Influências da Língua Árabe no Português


Este artigo foi revisto e actualizado neste link: http://historiasdeportugalemarrocos.wordpress.com/2014/02/04/influencias-da-lingua-arabe-no-portugues/

Comments

  1. Simplesmente fantástico… diria interessantíssimo e com um grande valor cultural…

  2. L Vieira says:

    (al)meida, trata-se geralmente de mesa com jantar, ou jantar na mesa e convidados, não propriamente mesa (fonte: amigo árabe)

    • Frederico Mendes Paula says:

      L Vieira_ tem razão no sentido que (Al)meida é a mesa onde se come, ou seja, não é o nome dado a qualquer mesa, mas apenas à mesa onde se come.
      No entanto o nome existe também aplicado a “meseta” ou “planalto”, como é o caso do topónimo da Cidade de Almeida.

  3. Frederico Mendes Paula says:

    Nuno Castelo-Branco _ conforme escreve Luís teixeira Neves, o nome Nuno parece ter origem no Hebreu como sinónimo de “peixe”.
    Em relação ao comentário de Ib Kamel sobre Nuno significar em Árabe “menino” ou “pequeno”, tenho a comentar que de facto os Árabes chamam aos bébés NUNU, que terá origem no nome de um pássaro muito pequeno chamado SANUNU. Mas parece que esse nome não terá relação com a origem do nome próprio Nuno.

  4. Frederico Mendes Paula says:

    Luís Teixeira Neves _ um comentário ao termo Miróbriga. O sufixo “briga” parece estar ligado com a cultura castrense, reportando-se a topónimos de castros. Como exemplos refiro Lacóbriga, origem do nome da cidade de Lagos, e Talabriga, origem do nome da cidade de Tavira.

  5. Amadeu says:

    Salamaleques para o Frederico !!

  6. Frederico Mendes Paula says:

    João Vargas Reis _ Nuraddin é um nome composto de NUR (LUZ) e DIN (RELIGIÃO). Significa pois LUZ DA RELIGIÃO

  7. Muito interessante a recolha. Parabéns!

    Todavia “Alfama” significa a escola e a mesquita, pois fazia as vezes das duas (Al Gamaa). Atente-se à escrita da letra “f” em árabe e à da letra “g” e “h”. São similares.

    “Safara” significa a Embaixada, pois Safir é o embaixador e Safira, a embaixatriz.

    Boa recolha! Vou utilizá-la nas minhas aulas com alunos do 3º ciclo e ensino secundário.

    Sinceros cumprimentos.

  8. Frederico Mendes Paula says:

    Obrigado pelo seu comentário Eveline, que merece toda a minha consideração.
    Gostaria no entanto de deixar aqui umas notas sobre o que escreve.
    Muitos dos topónimos portugueses foram transmitidos oralmente e não através da escrita.
    Por outro lado, para muitos dos topónimos existem várias possibilidades relativamente à sua origem, pelo que penso que em muitos casos não podemos afirmar com certeza de onde provêm.
    No caso de ALFAMA refere que as consoantes F, G e H Arabes têm escrita similar. De facto o DJIM Arabe ج e o HÁ ح apenas diferem um do outro porque o DJIM tem um ponto por baixo. Mas o FÁ ف nada tem a ver com as outras duas consoantes em termos de escrita. Não existe assim uma relação entre o DJIM e o FÁ em termos escritos (nem em termos fonéticos). Pessoalmente não conheço nenhuma palavra Arabe começada por DJIM que passe para português começando por F. Mas entre o HÁ e o FÁ, apesar de também não existir uma relação em termos escritos, existe uma relação em termos fonéticos _ é que o H não se pronuncia em português e então a maioria das palavras Arabes começadas por HÁ passam para o português transformando o HÁ em F. Veja-se o caso de ALMOFADA, ALFAIATE, e, acrescentarei, ALFAMA.
    No entanto, se tem acesso ao nome de Alfama escrito em Arabe seria interessante verificar se é de facto JAMAA ou HAMMAM (faço notar que o som G só existe no Egipto, e o DJIM tem em Arabe o som J).
    No caso de SAFARA reconheço que a origem mais imediata será EMBAIXADA, mas não é isso que encontrei na pesquisa que fiz, e a explicação para ter a sua origem em SAHARA é a mesma que para ALFAMA _ a passagem do HÁ para F.
    Quanto à questão de a Mesquita ser sempre local de culto e escola, é verdade apenas em algumas situações, principalmente nas antigas universidades, dado que, a grande maioria das Jamaa são apenas mesquitas.

