Isto é Champions!


Dois jogos, 14 golos, muita emoção, voltas e reviravoltas, estádios cheios, pormenores técnicos do outro mundo e 2 partidas muito ricas no plano táctico. Carrego, pauso, carrego, respiro: isto é Champions!

Começo pelo jogo de Manchester.


O onze escalonado por Pep Guardiola para a partida prometia. Perante as ausências dos dois laterais esquerdo que possui no plantel (Gael Clichy e Aleksandr Kolarov) e a presença de 3 defesas no onze titular, a primeira dúvida que me surgiu foi a questão relacionada com o sector esquerdo da defesa: quem é que Pep iria adaptar naquela posição fulcral do terreno? A dúvida ficou logo desfeita nos primeiros minutos com a inclusão do pau-para-toda-a-obra Fernandinho, jogador que até está rotinado a jogar numa ala, mais precisamente na esquerda, mas no meio campo e com funções de auxílio ao interior apesar de ser um jogador com pulmão para galgar com o esférico pela ala quando é preciso fazer pela vida. Sem bola, o brasileiro cumpriu a função a custo, pois do outro lado teve pela frente aquele que tem sido até ao momento o verdadeiro dínamo do futebol ofensivo da equipa de Leonardo Jardim: Bernardo Silva. Com bola avançou mais no terreno, ajudou Leroy Sané a desmanchar Sidibé e em determinados momentos do jogo até ajudou o meio-campo dos citizens (Yayá: muito escondido do jogo na primeira parte; é certo que o sistema de pressão alta da equipa de Leonardo Jardim não lhe permitiu ser protagonista) na primeira fase de construção, soltando David Silva para a sua rotineira função de criador a partir da interior esquerda.

Arrojado, no primeiro grande teste internacional a este Mónaco que parece ter finalmente chancela de vencedor, com João Moutinho no banco, Leonardo Jardim desenhou o seu habitual 4x2x3x1 (que muitas vezes se torna um 4x4x2 quando o avançado móvel seja ele Germain, seja ele Lemar, seja ele Mbappé se cola a Falcão) devidamente alicerçado na estabilidade que Fabinho e Bakayoko têm dado ao meio-campo dos monegascos, atrás de uma frente móvel composta por Mbappé (nas costas de Radamel Falcão), o colombiano, Bernardo Silva na direita e Lemar na esquerda, este último, devidamente apoiado pelas fantásticas subidas do lateral Benjamin Mendy. A estratégia de bloco subido e de pressão imediata à saída da grande área dos locais haveria de complicar a vida a Otamendi e a John Stones, revelando uma das lacunas a meu ver deste City: Guardiola não dispõe de centrais que possam executar os processos de saída de jogo a partir da área como o espanhol pretende e aliás, como foi apanágio estratégico das suas equipas em Barcelona e em Munique.

Na verdade, durante o primeiro tempo, a equipa de Guardiola apenas conseguiu tirar proveito das debilidades defensivas do flanco direito da turma monegasca. Sozinho (Bernardo Silva ainda revela algumas lacunas no plano defensivo; muitas vezes deixou Sidibé exposto a dois e três jogadores) Sidibé estava a ter dificuldades para travar as combinações entre David Silva e Leroy Sané ou as investidas individuais em drible do internacional alemão. Sané fez o que quis de Sidibé: sacou-lhe o amarelo num lance individual aos 29 e aos 30, naquele lance de génio, passou pelo meio de três (o francês não quis arriscar a falta para não ver o segundo amarelo), combinou com Silva, recebeu já dentro da área e só teve que servir Raheem Sterling para o primeiro golo da partida. Lance correctíssimo visto que o extremo\avançado dos citizens parte atrás da linha da bola no momento do passe.

A turma de Leonardo Jardim respondeu imediatamente com muita assertividade: aproveitando a estratégia de defesa subida de Guardiola, até porque o City também estava a pressionar no osso lá na frente a saída de jogo dos monegascos, Bernardo Silva e companhia, conseguiram em vários momentos livrar-se da pressão que os médios do City exerciam nas transições, para explorar o jogo em profundidade para as costas dos centrais da equipa inglesa. Essa estratégia deu os seus resultados no lance do golo de Mbappé (perante a desmarcação do avançado, os centrais do City não conseguiram fazer a troca de marcação e por conseguinte a troca posicional) assim como frutos também haveria de dar, logo no golo do empate, a estratégia de pressão alta que Jardim pediu aos seus jogadores para executar.

Tivemos o velho Falcao.

