À custa das nossas possibilidades

NB

Ricardo Araújo Pereira sintetizou o embuste na perfeição, numa das últimas edições do Governo Sombra: imaginem que eu tenho um quilo de maçãs, que me custou 2€, e vendo-o a uma pessoa, que eu não sei quem é, por 1€. E essa pessoa diz-me assim “tens 1€ que me emprestes?”, para me pagar o euro. Eu empresto, e depois peço ao fundo de resolução o euro que falta.

Não, não é nada estranho. Acontece todos os dias, em todo o lado onde o capitalismo é quem mais ordena. Desta vez soube-se, porque, convenhamos, o Novo Banco é um banco em decadência, desde a sua criação, e há muito dinheiro dos cofres públicos que se perdeu por lá, para não falar no Salgado, no Sócrates e nos restantes indivíduos que pilharam o GES, depois do GES ter pilhado meio mundo. E quando estamos a falar de pessoas e entidades caídas em desgraça, a coragem dos holofotes mediáticos tende a aumenta substancialmente.

O Novo Banco mais não é que um sorvedouro de dinheiro público, nascido e criado em estado de coma, que mais valia nunca ter sido criado. Com os milhares de milhões que já ali torramos, já teríamos criado emprego para todos os desempregados do universo GES. E o final deste filme, parece-me, termina com o seu desmantelamento para peças, que, de resto, já começou, como este estranho negócio imobiliário veio provar.

Este negócio, que, basicamente, consistiu na venda de um enorme conjunto de bens imobiliários do Novo Banco, a um preço muito inferior ao valor da sua última avaliação, tendo o banco concedido também o empréstimo usado pelo Anchorage, um fundo sediado no offshore das Caimão, para a aquisição deste pacote, ficando o prejuízo a cargo do Fundo de Resolução, do qual o Estado português é o mais generoso mecenas.

(Not so) Fun fact: o fundo Anchorage, comprador do pacote imobiliário do Novo Banco, contratou, imediatamente após a conclusão deste negócio, que remonta a 2018, o vice-presidente do Lone Star, nada mais, nada menos que o dono do Novo Banco, a quem temos andado a “emprestar” vários milhares de milhões de euros. Em princípio será apenas uma coincidência, pelo menos a julgar pela idoneidade dos seus principais integrantes, grupo que incluí gente tão distinta como a dos bancos Goldman Sachs, J. P. Morgan e ING. Uma espécie de joint venture entre a Al-qaeda, o autoproclamado Estado Islâmico e o Hezbollah, versão alta finança. Os profetas da sharia ultraliberal.

Quando há sangue nas ruas, os terroristas financeiros não dormem. Está na sua natureza opaca, gananciosa e totalitária. Mas nada disto teria sido possível sem a preciosa ajuda do habitual bloco central, desde os artífices da pior resolução bancária da história, assinada de cruz por Assunção Cristas, sem esquecer o ex-secretário de Estado Sérgio Monteiro, até aos actuais detentores do poder, que acharam por bem vender o Novo Banco aos piratas da Lone Star, abrindo-lhes os cofres do Estado para se servirem à Lagardère. António Costa não pode assobiar para o lado e refugiar-se na desastrosa resolução. Foi ele quem vendeu o banco à Lone Star. E é ao seu governo que o Banco de Portugal – outro desastre – tem obrigação de reportar negócios desta natureza. Tal como o seu – e qualquer – governo deve exigir estar a par de todas as matérias desta natureza e dimensão. O governo falhou e deve explicações ao país. Mário Centeno e o Banco de Portugal também.

Na verdade, nunca existiu um banco bom. No filme da vida do GES, não existem bancos bons. São todos maus. Péssimos. Sem salvação possível. A solução é continuar a financiar o buraco, até que ele acabe por se autodestruir. Ou ser vendido às peças. Deixar cair teria ficado bem mais barato, mas estes e outros senhores feudais, das Caimão desta vida, perderiam negócios fabulosos como este. E isso, meus caros, não pode acontecer. Afinal, quem anda a viver acima das suas possibilidades somos nós. Eles limitam-se a viver à custa das nossas.

Comments

  1. luis barreiro says:

    Se fosse eu a propor isso a um fornecedor meu ele mandava-me chupar a 5 pata extra do porco, com o estado, os políticos fazem isso e muito mais e ainda dá para deitar as culpas para os cAPITALISTAS.