    • irina says:

      Boa tarde,
      Cheguei ao seu artigo procurando o significado de “Alfama”.
      Aqui
      (http://www.lexico.pt/alfama/)
      diz que é um “Bairro ou alcoice de judeus. Asylo, refúgio. (Do ár.)”
      Como assim?
      Obrigada!

      • Hisham ibn Umaya says:

        Cara Irina, veja o meu comentário de 6/1/2013 (4º parágrafo), a resposta está lá. Irá constatar que é extremamente improvável (mas não impossível) que “Alfama” tenha a origem atribuída no mencionado sítio.

        • irina says:

          Caro Hisham, OBRIGADA! agora está tudo claro :-) “fonte termal de áqua quente” para mim também faz mais sentido…

  9. Cirilo says:

    Arrábida (lugar de oração), Azóia (Azauia, ou lugar de oração) como?

  10. Frederico Mendes Paula says:

    Obrigado pelo seu comentário, porque permite esclarecer o significado demasiado “simplista” e pouco rigoroso que atribuí aos dois termos.
    De facto, se virmos bem, lugar de oração para os muçulmanos é a mesquita, termo que provém do Arabe “massjid”.
    As arrábidas e as azóias eram mais do que isso, porque aliavam ao local de culto em si outras funções, principalmente de meditação e retiro.
    As arrábidas eram basicamente conventos fortificados, geralmente localizados em sítios ermos.
    As azóias tinham a sua origem no local onde teria sido sepultado um santo, e funcionavam como sedes de confrarias ou irmandades. Para além de conterem uma mesquita, incluíam uma escola corânica e davam guarida a peregrinos ou outros religiosos que necessitassem de abrigo. As azóias tinham também uma função militar, funcionando como sedes de “cavalaria espiritual”, que podemos fazer corresponder às ordens religiosas-militares cristãs, como por exemplo os templários. Por esse motivo as azóias situavam-se geralmente nas fronteiras das zonas islamizadas, no Andalus nas fronteiras com os reinos cristãos, no Magrebe nas fronteiras com as zonas ocupadas pelas tribos berberes.

  11. Maria José Relvas says:

    Tenho tentado em alguns sites descobrir o significado do nome da minha aldeia natal, marcadamente de origem árabe – ALMOÇAGEME. Descobri duas versões comuns a vários sites, um como sendo “mesquita” outro como sendo “rios que correm”. Apesar de aparecerem quase com a mesma frequência, não consegui ficar esclarecida qual a versão mais verosimil. Além disso, tenho muita curiosidade em saber qual a grafia da palavra em árabe.
    Fiquei muito contente por ter encontrado este site onde consta esta sua interessante recolha. Desde já os meus sinceros parabéns e muito obrigada,

  12. Frederico Mendes Paula says:

    O termo ALMOÇAGEME não tem qualquer significado na Língua Árabe, sendo portanto um termo derivado de uma palavra Árabe.
    Em relação à possível origem do termo na expressão RIOS QUE CORREM, não me parece razoável, já que em Árabe se traduz por ANHAR JARIA. No dialecto marroquino a expressão traduz-se por OUAD JARI, não tendo portanto qualquer uma delas uma relação fonética com ALMOÇAGEME. No entanto a palavra ALMASSJID, plural ALMASSAJID, que significa A MESQUITA tem toda a relação. Faço ainda notar que o termo MESQUITA era comum enquanto topónimo Árabe, sendo assim muito provável que seja esse de facto a origem da palavra ALMOÇAGEME.
    De seguida escrevo a palavra em caracteres Árabes, no singular e no plural.
    المسجد = ALMASSJID
    المساجد = ALMASSAJID
    Obrigado pelas suas palavras e cumprimentos

  13. Maria José Relvas says:

    O excerto abaixo consta num dos sites que consultei e exibe as duas versões consideradas possíveis para a origem do nome de ALMOÇAGEME.

