Rajoy contrai mixomatose

Espanha sobe o IVA, suspende subsídio de Natal na função pública e baixa subsídio de desemprego

O mais baixo magistrado da nação

Sem o auxílio do bolo-rei, as declarações de Cavaco Silva têm outro sabor. De acordo com o vídeo, Cavaco não manda fiscalizar o Orçamento de Estado, porque nenhum outro Presidente o tinha feito. Ficamos, ainda, a saber que Cavaco, mesmo que entreveja alguma inconstitucionalidade num Orçamento, prescindirá da sua função de defensor da Constituição e dos cidadãos. E assim se confirma que o Presidente da República é, actualmente, o mais baixo magistrado da nação.

Da legalidade e da seriedade como empecilhos

Se pudéssemos exportar o chico-espertismo e a esperteza saloia, a balança comercial estaria, com certeza, equilibrada, tal é a variedade de manhas minúsculas e pequenas sagacidades em que somos pródigos.

A classe política, independentemente da graduação académica, produz alarvidades quotidianas que, por muito engravatadas que apareçam, têm a profundidade do grito de um qualquer avinhado que reclame penalties a favor do seu clube numa tasca obscura.

As leis e a seriedade são obstáculos que o político, esse estereótipo sempre confirmado pela realidade, resolve ignorar.

Passos Coelho, aparentemente sem pensar, usando da sua pusilanimidade barítona, já ameaçou estender os cortes aos privados, favorecido por um Tribunal Constitucional que, enredado nas teias partidárias, se vê obrigado, muito a contragosto, a defender a Constituição, relativizando-a, ou seja, atacando-a.

O CDS, sempre cristão no pior sentido da palavra, ignora o ensinamento de Jesus e atira um pedregulho na direcção do Tribunal Constitucional, ao mesmo tempo que ataca os funcionários públicos, recuperando o argumento – desonesto de tão simplista – de que ganham mais do que os privados.

Cavaco Silva, mais preocupado com a sua reforma e com o mural do facebook, teve o gesto do costume em defesa dos trabalhadores: ficou quieto. Será, agora, obrigado a balbuciar uma qualquer vulgaridade equivalente à ideia de que cinco minutos antes de se morrer está-se vivo, ao contrário do que acontece em Belém, onde, um minuto depois de ter sido eleito, o Presidente da República passou a ser um peso morto.

Miguel Relvas elaborou parecer sobre constitucionalidade do corte de subsídios

O Aventar soube que terá sido Miguel Relvas a elaborar, a pedido de Passos Coelho, o parecer sobre a constitucionalidade dos cortes dos subsídios de férias e de Natal. Com a mesma rapidez com que conseguiu licenciar-se e usando da mesma velocidade com que debita declarações mal lhe põem um microfone à frente, Relvas preparou um parecer em menos de um minuto, escrevendo “Os cortes dos subsídios de férias e de Natal são constitucionais.” A esse douto parecer apôs a sua assinatura, a que juntou os vários títulos académicos que obtém diariamente, terminando com uma referência à sua recente especialização em Direito Constitucional e a uma certificação de pintura automóvel em estufa que iria receber meia hora depois no correio.

O primeiro-ministro ainda terá perguntado se aquele parecer teria sustentabilidade, ao que Relvas terá respondido: “Ó Pedro, pá, então tu duvidas de uma especialização que me levou quase trinta segundos a adquirir, pá? De qualquer modo, o pessoal do TC é nomeado por nós e, mesmo que viessem a decidir em contrário, será suficientemente tarde para que alguma coisa possa ser alterada.”

Quando, ontem, o Tribunal Constitucional, estranhamente, acabou por considerar inconstitucionais os cortes dos subsídios, Passos Coelho ter-se-á mostrado irritado com o ministro adjunto. Relvas, no entanto, explicou que esta era mais uma situação em que o governo sairia a ganhar: “Ó Pedro, a minha futura e larga experiência como Juiz do Tribunal Constitucional diz-me que não seremos obrigados a devolver o dinheiro que já sacámos e que, graças a este acórdão, ainda podemos ir buscar mais algum aos privados. No fim disto tudo, sabes de quem vai ser a culpa? Dos gajos que pediram a fiscalização e do Tribunal Constitucional. Vais aparecer na televisão a dizer que não era nossa intenção, mas fomos obrigados. Até te vai aparecer uma auréola na cabecinha, menino!”

Funcionários públicos continuam a ser assaltados

Função Pública sofre cortes esta semana sem saber se são legais

Troikornos

O corno já não é o último a saber. Agora é a troika.

Os jornais garantem que o governo garante

In memoriam Manuel Dias

Não possuo estatísticas, mas aposto que é possível ler, todos os dias, vários títulos de jornais em que se afirma que alguém garante alguma coisa. Ora, a única pessoa que pode garantir alguma coisa acerca daquilo que penso sou eu.

No Público de ontem, aparecia o seguinte título:

Relvas garante que “não há intromissão” política na informação da RTP

Mesmo que todos acreditemos na sinceridade de Miguel Relvas, não seria mais seguro substituir aquele “garante” por afirma, diz, declara? E se – Deus nos livre! – viermos a descobrir que, afinal, o governo, ao contrário do que garantia, se intrometeu politicamente na informação da RTP?

No Diário de Notícias do mesmo dia, o malandro do verbo não está no título, mas aparece escondido com o rabo de fora num parágrafo:

O corte dos subsídios de Natal e de férias a funcionários públicos e pensionistas em 2012 e 2013 é “claramente” temporário, garantiu hoje o ministro das Finanças, Vítor Gaspar.

Aqui, também é engraçado tentar adivinhar durante quanto tempo após 2013 o corte será temporário. Quanto a garantias, mais uma vez, temos adivinhos ou telepatas no lugar de jornalistas. Se há coisa que temos aprendido é que a sinceridade dos políticos é claramente temporária. Mesmo que o não fosse, não há nada mais seguro do que não confundir declarações com garantias.