Assalto ao (nome do) aeroporto


Claro que, quanto ao caricato disparate do aeroporto da Madeira, poderíamos desejar que Cristiano Ronaldo recusasse a honra. Porém, apesar de um génio da bola e um sobredotado em vários aspectos, no fundo é ainda um garoto imaturo e deslumbrado demais para perceber a armadilha que lhe ficará amarrada aos pés. Quanto ao presidente do governo regional da Madeira, Miguel Albuquerque, seria esperar demais vê-lo abdicar do seu rasteiro oportunismo e populismo barato e perceber que um jovem ainda tem muito tempo – e direito – para desgostar – por razões respeitavelmente humanas – quem o homenageia com um cheque de confiança absoluta no futuro. Não é por acaso que gente bem mais sábia que Albuquerque espera pela maturidade ou morte do homenageando para o honrar na toponímia. É porque, na velha tradição positivista, estes homenageados se constituem em referências cívicas e culturais que podem servir de exemplo aos vindouros. Homenagear deste modo após a morte não é sinal de morbidez, mas de sabedoria. Claro que o governante madeirense já refutou esta ideia, debitando as tolices apropriadas ao tema naquele tom modernaço e négigé tão grato aos neo-reaccionários.
Suponho que quem faz o favor de me ler está, neste momento, a pensar em vultos madeirenses de indiscutível grandeza, como Herberto Helder, ou em grandes figuras ligadas à aviação e ciência como Gago Coutinho. Qualquer deles seria mais adequado. Mas duvido que o primeiro desejasse tal honra e o segundo a quisesse vinda de quem vem e, de resto, já tem o seu nome espalhado por toponímia dos quatro cantos do mundo.
Finalmente, já o escrevi aqui, não me parece que os que dão o nome a aeroportos venham a ter uma memória alegre. É que não há boas notícias relacionadas com esses lugares. Só más. E, se tudo corre bem, notícia nenhuma.

Comments

  1. Ana A. says:

    Subscrevo.
    Não sei se existem critérios e regras para atribuição de nomes para estes “baptismos” . Acho de muito mau gosto ficar ao critério dos “mandantes” da vida pública de cada momento. Agora, só esperamos é que o jovem agraciado, por via das vicissitudes da vida, não se transforme em “persona non grata” e tenhamos que andar a derrubar estátuas e mudar nomes…

    • Rui Naldinho says:

      Já ouvi umas bocas, hoje, sobre o nome que deveria ser dado ao aeroporto do Funchal. O português é lixado, danado para a paródia. O que ficava bem mesmo, era o aeroporto chamar-se “D.Dolores”

  2. Rui Naldinho says:

    Eu subscrevo integralmente o seu texto, porque as pessoas com bom senso fazem essa avaliação, sem duvida.
    E essa sua avaliação é reforçada, quando percebemos que vivos há e ouve, recentemente, “neste Portugal à beira mar plantado”, que apressadamente foram condecorados por quem de direito, com as mais latas insígnias do Estado, para hoje andarem nas capas dos jornais como corruptos e inconfessáveis ladrões. Há o caso de um condenado por pedofilia a quem lhe foi retirada a comenda.
    Eu não desculpo estes Albuquerques da nossa era, só os Afonsos de outras eras. Pois nestes, eu não vejo mais nada do que oportunismo político.
    Mas ao povo eu desculpo! E desculpo, porque para a maioria destes, Herberto Hélder deve ser um ator de telenovelas brasileiras e não um poeta. Quando muito um instrumentista de jazz. O Gago Coutinho já será mais conhecido, mas ainda assim são capaz de o associar à NASA, e nunca à primeira travessia aeronáutica do Atlântico.
    O povo é assim. Reage por impulsos sentimentais e piegas, e só de ver tanto sacana condecorado, por repulsa para com as elites, o melhor mesmo é ficarmos pelos Eusébios, os Ronaldos e as Amálias, que, mesmo na sua santa ignorância, nos vão dando algumas alegrias.

  3. Paulo Só says:

    Eu se fosse o Cristiano, e não sou, apesar de um pontapé bastante forte, recusava. Acho completamente ridícula e bacoca essa história de nomes de aeroporto. Por acaso o porto da Madeira, ou de Lisboa tem nome? Que raios tem um aeroporto de diferente? Voar é chic? E a estação do Rossio? Além disso nome de lugar e estátua só de morto. Isso é o mínimo de cuidado a ter. Depois de morto os gajos já são mais seguros. Vivos sabe-se lá.

  4. Ronaldo não tem culpa de ser utilizados por políticos medíocres como Miguel Albuquerque o actual presidente do governo regional. Ele não passa de um filho do que pior existiu na Madeira nos últimos 30 anos. O infame jardinismo. Ele subiu ao pódio do governo por herança natural dentro dum PSD que saqueou a Madeira embora tenha deixado obra feita de encher o olho. Para pagar a factura cá estão os cubanos de continente. Quanto ao seu argumento segundo o qual algumas pessoas ficariam mais satisfeitas se o nome do aeroporto fosse atribuído a um morto é no mínimo não só demolidor como também ser par o definir como um daqueles políticos que não enxerga para além do seu próprio nariz. Claro que as grandes obras públicas devem ter um nome de personalidades que pelo seu passado engrandeceram o país mas sobre as quais devem haver um distanciamento no tempo. Pessoalmente não me incomodaria que o nome do aeroporto da Madeira ficasse como está e um dia mais tarde viesse a ostentar o nome de Cristiano Ronaldo, a atribuição extemporânea é não só obscena com ostenta um claro oportunismo político o que vindo desta gente é perfeitamente natural. No meio disto tudo Ronaldo não tem culpa nenhuma por não percebido que no fundo está a ser usado.

    • Paulo Só says:

      Concordo em parte: é obviamente mais prático distinguir por exemplo as pontes sobre o Tejo ou o Douro pelo nome do que por qualquer outro traço distintivo. Os aeroportos em parte, se houver vários, o que não é o caso na Madeira. Se alguém na Madeira disser: vou ao aeroporto, ou vai nàquele, ou morre afogado. Além disso a exploração dos aeroportos foi privatizada. Não são mais propriamente obras públicas. Em Lisboa temos, sim, o Centro Comercial Humberto Delgado, e depois o terminal 2 que é uma espécie de pocilga, onde os passageiros que voam na Easyjet e outras Transavia têm de apanhar os aviões caminhando debaixo de chuva. Já me aconteceu. Ao chegar ao avião, encharcado e privatizado, disse ao comissário de bordo da Transavia, educadamente e em bom francês, que aquilo era uma vergonha, e o gajo quis pôr-me para fora do avião. Podem arranjar um outro nome para o terminal 2. Futebolista, ou político? Que tal terminal Assunção Cristas? Por isso no próximo final de semana, vou para o Porto, saindo de Santa Apolónia. Essa pelo menos já morreu, e demorou até ser canonizada.

  5. joão lopes says:

    Aeroporto Fidel castro…porque foram os “cubanos” do continente que o pagaram.se é que esta pago,se é que a massa não está numa off shore(ups,a Madeira é uma offshore,com carago,carago.)

  6. Paulo Só says:

    Já que querem um nome, então ponham o do Max, Maximiano de Sousa, o imortal criador da “Mula da Cooperativa”, esse que era uma delícia de pessoa ! E um grande ator.

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