A ironia do geringoncismo


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A confirmarem-se as previsões, é possível que o ano de 2016 termine com uma grande ironia: o défice mais baixo das últimas décadas será conseguido por um governo socialista apoiado pelo PCP e BE. Na novilíngua do radicalismo neoliberal, um Processo Revolucionário Em Curso com vista à estalinização do país. Uma perigosa e infame Geringonça, preparada para instalar um totalitarismo soviético que espanta investidores, aumenta brutalmente os impostos e persegue impiedosamente o ensino privado. O precipício.

Tudo isto é irónico. Não só toda esta situação inesperada, mas também o facto de, após décadas de costas viradas, os partidos de esquerda terem aprendido a relacionar-se de forma construtiva, conseguindo aquilo que parecia impossível. E dessa experiência não resultou nenhum milagre, é certo, mas ficamos a perceber duas coisas. A primeira é que, ao contrário do que anunciaram tantos profetas, os acordos à esquerda do centro do espectro são possíveis. A segunda é que esses acordos não só podem funcionar como permitem redistribuir sacrifícios e repor rendimentos a quem mais precisa. É irónico, parecia impossível num passado não muito distante e permite, inesperadamente, manter Bruxelas minimamente serena.

Com pouco mais de um ano de existência, o governo de Pedro Passos Coelho sofria a primeira crise política. A tentativa de reduzir a TSU encheu as ruas do país e, no meio da tempestade, Paulo Portas entrou em choque com o parceiro de coligação, dando origem a um confronto entre dois discursos incompatíveis. Dias depois o governo recuava na sua intenção de mexer naquela taxa. Num espaço de tempo inferior em apenas três meses, a Geringonça chegou a acordo para dois orçamentos de Estado, e, apesar das divergências entre estes improváveis parceiros, o entendimento entre eles afigura-se sólido e aparentemente duradouro.

Não menos irónico é assistir as facadas que a coligação em processo de divórcio lento tem vindo a levar. Eram as sanções, que de resto diziam respeito aos resultados da equipa de Passos e Portas, era o brutal aumento de impostos, era a fuga de investidores, era a défice que seria catastrófico, era o novo resgate que vinha por aí. Era o drama, o horror e a tragédia ao virar da esquina. Até o Diabo vinha dar o ar da sua graça. Embuste atrás de embuste, todos foram caindo, e enquanto caiam ouvia-se Carlos Moedas, lá longe em Bruxelas, afirmar que o governo está em sintonia com Bruxelas e a afastar o risco de resgate, o Banco de Portugal a considerar “exequível” a meta de 2,5% de défice, o presidente da AICEP, Miguel Frasquilho, a falar num valor de défice “excelente”, enquanto elogia o “realismo” de António Costa, e até o Conselho de Finanças Públicas, esse bando de comunistas, classificou as previsões do OE17 como sendo “plausíveis”. A sovietização tem destas coisas.

A ver vamos. Quem sabe, daqui por um ano, mais coisas menos coisa, Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa decidem demitir-se do acordo, ao estilo irrevogável de Portas, para ver se chegam a vice-primeiro ministro. Com Mariana Mortágua na pasta das Finanças, já podemos esperar tudo. Até lá continuaremos a assistir ao divertido espectáculo que tem sido ver PSD e CDS-PP meterem diariamente os pés pelas mãos, anunciado apocalipses, convocando demónios e apostando todas as fichas na falta de memória dos portugueses, ignorando a humilhação a que se prestam. Respira-se melhor e não falta entretenimento, o que não deixa de ser irónico, na medida em que era suposto a Geringonça não ter durado um mês.

Foto: Nuno Botelho@Expresso

Comments

  1. Ana A. says:

    E entretanto, estou a torcer para que em Bruxelas, ou ganhem juízo ou caiam por terra de uma vez por todas, para que se possa reconstruir uma Europa decente…

  2. Ricardo Almeida says:

    Vivem-se dias negros para a oposição.
    Entre a falta de inteligência e a energia despendida para iludir a nação da sua utilidade, os partidos da oposição não conseguem opor-se a nada que não a eles próprios, ironicamente.
    Podiam simplesmente voltar para os buracos e esperar que a tempestade passe, tentando salvar alguma réstia de integridade ilusória que ainda achem ter. Em vez disso passam os dias a mijar contra o vento e, mesmo com a preciosa ajuda da comunicação social, o resultado está à vista.
    Como disse e muito bem, nada nos salva de amanhã surgir uma crise de identidade num dos partidos da coligação e a coisa pode começar a descambar depressa. Mas enquanto isso não acontece é importante analisar esta experiência.
    O meu interesse pela Geringonça deve-se mais à forma inovadora como o país está a ser governado do que ver um qualquer partido “favorito” no poder. 40 anos de alternância deram no que deram. Estava na altura de se experimentar algo novo.
    O azedume da oposição prende-se nem tanto às políticas alternativas ou ao facto de não estarem no poder. Este azedume deriva do medo. Medo que os portugueses percebam de uma vez por todas que partidos até agora minoritários podem oferecer tanto ou mais que os suspeitos do costume. Medo de que Portugal perceba que os eternos parasitismos do CDS aos partidos da alternância nunca deram nem nunca darão nada de bom, mas que coligações alternativas até trazem muitas vantagens. Mas acima de tudo medo de que o sucesso desta experiência se traduza na morte ideológica desses partidos.
    Passou pouco mais de um ano desde as eleições legislativas que viram a Geringoça subir ao poder. Até aqui tem estado a limpar o chão com o antigo regime, mas ainda à muita estrada para percorrer.

  3. Rui Silva says:

    A Syrização do BE e PCP foi bem mais fácil em Portugal que na Grécia. O povo português agradece.

    Rui Silva

  4. José Peralta says:

    Sim ! E até lá, continuaremos a assistir ao “espectáculo” tão degradante como trági-cómico do estertor desesperado do “morto-vivo” coelho, da albuquerque sem vergonha e da
    azougada cristas e respectivos “adesivos” a roerem as unhas até aos cotovelos, a congeminarem torpes vinganças, nas catacumbas sórdidas das respectivas “agremiações”, para virem, depois, à luz do dia, verterem a sua baba peçonhenta, anunciando o após…”calipso” !!!!

    São uns pândegos !!!!

Trackbacks

  1. […] o DN, apoia-se na “evolução do atual contexto económico e orçamental em Portugal“. A ironia do geringoncismo em todo o seu esplendor. Resta saber qual a próxima catástrofe a ser anunciada. O Diabo está […]

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