Postal para ti, João

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(foto do Paulo Abrantes)

Foi-se embora o meu Amigo e eu estou sozinha sem ele. Sozinha daquela solidão desamparada e infinita que vem da falta que inesperadamente nos faz o abraço. Até a pele. As noites sem dormir a conversar há muito tempo. Foi-se embora o meu amigo e eu nao sou capaz de acreditar que uma das pessoas que mais me conhecia os cantos nunca mais vai abraçar-me, ralhar comigo, cantar longamente cantar… Casar os livros dele com os meus. Respirar o mesmo ar. Até a pele. Quem vai agora dizer-me foda-se Elisa és sempre a mesma coisa? Quem vai agora dizer-me que as gajas inteligentes são mesmo muito estúpidas? Quem vai agora dizer-me que a minha memória é a de um suicida? Quem vai agora contar-me as notícias boas? Quem vai agora dizer-me que gostas daquela porque, vê la tu, escreve melhor que eu? Quem vai agora pedir-me que traduza poemas e cenas? Quem vai agora ler-me O Amor em Visita? Quem vai agora amar-me de uma certa maneira, amar-me como se amam os que se reconhecem? Foi-se embora o meu amigo e eu não sei se não lhe diga foda-se João ainda tinha coisas para te dizer. Uma agora mesmo. Ou nao sei se me ponha a chorar. Gosto muito de ti João. Acho que te disse muitas vezes. E estás em mim como a flor na ideia e o livro no espaço triste.

(Ao João José Cardoso​, que se precipitou claramente)

(O texto tem frases de O Amor em Visita, de Herberto Helder. Eu e o João sabemos porquê)

Lutaste sempre do outro lado da luta…


Quer eu queira quer não queira
Esta cidade
Há-de ser uma fronteira
E a verdade
Cada vez menos
Cada vez menos
Verdadeira
Quer eu queira
Quer não queira
No meio desta liberdade
Filhos da puta
Sem razão
E sem sentido
No meio da rua
Nua crua e bruta
Eu luto sempre do outro lado da luta
A polícia já tem o meu nome
Minha foto está no ficheiro
Porque eu não me rendo
porque eu não me vendo
Nem por ideais
Nem por dinheiro
E como eu sou e quero ser sempre assim
Um rio que corre sem princípio nem fim
O poder podre dos homens normais
Está a tentar dar cabo de mim
Cabo de mim

JJC

Há pessoas assim, excepcionais. No falar ou no estar ou no saber ou no lutar ou em tudo isso.
Notamos logo à primeira. ‎E nunca mais nos esquecemos delas. Passe o tempo que passar.
Era bom que fossemos todos assim.
Mas não somos.
Mas tu eras. E já cá não estás.

Há‎ tanto tempo que deixei de acreditar. Há tantos anos que sei que não é possível.
Mas é nestes momentos que gostava tanto de ser menino outra vez e voltar a ter fé e crer que ainda vou estar contigo outra vez.
Num sitio cheio de água das pedras e onde o nosso Porto ganha sempre.

Por ti respeito, muito respeito JJC. Grande JJC.

Todos os textos do João José Cardoso

podem ser encontrados aqui, pese embora ter legado mais que apenas palavras a quem com ele se cruzou.

“Até um dia destes, homem bom.”

JJ_Cardoso
Carlos Fonseca no seu Solos sem Ensaio.

Aventares

 

aventares

Do João José Cardoso.

Apesar de nunca ter tido a oportunidade de o conhecer pessoalmente penso ser importante dizer que o João sempre foi alguém que me impressionou pela forma como defendia as suas opiniões e pela coêrencia que sempre o caracterizou. O João partilhava de principios salutares e defendia-os de uma forma que está a desaparecer: franca e livremente, sem constragimentos, sem aderir a esta ou aquela posição só porque “é suposto” ou porque “encaixa”. Todos os seus posts neste blog revelam esta independência de pensamento e este espírito crítico. E isto é tão, tão essencial, tão necessário.

O que é preciso são mais pessoas como ele. Até sempre, camarada.

Pequena canção para a memória de João José Cardoso,

a outra pessoa portuguesa que conhecia a música (e as letras!) do Thiéfaine.

Um homem não chora, João.

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Passavam 20 minutos da uma da manhã, estava eu deitado no sofá a fingir que via televisão e o meu telemóvel toca. A tentar recuperar do susto atendi, era o João José Cardoso ou, como indicava o visor, o JJC. Nessa altura eu estava no centro de um furacão por causa de uma entrevista e o João queria puxar-me as orelhas. Pelo que eu disse, como quase todos os amigos nessa altura? Não, pelo meu silêncio absoluto após a mesma. Era assim o João.

