A demagogia

Por causa do Aventar, dediquei-me novamente à consulta regular e aleatória dos dicionários. À sorte abri no “D”. E sem querer olhei para Demagogia. Diz o meu fiel Dicionário Koogan Larousse Selecções que demagogia é: s.f. Política que favorece as paixões populares. / Dominação das facções populares. Mais abaixo diz que um demagogo é: s.m. Aquele que lisonjeia a multidão para tirar proveito pessoal. / Agitador que excita as paixões populares. No Dicionário On-line Priberam demagogia é: s. f. Preponderância do povo na forma do governo. / Abuso da democracia. / Dominação tirânica das facções populares. No entanto, a Wikipédia diz outra coisa, o que tem toda a lógica. Independentemente da questão etimológica, tudo me leva a a concluir que praticamente todos (ou todos) os políticos modernos são na realidade, demagogos. Raramente um deles escapa a acusações de corrupção ou favorecimento alheio. É só estar atento às notícias e à blogosfera. Se quisermos ser mais incisivos podemos até assistir ao Jornal de Sexta da TVI. Se na Assembleia da República estão sempre a insultar-se mutuamente de demagogos é porque se facto ser demagogo é uma má atitude e condenável em sociedade.
Não é que não goste de políticos. Eu não tenho que gostar ou não gostar de nada. Mas tenho todo o direito de me sentir incomodado e principalmente irritado (muito irritado mesmo) perante as contínuas notícias de falsidade, corrupção, roubo, fraude, suborno, favorecimento e conluio em que os políticos estão envolvidos. Infelizmente, no mesmo saco, estão como se sabe, muitos dirigentes, gestores e administradores que têm o mesmo tipo de poder sobre as massas. E usam da mesma demagogia. Aliás, quem paga as campanhas políticas? Porque vêm os grandes gestores de empresas comentar a vida política? Quem ganha com os investimentos públicos? Para onde saem os políticos para a vida pública?

Obviamente, e como está visto ao longo da História, a demagogia é um autêntico sub-produto inerente das grandes massas e do próprio Povo. Onde quer que haja um povo, sobressairá um líder apoiado por seguidores. E mais cedo ou mais tarde, o sistema entrará em declínio e a demagogia imperará novamente. É normal. E nada mudará. Aqui e agora, só mudará pelo uso da empatia generalizada de políticos e dirigentes – o que eu pessoalmente não acredito -, ou porque mais cedo ou mais tarde, alguém neste país pegará novamente em armas como em Abril de 1974 , para mostrar verdadeiramente a face do descontentamento.

A centralisação, na cópia portuguesa, como hoje existe e como a soffremos, é o fidei-commisso legado pelo absolutismo aos governos representativos, mas enriquecido, exaggerado; é, desculpae-me a phrase, o absolutismo liberal. A differença está nisto: d’antes os fructos que dá o predominio da centralisação suppunha-se colhê-los um homem chamado rei: hoje colhem-nos seis ou sete homens chamados ministros. D’antes os cortezãos repartiam entre si esses fructos, e diziam ao rei que tudo era
d’elle e para elle: hoje os ministros reservam-nos para si ou distribuem-nos pelos que lhes servem de voz, de braços, de mãos; pelo
partido que os defende, e dizem depois que tudo é do paiz, pelo paiz, e para o paiz. E não mentem. O paiz de que falam é o seu paiz nominal; é a sua clientella, o seu funccionalismo; é o proprio governo; é a traducção moderna da phrase de Luiz XIV  “l’état c’est moi”, menos a sinceridade.

Alexandre Herculano – Carta aos Eleitores do Círculo Eleitoral de Sintra, 1858 (www.gutenberg.org)

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  1. Grande Alexandre Herculano.

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