estes anos assistimos hoje a uma discussão entre os defensores do orçamento do actual governo por contraponto com os orçamentos do governo anterior (com mais Bruxelas ou menos Bruxelas). Ou seja, houve uma austeridade má (de direita) mas agora temos uma austeridade boa (de esquerda).

Austeridade é austeridade. Ponto. Mais impostos são mais impostos. Ponto.

Esperemos, para bem de todos e do país,  que não venha para aí um Chernobil económico e financeiro.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Não sei porquê, mas depois de ler este post do caro Orlando Sousa, vem-me à memória o episódio do Velho do Restelo.
    Uma coisa sei: o que Portugal sofreu com os 4 anos de política ultra liberal de direita (para ser simpático e não lhes chamar o que eles são).
    Durante este tempo, liderados por economistas Srs Prof.s Dr.s, tudo gente muito bem educada, cheia de números na cabeça e sobretudo,”cultíssima”, tratou-se o Sistema Financeiro como um deus maior e o povo como um conjunto de badamecos sem qualquer direito. Espoliar, roubar, desviar tudo para a Banca e “gerir” os temas públicos com lápis de bico grosso que pendiam na orelha e papel de merceeiro, para fazer umas contitas de somar.
    Que aconteceu?
    Um SNS falido, com vítimas, caso a que a justiça liga tanto como aos amigos do Sr. Presidente que estão em casa, ou com pulseiras electrónicas ou em jaulas douradas.
    Um Sistema Financeiro super falido onde apenas meia dúzia de famílias e Grupos estão em crescendo financeiro, pois as denominadas “crises”, dão sempre jeito a alguém.
    Um Sistema Industrial que faliu, correndo-se a inventar todo o género de “suportes” e mentiras para baixar a taxa de desemprego.
    Um Sistema político que não funciona, porque as Instituições – com relevo para a justiça – não funcionam e com o responsável máximo pelo correcto funcionamento a fazer o discurso das vaquinhas, a dizer que não comenta o que quer que seja, ou então a elevar a Deus o Sistema Financeiro e a vociferar contra quem dele disser mal.
    Não sei o que nos espera, meu caro Orlando Sousa. Com toda a sinceridade, não sei.
    Mas sei que Chernobyl em Portugal, ocorreu nos últimos quatro anos e já percebi porque é quem tão mal nos fez continua a liderar sondagens, a ganhar eleições, mesmo com os escândalos que à boa maneira fascista estavam escondidos, mas que começam agora a aparecer.
    Tudo se entende … É uma questão de consciência.
    A austeridade de direita só foi boa para o sistema bancário e para os privilegiados amigos do Sr. Presidente e os frequentadores das lojas maçónicas.
    Tudo o que se disser, neste momento da austeridade de esquerda, cai no âmbito da história do velho do Restelo e na tentativa de sacar uns esqueletos do armário.
    Mas desde já lhe digo que serei o primeiro a vir para estas páginas, se verificar que o Chernobyl português se não terminou com a política de direita ultra-liberal. Faço notar que repito este tratamento, só para ser simpático.
    Não deve ser por uma razão qualquer que essa gente decidiu “iniciar o passeio de volta” em direcção à social-democracia.
    Vergonha, foi coisa que nunca tiveram, face às mentiras compulsivas com que durante anos nos brindaram.
    Cumprimentos

    • Orlando Sousa says:

      Sim, o país sofreu, e muito ,nos últimos quatro anos, mas isso não aconteceu por um qualquer passe de mágica. Houve opções anteriores (tanto do PS como do PSD) que conduziram o país para o descalabro. Se haveria outros caminhos nesses últimos quatro anos, talvez, e se calhar melhores do que os que foram seguidos. O criminoso programa de barragens (decidido pelo governo PS com apoio do PSD) é um bom exemplo da apropriação dos nossos recursos naturais. E ainda por cima com custos astronómicos. O BPN? O BES? As PPPs? Isto não é um problema de esquerda nem de direita. O que eu escrevi é que a discussão/debate sobre a austeridade não pode, em minha opinião, ser feita na base das discussões sobre o átomo bom e sobre o átomo mau, que é o que se está a passar. Apenas isso.
      Cumprimentos