    Aparentemente a forma escrita da palavra árabe que significa A MESQUITA não é coincidente, poderá corroborar se são a mesma palavra ou existe um lapso na palavra que aparece neste excerto do texto.

    Poderá haver alguma coerência ou relação da palavra AL-MUNSAGEM, abaixo transcrita como significando “ÁGUA QUE CORRE, OS RIACHOS”, com a palavra ALMOÇAGEME.

    “Assim, e segundo diversos estudos, Almoçageme tem raiz na palavra árabe al-masjid ou al-mesijide, que significa “a mesquita”. Desconhece-se, no entanto, se existiria nesta localidade alguma mesquita que tivesse dado origem a esta toponímia. Contudo, para a denominação Almoçageme, existe outra interpretação (*), a qual, atribuindo a mesma origem islâmica, refere que o termo a considerar é al-munsagem , que significa ” água que corre, os riachos”. Esta interpretação é a mais coerente, evidenciando a profusão de inúmeros pequenos ribeiros que, então todos a céu aberto, corriam abaixo pela encosta ocidental da serra de Sintra.”

    (*) Maria Teresa Caetano, Joaquim Filipe
    Ler mais: http://www.bvalmocageme.pt

    Sinceros cumprimentos e obrigada pela disponibilidade,

  14. Frederico Mendes Paula says:

    ALMOÇAGEME _ palavra que não existe em Arabe, como tal dela deriva
    ALMASSJID _ a mesquita مسجد (http://www.wordreference.com/aren/مسجد)
    ALMUNSAGEM _ congruente, concertado, concordante, compatível منسجم (http://www.wordreference.com/aren/منسجم)
    agua que corre _ ALMA ALJARI الماء الجاري
    riachos _ UADIAN وديان

    pelo exposto, não encontro relação entre ALMUNSAGEM e “agua que corre” ou “os riachos”
    cordiais saudações

  15. Radhouan says:

    Caro Frederico, obrigado por esta recolha muito interessante e valiosa para sustentar-me em tantas discussões com portugueses reticentes com a +/- ampla influencia da língua árabe na língua portuguesa, uma mistura de várias origens para criar uma língua muito rica. Obrigado.
    Dito isso! Permito-me de dar do meu contributo para a sua discussão com a Maria José a cerca da origem/significado da palavra ALMOÇAGEME.
    Em facto sou de opinião que o significado da palavra é literalmente: “a água corre (ou derrame) ” em fonético: Almae (água) Sagim (corre) “الماء سجم ” (para quem consegue ler em árabe, deixo aqui uma ref: http://tiny.cc/Winf2b)
    O verbo “Sagim” não é muito comum de utilização mas é associado geralmente a chuva (que cai) ou a lágrima (que é derramada)
    Mas devo dizer que a palavra pode referir-se as ribeiras ou riachos naquela zona mas não é definitivamente uma tradução destas palavras do árabe
    Espero que foi de uma certa ajuda
    Cumprimentos e mais uma vez obrigado por este precioso artigo

  16. Frederico Mendes Paula says:

    Caro Radhouan
    Muito obrigado pelo seu comentário. De facto o que escreve faz todo o sentido e vem esclarecer a questão colocada pela Maria José.
    Cumprimentos e
    Chukran jazilan

  17. Lilian Monteiro says:

    Gostei muito deste artigo. É excelente e bestante esclarecedor. Meus alunos se sentiram bastantes motivados a continuarem com suas pesquisas.

  18. Hisham ibn Umaya says:

    As minhas felicitações para este artigo muito interessante, apesar de talvez pouco conciso. Entre outros pontos que poderia comentar, reparei neste enunciado:

    “Algumas consoantes Árabes não entram nos vocábulos portugueses por uma questão de não se adaptarem à forma de pronunciar do português, como o h que geralmente se transforma em f, como em Alfama (do Árabe Alhammam), Alfazema (do Árabe Alhuzaima) ou Alface (do Árabe Alhassa).”

