Brevíssimo apontamento acerca do javardo

…. se não havia à mão arco ou besta, tinha o caçador de acercar-se aos braços do urso ou aos galhos do cervo ou aos dentes do javardo.
—  José Saramago

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Há quem tente chutar para canto a actualíssima notícia do javardo, por achar que se trata de uma questão de lana caprina ou, pior, por pensar que Sérgio Conceição tem razão. Como fui leitor compulsivo de Horácio (na Reclam), sou particularmente sensível à questão da ‘lana caprina’: alter rixatur de lana saepe caprina. Como leio dicionários (muitos), creio que Conceição poderá não ter razão.

Passo a explicar rapidamente a questão javardo e, depois, dir-vos-ei ao que venho.

Francisco Seixas da Costa, antigo diplomata e ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus, foi condenado ontem pelo Tribunal do Bolhão a uma indemnização de 6000 euros e a uma multa de 2200 euros, por causa deste chilreio:

Segundo a juíza,

Somos livres de entender que uma pessoa tem má educação, mas a palavra conta e a palavra tem peso. É diferente dizer que é grosseiro ou que é javardo. Podia ter dito tudo o que disse sem ter usado a expressão em causa. Aqui mostra-se a linha que não se deve ultrapassar.

Ora, uma das acepções atribuídas pelo Priberam a javardo é [Read more…]

A democracia, essa estranha, segundo Luís Montenegro

Luís Montenegro veio pedir “de forma muito serena”

(adoro este tique retórico dos políticos que precisam de explicar em que tom estão a falar enquanto falam no tom em que estão a falar, usando sempre adjectivos como sereno, frontal, firme. Imagino sempre isto transferido para o mundo da intimidade sexual, com os amantes a declararem que estão ofegantes de desejo enquanto ofegam ou outras coisas que os amantes costumem fazer lá no mundo dos amantes)

que Augusto Santos Silva exerça a sua “magistratura de influência parlamentar” de modo a que se concretize a eleição do candidato do Chega à vice-presidência da Assembleia da República. Se Santos Silva aceder e se a sua influência for assim tão grande, iremos assistir a essa lição de democracia que consistiria em ver deputados a votar de acordo com a influência do Presidente da Assembleia.

(a gente sabe que os deputados votam conforme o que lhes é ordenado pelas direcções partidárias e essa é uma perversão da democracia praticada há muitos anos no parlamento, em nome de uma coisa ilegítima a que chamam “disciplina de voto”. O facto de a perversão estar instituída não quer dizer que deva ser sempre praticada. O poder de Santos Silva dentro do PS e, por força da maioria absoluta, do parlamento, é uma realidade e será, com certeza, parte activa na não-eleição da vice-presidência chegana) [Read more…]

Luís Montenegro, potencial futuro vice-primeiro-ministro de André Ventura

Luís Montenegro está a dar tudo para fazer o frete ao CH. Por estes dias, está transformado num embaixador dos interesses da extrema-direita, que de resto nasceu no seu partido. Talvez chegue a vice-primeiro-ministro de André Ventura.

Que não restem dúvidas sobre o buraco em que Montenegro está a enfiar a direita moderada. E depois não venham com tretas que a culpa é da esquerda que empurrou a direita para os braços da extrema. Não é. Foi uma escolha deste PSD. Uma escolha consciente e informada.

Aplicações

Hoje é o dia em que nos despedimos da app StayawayCovid, e todos afirmarão com certeza que esta experiência totalitária falhada ficará registada como um dos mais pateticamente divertidos memes deste manicómio. Todos? Não. Um irredutível matemático – Jorge Buescu, um dos principais arautos da peste – continuou convencido de que a instalação de uma app teria sido a panaceia para uma pandemia devastadora. O que é que arruinou o brilhantismo desta solução? A absurda opinião pública. Ah, a opinião pública… essa subversiva entidade, especulativa, incontrolada, inimiga da ciência. Agora, olha, fodemo-nos. Ele avisou-nos. Como dizia o outro, “instalasses”.

Estes nerds autistas vêem-se com pivots giras a fazerem perguntas sobre o seu “trabalho” e isto vicia, um gajo fica agarrado e custa muito largar o mediatismo. No entanto, no caso do Jorge, o seu pessimismo parece congénito. Encontrei, por curiosidade, um livro da sua autoria na biblioteca da minha mãe, também ela matemática, mas daquelas matemáticas estranhas, que não trabalha com vírus nem apps. O titulo da obra, “O Fim do Mundo Está Próximo?” é sugestivo do seu carácter catastrofista. É de 2007, mas finalmente podemos dar a resposta: sim, Jorge, provavelmente. E a culpa é tua. Agora vai criar uma app que conte kilowatts.

A faculdade de exigir comprovativos de fatos

King. Euen as the rockes please them that feare their wracke.
Withhold reuenge deare God, tis not my fault,
Nor wittinglie haue I infringde my vow.
— Shakespeare, Henry VI, Part 3 (Octavo 1, 1595)

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Efectivamente, a faculdade existe e, pior, encontra-se consagrada no Diário da República.

Esta javardice continua e os responsáveis também continuam a fingir que nada disto está a acontecer. Em vez de perderem tempo com “a fita encarnada” de Santana Lopes, perguntem-lhe mas é o porquê do “agora facto é igual a fato (de roupa)“. E aí está o busílis da questão. A culpa, garanto-vos, não é minha. A culpa é dos defensores, promotores e amigos do Acordo Ortográfico de 1990. Exactamente.

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