    • POIS! says:

      Pois tá bem!

      V. Exa. entrou em delírio! Já fez teste ao covide? Vá lá! Entre já em quarentena ou a coisa pode acabar mal! Depois não se desculpe com o “estado”.

    • POIS! says:

      Pois mas…

      Não há nada como ter uma relação franca e respeitosa com os fornecedores, como é exemplo o caso de V. Exa. Tem fornecedores á sua altura, não há dúvida!

      Mas…e se o for o próprio fornecedor a disponibilizar o porco? Nesse caso a coisa mudaria de figura, não?

    • Paulo Marques says:

      Claro, nunca há maus contractos privados aproveitados por uma das partes. Como, sei lá, comprar um browser por x% de vendas e depois fornecê-lo de graça. Ou ter alguém a copiar o design da interface que se achou que não valia a pena patentear. Nunca isso acontece no mundo da eficiência.


  2. Todos os dias se compram casas com dinheiro emprestado, e se o vendedor da casa for o banco, nada diz ao caso.

    Tudo uma treta para escamotear o facto de que o Estado tem 25% do banco e controla o Fundo de Resolução.
    Quanto a este, que dizem vir a ser pago pelos bancos, a pergunta é: quem representa no Fundo os interesses de quem em final vai pagar o pato?

    • POIS! says:

      Pois não sabemos!

      Mas dou um alvitre: olhe um pouco para trás. Sente um espanhol a aproximar-se nas suas costas? Então prepare-se. Vai ser um bocado incómodo, mas talvez venha a ficar com o pato de borla. Aliás, os espanhois não costumam gostar de pato.

    • POIS! says:

      Pois realmente!

      O comum das pessoas não sabe nada do que se passa nas ilhas Caimão!

      O clima está um horror, há muito calor e falta de espaço. Chegam a viver mais de um milhão de pessoas na área de um campo de futebol, que são os pobres dos administradores e funcionários das numerosas empresas que para lá foram porque ainda há para aí muita gente que insiste em cobrar impostos, que é uma das atividades económicas mais nocivas e obsoletas que há.

      A vida por lá está a tornar cada vez mais insuportável. É impossível aquela gente conseguir, por exemplo, dormir a sentir o ronco de um administrador de fortunas nos ouvidos o bafo de um gerente no pescoço e mesmo as madurezas de um CEO contra as costas.

      Por isso não admira que tudo esteja a pensar em emigrar, e resolveram, como é normal, recorrer ao Novo Banco para conseguirem comprar habitação própria, tal como qualquer cidadão deste país. Não sei, realmente, porquê tanto alarido!


    • Por acaso é genial.
      Vendo a casa ao desbarato ao meu cunhado. Empresto-lhe dinheiro para ele fazer o negocio.
      Como fico tecnicamente insolvente vou pedir RSI.
      Genial mesmo, e tudo na completa legalidade.

    • Paulo Marques says:

      O contabilista não sabe qual é a maneira mais trivial para lavar dinheiro?

  3. POIS! says:

    Pois eis a prova!

    O gajo que está a cumprimentar o Carlos Costa tem uma notória pinta de Soprano. Está tudo explicado!

  4. IManuel Pereira says:

    No tempo da banca nacionalizada havia cenas destas todos os dias…
    E pessoal na rua a gritar :”Queremos o nosso dinheiro!!!”
    – Viva a Banca Privada,nossa mãe!


  5. A parvoeira pseudo-humorística é o refúgio de imbecis!

    • POIS! says:

      Pois não nos diga!

      V. Exa. então é refugiado? A nossa sentida solidariedade! Realmente a vida está cada vez mais difícil para um salazaresco assumido. Ainda bem que arranjou refúgio.


  6. Continuem a VOTAR em salafrários e corruptos e calem a boca…

    A NOVA FRAUDE é fantástica. Só espero que o Tio Ricardo seja um dos DONOS anónimos do tal fundo nas ilhas paraíso!

    • POIS! says:

      Pois é de muito mau gosto!

      Que V. Exa. venha para aqui fazer campanha eleitoral, apelando ao voto em si próprio!

      Tá bem que V. Exa. acaba de ganhar o título de “Rei das Letras Capitais”, mas não sei se faz currículo suficiente para chegar a salafrário. Tenho sérias dúvidas.

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