    Gostaria de minunciar que existem dois sons em árabe associados à grafia do “f” em português, que são o «ḥā’» (ح) e o «khā’» (خ). Assim temos “albufeira” (al-buḥayra/البحيرة), “alfazema” (al-khuzāmā/الخزامى), “alface” (al-khass/الخسّ) ou “alfarroba” (al-kharrūba/الخرّوبة).

    Relativamente à palavra “Alfama”, esta deriva de al-ḥamma (الحمّة), com o sentido de “fonte termal de áqua quente”, visto ter existido uma na zona, provavelmente no local que hoje se chama Largo do Chafariz de Dentro. Esta é a explicação hoje em dia normalmente atribuída pela maioria dos linguistas e historiadores sobre a questão. Mas existem outras, como a de João de Sousa (Vestígios da língua arábica em Portugal, ou lexicon etimológico das palavras e nomes portugueses que têm origem arábica, Lisboa, 1830) que diz que é proveniente de “alhama” / الحمى (sic) com o sentido de “refúgio” e sendo o nome de um bairro em Lisboa. Apesar de ser uma origem pouco provável, não deixa de ser interessante observar que nas variantes coloquiais magrebinas do árabe, utiliza-se “ḥūma” para “bairro”, mas a meu ver esta explicação também seria um tanto forçada.

    À parte esta questão, gostava de relembrar que é preciso ter em conta que existem duas vagas principais de introdução de vócabulos árabe na língua portuguesa, sendo que em cada uma é nítida dois tipos genéricos de proveniência: élites (militares, governamentais, agrónomas ou científicas) e povo. A primeira vaga dá-se durante a presença da civilização islâmica na Península Ibérica. Desta vaga resultaram sobretudo a maioria das palavras portuguesas iniciadas por “al” (almoxarife) ou “a” (azeite) e carateriza-se pelo facto destas palavras terem sido introduzidas diretamente pelas élites árabes e arabizadas e pela adoção espontânea da população autóctone na interação com a língua árabe. A segunda vaga dá-se durante e depois da conquista franco-cristã da Península Ibérica. Por um lado os cientistas, cientes da enorme contribuição dos centros de saber onde o árabe era língua de erudição, continuaram depois do séc. XIV a adotarem imensas palavras árabes. O caso mais flagrante é a astronomia com os nomes de estrelas ou palavras como “azimute” (السمت). Estas palavras não foram introduzida no português de forma direta, mas através de outros centros de saber europeus que se haviam apropriado dos conhecimentos dos centros de saber da civilização islâmica (houve uma altura em que os cientistas europeus iam estudar entre os árabes e os persas…). Por outro lado, ao nível popular existem várias palavras que foram introduzidas via o comércio portuário catalão e italiano, e posteriormente para outras línguas como o português. Por exemplo, a palavra “tarifa” (تعريفة) terá sido introduzida apenas no séc. XIV via Veneza e Barcelona. A língua espanhola regista na escrita esta palavra apenas depois do séc. XVII e estima-se que terá entrado no francês e no inglês pouco antes, no séc. XVI. A palavra “resma” (رسمة), que curiosamente também existe em inglês apesar de pouco utilizada, também se engloba nesta segunda vaga. Outro exemplo é palavra “mesquinho” que apareceu primeira em Veneza entre os marinheiros que faziam comércio com os árabes e posteriormente foi adotada pelos marinheiros portugueses em contacto como os venezianos. A caraterística principal desta segunda vaga é a sua entrada indireta na língua portuguesa (sobretudo via marinheiros e cientistas) e a ausência do artigo definido “al”.

    A primeira vaga corresponde a cerca de seis ou sete centenas de vocábulos portugueses. As duas vagas em conjunto somarão três ou quatro milhares, dependendo dos critérios aplicados.

    Não nos esqueçamos ainda que muitas palavras introduzida via árabe são por sua vez e nitidamente vocábulos que os árabes importaram de línguas de povos vizinhos, nomeadamente o aramaico e o síriaco (línguas também semitas), o grego, o persa e até mesmo o próprio latim (linguas indo-europeias), como é o caso da palavra “sirāṭ” que relembra o latim “strata”, ambas com o mesmo sentido, “estrada”.

    Bem hajam a todos.

  19. Sylvio Reis says:

    Muito esclarecedor.
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