Um apaixonado por causas, fossem elas a sua Coimbra, as suas ideias, o seu FC Porto e a sua Académica, os seus amigos ou o seu blogue. E que apaixonado ele era. Ninguém, excepto os que o conhecem, imaginam o que era o João apaixonado. Nem imaginam as vezes que telefonava, fosse a que hora fosse, por causa das mais intensas batalhas da blogosfera. O Aventar isto, o Aventar aquilo, “publica pá, que se foda, temos de dar uma coça a esses gajos”. E quem eram “esses gajos”? Depende da época, da batalha, do momento. O importante era combater, não dar tréguas, ir à luta. Tudo menos falinhas mansas. Sempre de antes quebrar que torcer.

Aparentemente, estávamos ideologicamente distantes. Só aparentemente. Sim, o João era de esquerda e eu de direita e essa poderia até ser uma enorme diferença. Mas não era. O João era um homem de causas e essas não são património de nenhuma ideologia. O João era corajoso, frontal, por vezes até incómodo mas sempre genuíno. Era o que era e ou se amava ou odiava. Por vezes ultrapassava os limites? Quem nunca os ultrapassou??? Por vezes era violento na argumentação? Ora bolas, um exemplo de um homem apaixonado que nunca o tenha sido, um exemplo, um só? E como todos os seres apaixonados era igualmente apaixonante. Era assim o João. E porra, pá, um homem não chora!

Poucos dias depois, liga-me um amigo que faz o favor de ainda ser jornalista, para me fazer uma pergunta: “Quem é o João José Cardoso?”. Expliquei-lhe que era um amigo meu do Aventar. Ao que ele me responde que o João devia ser um grande amigo, daqueles do tamanho do mundo. A justificação era simples, o João, sem eu fazer a mínima ideia, andava entre páginas de facebook e blogues a desancar numa série de malta que, pelos vistos, me criticavam. Perdi o pio. Completamente. Era assim o João.

Por isso, quando hoje o João Mendes do Aventar me telefonou a contar que o João não tinha conseguido matar o filho da puta do bicho que se apoderou dele recentemente, fiquei sem palavras. Porque perdi um amigo, um grande amigo. E fiquei a pensar, “foda-se, devia ter-me metido no carro e levado a água das pedras que o João pedira ontem na sua página de facebook!”.

João: fica comigo, para mim, a nossa última conversa, tida recentemente na esplanada do “Santa Cruz” em Coimbra e tudo o que nela aprendi sobre a tua Coimbra. Nunca me passou pela cabeça que seria a nossa última conversa ao vivo e a cores, pá. Raios parta. Um homem não chora, João!

Até um dia destes.

João José Cardoso (1959-2015)

JJC
A vida é feita de notícias tristes e a de hoje envolve directamente o Aventar. Morreu o João José Cardoso, nosso autor desde o princípio. Estava internado no Hospital de Coimbra e não resistiu a um cancro que se revelou muito mais rápido do que se esperava.
Soubemos da existência deste «bicho mau» em Julho deste ano, quase ao mesmo tempo que ele. Deu-nos a notícia no seu estilo habitual, sem meias-palavras, anunciando a «provável ausência da minha pessoa» e distribuindo o serviço que tinha com ele. Que era muito.
Entre nós, combináramos nos últimos dias uma viagem a Coimbra, mas já não fomos a tempo.
O JJC, como lhe chamávamos, era a alma deste blogue. Há muito que era assim. Com as suas qualidades e os seus defeitos, com uma escrita brilhante, plasmada em mais de 4 mil posts, uma boa dose de generosidade e um mau feitio que por vezes chegava a ser irritante. Era daqueles que não se deixava ficar, que dava sempre luta, que combatia com convicção o que considerava errado. Lutou até ao fim, escreveu o seu último texto no dia em que morreu.
Dizer que o Aventar não será o mesmo sem ele não passa de um lugar-comum, mas é a mais pura das verdades.
Por aqui, hoje estamos de luto. Estamos e estaremos. Desapareceu um de nós. Porque tudo o resto passa a ser secundário, hoje será dia de recordarmos o nosso João José Cardoso. O nosso JJC.
Até sempre, amigo.

Estou Horrorizado

Pelo contrário, JJC, estou horrorizado e até contra. Mas onde está a alternativa?! Ninguém, a começar por Seguro, me oferece uma alternativa que suporte o escrutínio não conspícuo da Troyka e a respectiva autorização.