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Tem toda a razão caro Orlando de Sousa. Não houve qualquer passe de mágica para se chegar a esta situação.
        A crise – tal como a ouvimos propalada por esses irresponsáveis que nos governam há quarenta anos – é uma invenção pura e simples utilizada pela irresponsabilidade para pregar a austeridade, destinada a pagar uma dívida contraída pela irresponsabilidade dos nossos governantes.
        Foram quarenta anos de depredação das Finanças públicas, com Expos, Estádios de futebol, auto-estradas duplas e triplas, PPP’s, SWAP’s, submarinos e, para terminar, as vigarices bancárias que nos conduziram à ruína.
        Dos 80 mil milhões de euros que a Europa nos “emprestou”, cerca de metade foram para recapitalizar o sistema financeiro bancário.
        Não há muita diferença entre este tempo, dito de liberdade e democracia e o tempo de D. Manuel I, onde em 40 anos se destruiu a riqueza de um país, com investimentos internos praticamente nulos.
        Temos sido governados por nulos que alinham a sua vida por preceitos de fama e de realização pessoal só lhes faltando no currículo ser presidente da república ou primeiro ministro continuando, por isso mesmo, activos, até para disporem posteriormente, na sua calma reforma, de todas aquelas mordomias que conhecemos, enquanto o povo vê as suas reformas ratadas e os impostos a subir.
        Não há austeridade boa nem austeridade má, apenas há austeridade e esta tem sido para pagar a irresponsabilidade.
        Cumprimentos.

  2. Victor Nogueira says:

    “Ou seja, houve uma austeridade má (de direita) mas agora temos uma austeridade boa (de esquerda). Austeridade é austeridade. Ponto. Mais impostos são mais impostos. Ponto.” Ou seja, o mundo a preto e branco, Como se fossem equivalentes a “austeridade” sobre as grandes fortunas, sobre os grandes grupos económico-financeiros, sobre o “um por cento”, e a austeridade sobre quem trabalha ou sobre os cinquenta por cento de rendimentos mais baixos, mitos no limiar da pobreza o mesmo na miséria.

    • Orlando Sousa says:

      O que eu escrevi é que a discussão/debate sobre austeridade não pode ser feita em termos de boa ou má. Claro que o mundo não é a preto e branco.

  3. Maria vai com as outras says:

    Quer-me cá parecer, que após o 25 de Abril para acabar com as colónias, alguém tem de fazer outro, contra os gajos que dominam esta tabernória, onde meia dúzia de cromos dominam 10 milhões de cordeirinhos mansinhos…

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      São os mesmos que dominavam antes.
      Estão é travestidos em democratas, frequentam lojas maçónicas e alguns fazem uns desfalques, mas como são amigos de um agente da PIDE, fica tudo em casa.

  4. Maria vai com as outras says:

    São sempre os mesmos!
    Não é pelo facto de se mudar de partido de laranja para rosa, ou de rosa para laranja, que eles mudam…
    Por isso é que é preciso outro 25.

  5. manuel.m says:

    O átomo proletário não era em 76 diferente do átomo capitalista: Ambos eram estúpidos. Portugal já tinha então uma central nuclear, não em Peniche mas em Almaraz, encostada à fronteira Portuguesa e bem no meio da bacia hidrográfica do Tejo,(nestas coisas os Espanhois não são estúpidos). Em caso de acidente nuclear com contaminação dos lençois freáticos, 2/3 do país ficaria sem água, tal como hoje.
    Almaraz está velha e caduca e é um acidente à espera de acontecer. Quanto á energia nuclear, e após tantos anos a terem a fama e não o proveito, aos Portugueses resta Fátima para pedirem à Virgem que interceda junto aos “nuestros hermanos” para que vão fazendo alguma coisa para que aquela geringonça, (essa sim é uma), não rebente.

    • Orlando Sousa says:

      Pois claro que o átomo proletário e o átomo capitalista não eram diferentes. Mas havia essa discussão. Tal e qual como agora com a austeridade.