O Sultão do Bósforo


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O presidente turco Erdogan pertence à perigosa cepa de homens cuja virilidade se enfoca numa sensibilidade exacerbada àquilo que entende por sua honra e numa desmedida ambição de poder.

Carismático e eloquente, aplica extensivamente e com êxito a sua receita populista: a polarização como meio de mobilizar os seus adeptos e dividir a sociedade, atemorização e repressão dos que se atrevem a não estar do seu lado. Metade da população está com ele, a outra metade (turcos liberais, curdos, alevitas) não tem direito à existência. Declara que “representa o povo”, tudo o resto é ilegítimo.

Após a tentativa de golpe militar de 15 de Julho do ano passado, Erdogan vem dando crescentes largas aos seus instintos ditatoriais. Não lhe basta ter extinguido a liberdade de imprensa (a Turquia ocupa o lugar 151 de 180 no ranking da liberdade de imprensa da “Repórteres sem Fronteiras”; “na maior prisão mundial de autores” estão mais de 150 jornalistas e escritores, todos acusados de apoio ao terrorismo) e atirado para a cadeia muitas centenas de milhares de pessoas; Erdogan quer mandar como um verdadeiro sultão, desde o seu palácio de mil divisões. Porém, na sua magnanimidade, Erdogan não quer impor-se, ele quer que sejam os turcos a abdicar com gosto da democracia. Por isso vai realizar um referendo em Abril próximo, para permitir aos seus seguidores colocarem voluntariamente a cruz no SIM ao sistema presidencial a la turca, que vai reduzir o parlamento a uma câmara de marionetas e acabar com a divisão de poderes. A maioria no parlamento já achou bem que Erdogan passe a ser simultaneamente chefe de estado e de governo, com poderes para impor nova legislação por decreto, sem que seja necessária a aprovação do parlamento e para o dissolver quando assim entender. O sistema democrático de “checks and balances” que resulta de divisão de poderes, permitindo o controle mútuo pelos órgãos constitucionais, vai ser enterrado no bolso de Erdogan.

Como é sabido, na Alemanha vivem mais de 3 milhões de turcos, metade dos quais tem direito de voto. Puseram-se, pois, dois ministros turcos a caminho para fazerem propaganda pelo “SIM” no país que acusam de albergar terroristas, por não entregar de bandeja qualquer turco que se atreva a criticar Erdogan e por permitir que dirigentes curdos tenham liberdade de expressão.

Acontece que os dois eventos foram cancelados pelas autoridades municipais, por razões de segurança. Um verdadeiro sacrilégio, aos olhos de Erdogan e dos seus ministros. A tensão entre a Turquia e a Alemanha que, por diversos acontecimentos, tem vindo continuamente a aumentar nos últimos tempos, atingiu agora mais um ponto extremo.

O ministro turco das Relações Exteriores, Mevlüt Cavusoglu, acusou a Alemanha de querer impedir a introdução do sistema presidencial para “travar o aparecimento de uma Turquia forte” e ameaçou: “Se querem preservar as relações, devem aprender a comportar-se bem com a Turquia”. Não faltou também o insulto de “fascistas”.

Ontem, Erdogan puxou de mais uma cartada ao declarar que Deniz Yucel, jornalista com nacionalidade turca e alemã, correspondente do jornal alemão Die Welt em Istambul e que foi preso há cerca de 2 semanas sob acusação de fazer propaganda em favor da organização curda PKK e do movimento do líder religioso Fethullah Gülen, é “um espião alemão”.

Angela Merkel, que tal como outros membros do governo e muitos jornalistas alemães tinha apelado à libertação do jornalista, refuta decididamente, mas engole todos os sapos – certamente também pela determinação de não descer ao mesmo nível, mas, sobretudo, porque depende de Erdogan como guardião dos refugiados. Erdogan não se coíbe de ameaçar que lhe basta meter os refugiados em autocarros a caminho da Grécia e da Bulgária.

Neste cenário, estreia na Alemanha o filme REIS (o líder, ou o Chefe), uma ode à ascensão de Erdogan. A refinação dos métodos propagandísticos é suprema e pelo menos metade dos turcos quer entregar-se cegamente nas suas mãos. Sondagens indicam que quatro em cada cinco turcos não sabem qual o conteúdo das mudanças constitucionais que o referendo pretende operar. Não admira; o debate é inexistente e proibido, o NÃO uma heresia.

 

Comments

  1. omaudafita says:

    “Metade da população está com ele, a outra metade (turcos liberais, curdos, alevitas) não tem direito à existência.”
    Qual é a metade que está com ele?

    • Ana Moreno says:

      A massa de adeptos do AKP – islâmicos conservadores e nacionalistas – e todos aqueles que se deixam levar pela conversa de que só Erdogan pode salvar a Turquia do caos; “quem vota NÃO quer destruir o país”, palavras de Erdogan. Em todo o país foi feita uma campanha, com a participação de estrelas de futebol, com o slogan: Por uma Turquia forte – juntas-te a nós?” E no boletim de voto, o SIM está sobre o branco da pureza, o NÃO sobre o castanho da escuridão. Erdogan não deixa nada entregue ao acaso.

      • omaudafita says:

        Em relação a Erdogan concordo em tudo consigo. Mas ele é apenas uma sombra ténue dos seus apoiantes e do que eles desejam, na Turquia e em todo o lado…

  2. Rui Mateus says:

    E o Ocidente que se afirma democrático apoiando um regime cada vez mais fascista. Nada de novo na frente oeste!

  3. Rui Naldinho says:

    O conflito armado na Síria, no Iraque e até na Líbia, e os desastres humanitários que se lhe seguiram, já para não falar de outros, deram a Erdogan uma possibilidade inexorável de fazer com o Ocidente aquilo que ele nunca tinha sequer pensado num passado mais remoto.
    A chantagem é permanente e em tom de arrogância. A Europa, perante o dilema de uma invasão migratória sem precedentes, utilizando a Grécia e a Turquia como portas de passagem, não tem capacidade para impor qualquer tipo de sanção económica e militar contra a Turquia.

    • omaudafita says:

      Está errado, a União Europeia, unida, é bem mais forte do que a Turquia. E a chantagem dos refugiados só funciona se houver portas abertas, se estiverem fechadas a batata quente fica do lado dele e da Arábia Saudita, Qatar, etc

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