Touradas

Recentemente a Câmara Municipal de Viana do Castelo decidiu proibir a realização de touradas na cidade. Não me interessa  tanto a medida em si, que terá certamente muitos defensores e outros tantos detractores, mas sim uma pergunta em concreto que a decisão suscitou a um jornalista. Neste caso, foi um pivot da SIC Notícias, cujo nome infelizmente não recordo. Perguntava este ao presidente Defensor Moura se estava certo de que a medida correspondia à vontade da maioria da população. Visivelmente pouco habituado, como de resto a maioria dos autarcas, a ser confrontado com esta questão, o presidente esquivou-se e foi necessário repetir a pergunta. E então respondeu que não precisava de saber isso, só precisava de saber que Portugal havia subscrito uma declaração de defesa dos direitos dos animais.

No que me diz respeito, gostaria que se acabasse de vez com as touradas, não tanto por proibição mas porque fosse crescendo uma sensibilidade que visse com repulsa os maus tratos infligidos aos animais. Mas pergunto-me porque razão tão poucas vezes se pergunta a um autarca se está certo de que qualquer uma das medidas que pretende implementar corresponde à vontade da maioria dos seus munícipes.

Responder-me-ao que não precisa de estar, foi eleito pela maioria para decidir e a contínua consulta aos cidadão atrasaria a tomada de decisões e tornaria a governação impossível. Mas não posso deixar de pensar que, pelo menos ao nível do poder autárquico, poderia e deveria ser de outro modo.

Queria a maioria dos portuenses que o teatro Rivoli fosse entregue às soporíferas encenações do sr. La Féria? Queria a maioria dos portuenses que a Avenida dos Aliados fosse despojada sem piedade de qualquer vestígio de árvores de sombra, flores, relva, bancos de jardim, para que em seu lugar se estendesse o cimento e se colocassem umas pobres árvores depenadas, que mais pareciam sobreviventes de um holocausto?

E, da mesma forma, podemos perguntar se era a vontade da maioria dos portuenses que se teve em conta quando se pensou entregar a privados a gestão do mercado do Bolhão, do pavilhão Rosa Mota, da praça de Lisboa, do mercado Ferreira Borges?…

Desculpar-me-ao se me centro exclusivamente na cidade do Porto, mas creio que não deverá ser difícil enumerar, em muitas outras cidades deste país, situações semelhantes. Afinal, com maior ou menor mestria, vamos todos sendo toureados.

Manuela Ferreira Leite convenceu-me a ficar distraído

Ferreira Leite

Mariano José Pereira da Fonseca, marquês de Maricá, brasileiro, foi escritor, filósofo e político brasileiro do século XVIII. Foi ministro das Finanças, conselheiro de Estado e senador do Império do Brasil. Foi doutor em filosofia e consagrado em matemática pela Universidade de Coimbra, em 1793. Como escritor, foi autor de várias obras, sendo “Máximas, Pensamentos e Reflexões” a mais conhecida. São quatro volumes, com um total de 3169 artigos. Por aqui já se vai tirando a pinta ao homem.

Lá pelo meio, o Marquês de Maricá, diz-nos que “Ordinariamente nos fingimos distraídos quando não nos convém parecer atentos”. Foi dessa frase que me lembrei quando soube da manifestação de intenções de Manuela Ferreira Leite, anunciada esta noite, em entrevista a Mário Crespo, na SIC.

Vejamos. A presidente do PSD foi questionada sobre o cenário em que se sentiria mais confortável, se numa aliança do PSD com o CDS-PP ou se num novo Bloco Central com o PS. Respondeu: "Eu sentir-me-ia confortável com qualquer solução em que eu acredite, em que eu acredite que a conjugação de esforços e, especialmente, a conjugação de interesses – interesses no sentido do país – são coincidentes. Se perceber que o objectivo país não é propriamente aquele que está no centro das atenções, então com dificuldade haverá um Governo que possa contribuir para a melhoria do país".