Vamos longe, vamos, com meros simplismos e festinhas a este Governo. Achas que mudas uma vírgula ao OE2014 vulgarizando chamar-lhes «filhos da puta»? São meros amanuenses nacionais substituíveis por outros iguais. Achas que há mudanças sem começar por ir às fuças ao Draghi em plena Frankfurt, Capital Financeira Europeia?!

E digo-te mais: chamar «assassinos»; «palhaços»; «delinquentes»; «filhos da puta» é meiguice e blandícia na face tenra dos nossos paus-mandados do BCE. Isto não vai lá com marchas molhadas na Ponte ou grandes tesões cantantes e pedras na mão. É preciso arrasar com Frankfurt. Portanto, primeiro, esmagamos Frankfurt com uma chuva de cebolas podres, depois lançamos um bombardeamento cerrado de merda sobre Berlim, os camaradas que coleccionem uma pilha de estrume às bolas, e, depois de palitar os dentes triunfais, fodemos com o pessoal de Bruxelas com uma guerra de hálito a alho a ver se não aprendem quem manda em Portugal. Nós, João José Cardoso. Nós!

Viva o Rei! Abaixo a Intolerância!

Sou simpatizante da causa monárquica. Não gosto do tom provocador do meu amigo João José Cardoso. Mas gosto mais do João José Cardoso do que estou disponível para me escandalizar com o que pense. Não sou comunista nem posso ser anti-comunista.

Ao JJC é preciso respeitá-lo, amá-lo, compreendê-lo e opor-se-lhe com génio e inteligência, especialmente num âmbito muito dado às lógicas branco/preto, maus/bons, quente/frio por que certa cultura de pensar fez o seu trajecto secular.

É preciso também que tenhamos aquela tolerância editorial e aquela paciência benevolente por que se pautou a Monarquia Constitucional na maior parte do tempo e a República inicial destruiu, forjada em sangue, em jacobinice, caos, balbúrdia, acotovelamento ávido do mando, pensamento único, a baixeza indigna dos assassínios, das purgas, sangue e mais sangue, até ao cansaço-acalmia de uma Ditadura da qual alguns depois se queixaram, quando precisamente abriram caminho a ela pela morte estéril e equivocada de um Chefe de Estado. Digam-me um só exemplo de utilidade e benefício humanitário ou democrático de um tal tipo de assassínio.

Notoriamente o País pagou caro o regicídio, a desgraça desse assassínio covarde e inútil. Não será, porém, a revolução, mas a aclamação que mudará as lógicas pervertidas do actual Regime em Portugal com as suas elites viciosas. Não será talvez uma tarefa para esta geração, mas para cem ou mais anos de persuasão, comportamento exemplar, argumentos racionais e de bom senso.

O JJC faz anos

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Vorisbian


O João José Cardoso, meu irmão de armas e de copos, tem um espaço novo no wordpress. Por agora é apenas um quartinho e chama-se Vorisbian, nome do surrealista e anarquista francês que viveu, brevemente, entre 1920 e 1959.
Ninguém espere que o João José Cardoso vá para o seu novo espaço escrever o que escreve no Aventar. O seu contrato nem sequer o permite. Ou muito me engano ou vamos ter por ali um espaço bem alternativo para todos aqueles que estão completamente fartos disto. E isto, todos sabemos o que é.
Que sejas feliz por lá, irmão.

Gostei muito deste bocadinho

A experiência de participar no Aventar, um bom esforço para tentar criar um blogue de topo a partir das caixas de comentários, e uma melhor tentativa de inventar blogues políticos plurais, foi gratificante, palavra a usar sempre nestas ocasiões.

Agradeço ao Ricardo o convite e aos aventadores a diversão conjunta enquanto a houve.

É realmente possível criar blogues onde se escreva sobre política sendo os participantes adversários políticos. E fazê-lo despreocupadamente com uma escrita popular, se quiserem meio tablóide, à velha imagem dos jornais, que a roda foi inventada antes da pólvora mas continuamos a usar as duas.

A minha capacidade de convivência com o analfabetismo é que é, até por deformação profissional, limitada. O resto é choque de egos, e escrever é sempre egocêntrico senhores, mais duas ou três trapalhadas, e para já levo a minha parte dessas coisas para a liberatura em formato blogue, regressando à primeira coisa que fiz quando aprendi a palavra html, na altura apenas uma sigla.

Acima de tudo,  e o que vale mesmo e sempre a pena, levo daqui amigos com quem na política nada tenho, mas ficaram meus camaradas na mesma. Colegas são as putas, como se sabe.