O azarado colombiano teve ontem uma noite digna do seu estatuto de estrela do futebol mundial. Sim, de estrela do futebol mundial, quer ele marque 30 golos no Mónaco por temporada, quer ele jogue na China ou na Tailândia. O voo do Falcao foi lindo e não está ao alcance de qualquer avançado, fazendo lembrar os golos à Falcao nos tempos do FCP. Assim como não está ao alcance de qualquer avançado desperdiçar uma grande penalidade como a que ele desperdiçou no início do 2º tempo e responder (no puro rock and roll da coisa quando o jogo já “descambava” para um cenário de ruptura que só haveria de beneficiar o pace do City à falta de pernas dos monegascos) com aquele lindíssimo chapéu sobre o guardião do City.

Porém, não me posso esquecer que a grande penalidade desperdiçada pelo colombiano (passível de fazer o 3-1 a favor dos monegascos, resultado que a meu ver poderia mexer irremediavelmente com a psique dos jogadores da casa e matar a eliminatória) não só não deu o resultado que permitiria à turma de Jardim controlar a partida com mais tranquilidade como foi a dose de moral que os citizens precisavam para inverter a marcha dos acontecimentos. Silva e Sterling, cheios de velocidade nas transições, perante um Mónaco que quebrou fisicamente a partir dos 75″ como seria de esperar na verdade visto que a turma monegasca não está habituada na Ligue 1 a um pace tão intenso durante os 90 minutos como o pace a que estão habituados os comandados de Guardiola na Premier League, trataram de espalhar o caos no partido meio-campo do Mónaco (Jardim demorou muito a refrescar o meio-campo, deixando exaurir o seu duplo pivot do meio-campo), recolhendo os seus frutos. Se o empate a 2 bolas se dá por culpa de um pito de Danijel Subasic, após o 2-3, os monegascos cometeram dois erros de marcação crassos nos pontapés de canto que permitiram a Aguero (que lindo volley) e John Stones operar a reviravolta no marcador.

Nota final para a fantástica defesa do argentino Caballero ao golo cantado de Falcao.

Apesar dos 2 golos de diferença creio que pelo que pudemos assistir, a eliminatória vai em aberto para o Estádio Louis II no Mónaco. A equipa de Leonardo Jardim bateu-se como gente grande contra um dos colossos europeus e mostrou que com um futebol muito simples e pragmático poderá surpreender novamente a equipa de Guardiola. Abdicará Pep dos seus princípios tácticos para colocar um bloco mais baixo na 2ª mão de forma a retirar profundidade ao futebol do Mónaco e explorar o contra-ataque? Se o fizer, não acreditando que o faça, apesar de acreditar que o deveria fazer, o espanhol irá quebrar pela primeira vez com algumas das características da sua “histórica” filosofia de jogo, filosofia que assenta na utilização de um bloco defensivo subido e na pressão alta com o objectivo de dominar o jogo pela posse, factor que esta equipa do City não tem conseguido fazer porque efectivamente não dispõe de jogadores com características para tal. Por um lado face ao que aconteceu nesta primeira mão, a utilização de um bloco defensivo mais baixo por parte dos citizens obrigará o Mónaco a jogar em ataque organizado, estratégia de jogo que obviamente não agrada a Leonardo Jardim. Não é que a equipa do Mónaco não tenha capacidades para jogar em ataque organizado porque efectivamente possui jogadores muito criativos e muito dinâmicos do meio-campo para a frente mas pelo que tenho visto esta temporada dos monegascos nos jogos ditos “grandes” contra PSG, Tottenham, CSKA, mas não se comporta da mesma maneira que se comporta quando joga em contra-ataque. Por outro lado, Pep Guardiola afirmou recentemente numa conferência de imprensa que jamais irá abdicar dos seus princípios de jogo e que continuará a trabalhar a sua ideia no clube de Manchester.

Comments

  1. Uma excelente análise. Também vi este jogo fantástico, por causa das tácticas e dos intérpretes.
    Parabéns. Fico a aguardar a análise do outro jogo.
    Foi ou vai ser treinador? Há por aí grande procura.

  2. Ainda nem sei meu caro Manel! Neste preciso momento tenho formação na área do treino de rugby e estou a cumprir uma pausa depois depois de ter acompanhado uma equipa. Mas não descarto vir a tirar o Curso de Treinador de Nível I de Futebol nos próximos anos.

  3. Piorquemao says:

    Um dos melhores jogos a que assisti nos últimos tempos,…

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