Medo, terror e indiferença


Pray

Esta noite, o terror voltou a sair à rua. Bastaram duas bestas e um camião TIR, e o resultado foram centenas de pessoas atropeladas numa avenida movimentada em Nice. O número de mortos, na casa das largas dezenas, continua a aumentar. Mais de 50 feridos em estado grave. Um número indeterminado de feridos ligeiros. Pânico nas ruas, bandeiras de França no Facebook e notícias sobre indivíduos virtuais que celebram e aparentemente reivindicam o ataque. A pátria da liberdade, igualdade e fraternidade de novo em estado de sítio. 

A Europa vive dias sombrios. A economia anda pelas ruas da amargura, o sistema bancário corrupto, em permanente estado de bancarrota, alimenta-se impunemente do aprofundar da pobreza, Bruxelas mendiga por credibilidade, a extrema-direita sobe, a dívida cresce, a desigualdade agrava-se, o fosso aumenta e a cara de pau de alguns é tal que já nem se dão ao trabalho de tentar disfarçar. E como se tudo isso não fosse já suficiente, ainda levamos com estes tipos chanfrados que matam em nome de Alá, Deus, ou de um corrupto qualquer que faz vida do negócio do terrorismo. E os desgraçados que fogem da guerra na Síria, uma guerra à qual a Europa e os seus aliados militares não são alheios, ainda levam por tabela por virem da mesma área geográfica que os monstros que se dedicam ao terror.

Dói mais quando é mais perto. Os sentimentos de parte substancial da humanidade tendem a desvanecer-se ao longo dos quilómetros que nos separam de outras geografias. Sobretudo assusta. O medo está mais perto, pode haver família e amigos por ali. Pode ser aqui a seguir. Pode ser muita coisa.

Outra coisa é ser, sei lá, no Iraque, esse exemplo maior das habilidades diplomáticas do novo chairman do Goldman Sachs e restante clique das armas de destruição maciça, onde dia sim dia não alguém explode alguma coisa em algum sítio. No início deste mês morreram 213 em Badgad. Ontem morreram quatro. No dia anterior 12. Bombas, carros armadilhados, tiroteios e camiões. Nice não foi propriamente um breakthrough na arte do terrorismo.

Mas esses estão lá longe e não há muitas bandeiras do Iraque no Facebook. São números que preenchem pequenos quadradinhos nos jornais e que se avolumam de tal forma que acabamos por lhes perder a conta e passamos a assumir tudo aquilo como algo normal. Talvez um dia seja assim aqui, espero que não. Mas não estou particularmente optimista. Paz aos que caíram hoje, aos que caíram ontem e aos que continuarão a cair às mãos do terror e do medo. Nunca derrotaremos o primeiro sem primeiro derrotar o segundo. Nunca derrotaremos nenhum se continuarmos a olhar de forma diferente para o que é igual.

Imagem@AnisHouse

Comments

  1. Pois…

  2. joão lopes says:

    disse o barroso na altura da cimeira dos açores que tinha visto as armas de destruição maciça.pois viu.era um camião.e assim se começou uma guerra ,pelo petroleo para abastecer…o camião(barroso amigo,espero nunca te ver,mas se tiver esse desprazer ,dou de fuga para a…nova zelandia)

  3. A.Silva says:

    Zbigniew Brzezinski. Un periodista del semanario ‘Le Nouvelle Observateur’ le preguntaba, en enero de 1998: “¿Tampoco se arrepiente usted de haber favorecido el integrismo islamista, de haber aportado armas y consejo a futuros terroristas?”, a lo que este respondía: “¿Qué es lo más importante para la historia mundial? ¿Los talibanes o la caída del imperio soviético? ¿Algunos locos islamistas o la liberación de Europa central y el fin de la guerra fría?”.

    https://actualidad.rt.com/actualidad/213229-niza-francia-atentado-yihadismo-estados-unidos

    • A.Silva says:

      Zbigniew Brzezinski, para quem não saiba, era conselheiro para a segfurança do ex-presidente americano Jimmy Carter

  4. pedro says:

    Boa exposição joão.

  5. anónimo says:

    Os comentadores andam de boca cheia com o terrorismo.
    É o terrorismo dos emigrantes árabes que viram os seus países de origem, as suas pátrias, as suas famílias, a ser destruídos pelos bombardeamentos dos aviões franceses e Nato.
    É o terrorismo dos emigrantes árabes que viram os seus países de origem a ser destruídos pelo terrorismo ali induzido pela Nato.
    Para os comentadores de serviço, as dez crianças que foram assassinadas em Nice, valem muitíssimo mais do que as cem crianças que são assassinadas de cada vez que há um bombardeamento dos aviões da Nato e da Turquia às zonas civis da Síria. Valem muito mais do que os milhares de crianças refugiadas que morrem afogadas no mediterrâneo.
    Para essa canalha, as mortes em Nice são injustas e arbitrárias, mas as mortes na Síria e no Mediterrâneo, são justas e cirúrgicas.

    • Vá lá! Não sejas assim “Para essa canalha, as mortes em Nice são injustas e arbitrárias, mas as mortes na Síria e no Mediterrâneo, são justas e cirúrgicas.” esta canalha só manda esta bocas porque não está a ser bombardeada e não está a ver os seus serem desfeitos em pedaços!

      Continuam a ir aos centros comerciais, continuam a ir passear de carro para as praias, vão comer para as esplanadas, deitam-se ao sol, vão aos saldos, têm acesso a água/luz/gás sem grande problema! Tudo está bem…
      Claro que quando vêem esta rica vidinha ameaçada pela “horda” de refugiados das guerras (pagas com os nossos impostos!) pegam nos seus telefones espertos vão a uma rede social e zás… Toca a diabolizar os miseráveis, enquanto bebericam uma cerveja fresquinha e comem uns caracóis numa qualquer esplanada à beira-mar plantada.

      E daqui a nada alguém ainda te manda ires viver para a Síria!

      Be👿

  6. Há olhos que vêem e outros que pensam que vêem,conforme os óculos que usam e a fonte que os fabrica !!!

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