O que é que eu pensei? Com toda a certeza ando distraído para não perceber patavina desta frase. Para além da expressão redonda, da fórmula diz que não disse, como quem diz mas pode sempre, a qualquer momento, dizer que não foi bem assim, a presidente do PSD parece-me abrir as portas a qualquer acordo pós-eleitoral. Num jeito de “como não chegamos lá sozinhos, vamos para lá acompanhados, mas vamos para lá”. O “lá”, está bom de ver, é o poder, o governo.

Com objectivos claros de me sossegar, à Lusa, Ferreira Leite disse que "como é sabido" recusou sempre "a hipótese de um Governo de Bloco Central", considerando abusivo que se faça essa interpretação das suas declarações à SIC, que tinham sido gravadas.

Descansei. Afinal tinha razão.

Bem vistas as coisas, acho que vou fazer como o Marquês de Maricá.

Mas que raio faz um Capitão de Abril no PS?

Como baixar o desemprego sem querer

A ministra da educação e o primeiro ministro arranjaram uma forma espectacular de baixar o número de desempregados no país. Vão estender o ensino obrigatório até ao 12.º ano. Acho bem. Eu sempre adorei a escola. Eu e todos os meus amigos. Mas era a parte do recreio, onde se aprende bastante e as casas de jogos e bilhar que fervilham sempre em volta das escolas. Mas este facto deve ser coincidência. Ou seja, este novo pessoal que anda a passear os piercings no umbigo e o novo i-phone nas escolas, vai passear mais tempo até ao 12.º ano. E os que vierem a seguir, é que vão ficar com uma cabeça ainda maior, porque esses vão ter ensino obrigatório até pelos menos ao bacharelato. Com sorte, daqui a uns anos, vai ser obrigatório permanecer na escola até à apresentação final da tese de doutoramento. Assim, eleva-se o nível académico dos portugueses (parece que é difícil reprovar hoje em dia, não é?) e só começa a haver desempregados a partir, para aí dos 35/40 anos. Resolvem-se dois problemas de uma vez só. E ainda há quem critique as políticas do governo.
Se calhar sou eu que vejo mal as coisas. É que eu sou um dos pessimistas, e sou um alvo a abater pelos optimistas de Estado. Vejo sempre, mas sempre, o lado negativo das questões. Mas se calhar foi a presença, na conferência, do ministro do Trabalho, que me fez pensar que isto era uma manobra disfarçada de controlar os futuros números altos do desemprego. Mas se calhar foi só coincidência.

Regionalizar ou descentralizar ?


Este país está gordo e anafado com com uma enorme classe política e com uma multidão de funcionários públicos. Não podemos correr o risco de o engordar ainda mais. Se me dizem que é preciso, urgentemente, descentralizar profundamente com efectivas capacidades de decisão e meios financeiros e humanos para o resto do país, estou completamente de acordo.
Quanto ao regionalizar é mais complicado. Já estive em Espanha com funcionários e políticos e sei no que dá. Felizmente que nós não temos os problemas regionalistas que a Espanha tem. Regionalizar pode ser, por exemplo, assentar orgãos regionais nos presentes orgãos locais. Pode ser eleger executivos que são constituídos por meia dúzia de pessoas e não as Assembleias com dezenas… é preciso que não se crie mais uma classe de burocratas. E não sejamos ingénuos, todos os lugares eventualmente criados por uma possível regionalização já têm dono.

D. MANUELA E A REGIONALIZAÇÃO

PRIORIDADES

Para a chefe do PSD, a regionalização, se bem que sempre falada e discutida, não é prioritária. Esquece a D. Manuela, que o País precisa de uma descentralização grande e urgente. E que essa descentralização não se faz por causa dos detentores do poder, que não querem sair do Terreiro do Paço, nem deixam que os poderes que detêm, por mais pequenos que sejam, saiam da beira deles ou do seu controlo. Por isso, só uma regionalização, pode acabar com esse estado de coisas, acabando com a hipótese do poder estar noutro lado que não seja a região para a qual tem e deve, servir.
A D. Manuela está enganada. Grande parte dos filiados no seu partido, e nos outros também, já viram as vantagens que a regionalização tem. Estará na hora da senhora também ver.

O castigo dos porcos

Agora é que é. Parece que é agora que vamos morrer todos. Ou quase.
Há uns dois anos atrás, era a gripe das aves, agora é a vez dos porcos.
É impressão minha ou agora passou a moda termos uma pandemia de tempo a tempos? E ninguém questiona o porquê destas situações?
Nós, os humanos, culpados? Não! Isto não tem nada que ver com a contaminação dos solos com poluentes e pesticidas. Não, isto não tem nada a ver com as condições industrializadas e diabólicas em que “produzimos” animais para o matadouro. Não, isto não tem nada a ver com os transgénicos e restantes trapalhadas das empresas de adubos. Não, isto não tem nada a ver com a poluição toda dos cursos de água. Não, isto não tem nada a ver com o “nosso modo de vida”.
Isto tem a ver com os porcos! E a culpa é toda deles. Castiguemos os porcos. É matar os porcos todos e fazer uns novos resistentes a estes vírus que aparecem miraculosamente na natureza. De certeza que um cientista qualquer consegue provar que isto “é natural”.

TRAVESTIDOS

TVI – JORNAL DA NOITE

Gostei de ver o dr Medina Carreira a zurzir no governo, a fazer coro com a d. MMG. Segundo este ilustre do nosso País, um dos mais esclarecidos que por cá há, estamos mal e vamos ficar pior.
Não largam o nosso Primeiro (a TVI) e fazem bem, que é para isso que fazem jornalismo, que deve ser isento. Foram largos minutos a bater no homem, com o comentador de serviço a ajudar bastante à festa.
Mais uma vez, gostei deste jornal de sexta-feira.

PAIXÃO VIOLENTA

HOMICÍDIO TRAVESTIDO

Não é costume, na nossa terra, saber da morte de um oriental. E de morte violenta é ainda mais anormal. Se se disser que é o segundo homicídio, em três dias, envolvendo orientais, então o caso transcende a mais completa normalidade.
O caso do travesti assassino, pode trazer à baila a acusação feita por um sr com responsabilidades no mundo político Português, que usou a expressão para qualificar de forma insultuosa e degradante os jornalistas do Jornal da Noite da TVI. Hoje como nunca os travestis estão na boca do mundo. Uns matam politicamente, outros efectivamente.
Tudo isto deverá ser classificado de crime passional.
Todos o farão com, e por paixão.

É duro ser liberal


Ao fim de vinte anos de desregulação dos mercados, da globalização sem a consequente regularização global, o mundo caiu numa depressão económica sem precedentes. É preciso voltar a 1930 para se encontrar algo parecido. O fosso entre os mais ricos e os mais pobres acentuou-se, há vastas áreas do globo na miséria. Mas os nossos liberais não se atemorizam com tão pouca coisa. Lançam mãos do seu inimigo de estimação – o Estado- para saírem do buraco. E do dinheiro dos contribuintes. Os exemplos, embora menos visíveis, acumulam-se resultantes das malfeitorias da “mão invisivel do mercado”. A América do Sul, com potencialidades económicas extraordinárias nunca saiu da pobreza. Produtores de petróleo como a Venezuela o mais que conseguiram foi criar uma elite endinheirada indiferente à miséria do resto do povo. No Chile e à boleia da ditadura de Pinochet, Friedman e os seus boys aplicaram os seus princípios neo-liberais à economia só possíveis no ambiente do Chile torcidário, e em ditadura. Porque é preciso ver que os princípios teóricos do neo-liberalismo, são inaceitáveis para quem é cobaia. “Há sempre quem queira trabalhar por um salário mais baixo” diz quem não concorda com a fixação do salário mínimo.Pois há , se não tiver qualquer alternativa, e se não se importar de viver na miséria. A verdade é que uma doutrina filosófica e política que assenta na “liberdade individual” é travestido, quando aplicado na economia, num ferrete de miséria e humilhação. E quando a feira é levantada quem paga a factura são a imensa mole de trabalhadores a quem o liberalismo com desprezo paga salários de miséria. É duro ser Liberal!