Venha ver o paraíso

A actual Miss Venezuela e Miss Universo, a loiríssima Dayana Mendoza, descreveu a base militar de Guantánamo como um local “relaxado, tranquilo e bonito”, onde os prisioneiros “se divertem com filmes, aulas de arte, livros”. Dayana visitou a base na companhia da Miss EUA, Crystle Stewart, tendo ambas sido convidadas pelo USO (United Service Organizations), uma organização que tem por objectivo dar apoio moral aos soldados americanos no exterior e organizar actividades recreativas para as tropas. Estas afirmações virão provavelmente calar todas as organizações não-governamentais que têm vindo a denunciar absurdos atropelos aos direitos humanos, atropelos que claramente nunca existiram numa base militar em que os prisioneiros passam as tardes a discutir o significado da última cena do “2001”, a aperfeiçoar técnicas de pintura a óleo ou a aproveitar os anos de clausura para finalmente pôr em dia o “A La Recherche. Deve ter sido, aliás, pela experiência vivida por estes prisioneiros ao longo da sua estada em Guantánamo, que Luís Amado tão amavelmente se ofereceu para acolhê-los nas cadeias portuguesas. É que esta gente não pode estar quebrada pela tortura, pelos processos obscuros que os condenaram a penas longuíssimas, pela colaboração pouco clara da equipa médica (os Biscuit) com os interrogadores. Iremos vê-los descer do avião que os traz desse lugar relaxado, tranquilo e bonito, com os rostos bronzeados e enfurecidos por terem sido forçados a trocar o paraíso por Portugal. E que dirá Chávez da sua compatriota Miss Universo?

A derrota de Elisa Ferreira

Pode ser que me engane, mas parece-me que Elisa Ferreira já perdeu a corrida à presidência da Câmara Municipal do Porto.
Por três razões: o corte afectivo na ligação que mantinha com a cidade devido a cinco anos de Parlamento Europeu; o verdadeiro «saco de gatos» que é o PS/Porto; e a boa imagem que, apesar de tudo e vá-se lá saber por quê, Rui Rio mantém entre os eleitores portuenses.
Vamos por partes. Elisa Ferreira foi sempre uma referência da cidade do Porto, sobretudo nos tempos em que pertenceu ao Governo, mas está há cinco anos em Bruxelas e já poucos se lembrarão dela. Ainda por cima, no momento em que concorre à Câmara do Porto, não abdica de se manter nas listas para o Parlamento Europeu.
Depois, o PS/Porto. Com amigos assim, Elisa Ferreira não precisa de inimigos. O «saco de gatos» que é a concelhia da Invicta não lhe perdoa o facto de ser independente e de ter sido imposta pelo primeiro-ministro. Foi revelador o episódio da reunião realizada há algumas semanas e da azeda troca de palavras entre a candidata e o líder da concelhia, Orlando Soares Gaspar. No dia seguinte, tudo estava na imprensa.
Por fim, Rui Rio. A verdade é que, por muito que nos custe, o Presidente da Câmara mantém uma boa imagem junto do eleitorado. Em 2001, devido ao inefável Nuno Cardoso, o PS deixou a cidade num caos, completamente esventrada e numa situação económica dramática. Rui Rio pôs a casa em ordem e pouco mais fez, para além de afrontar o FC do Porto, mas parece ter sido o suficiente para garantir um inestimável capital de confiança. Tão grande que nem precisa de falar ou de aparecer, como refere o José Freitas aqui em baixo.
Elisa Ferreira daria uma boa Presidente da Câmara. Dentro do PS, não vejo melhor. Mostrou ser eficiente no Ministério do Ambiente, onde teve de lidar com questões sensíveis e com um certo galispo, seu Secretário de Estado, que já então procurava dar nas vistas.
Infelizmente, chega no momento errado, depois de duas candidaturas socialistas falhadas, uma protagonizada por Fernando Gomes, que perdeu como castigo por se ter ido embora a meio do mandato; e uma outra, protagonizada por Francisco Assis e à qual só por grande favor se poderá chamar candidatura a sério.
A seu lado, na apresentação da candidatura, vimos gente que nada diz ao Porto, como José Sócrates e Mário Soares, e outras pessoas que não lhe valerão nem mais um voto, como Fernando Gomes, Pinto da Costa ou Rui Veloso. O certo é que o primeiro-ministro está a apostar forte na candidata. Mas é também por sua culpa que Elisa Ferreira vai perder.

Rio revela-se

Quando já começávamos a pensar que o presidente da Câmara do Porto era uma entidade mística mítica, eis que Rui Rio decidiu dar um ar da sua graça. E logo em dois dias seguidos.

Ausente para outros combates – quem o queria ver teria de procurar nas costas de Manuela Ferreira Leite -, o autarca compareceu na cerimónia de evocação da tragédia da pontes das barcas, no domingo, e na inauguração de um viaduto que teve de esperar cerca de 20 anos para ter utilidade, ontem.

Investido na missão de presidente da ‘associação dos amigos pela autonomização do aeroporto’, o edil deu um novo ar da sua graça.

É bom saber que o Porto ainda tem presidente da câmara.

Fugir à obscuridade escrita

I´m still here, you bastards!

Se não me falha a memória, é assim que o Steve McQueen se despede da reclusão na Guiana Francesa, flutuando num saco de cocos, em “Papillon”. Não interessa, porque é assim que eu me lembro do fim do filme. Comprei o filme por 1 euro juntamente com o Público, mas ainda não o (re)vi. Também não interessa. O que interessa é agradecer ao Ricardo a oportunidade de “fugir” da obscuridade escrita. Como qualquer pessoa, sou opinativo e gosto de mandar os meus bitaites. Não conheço o resto dos “aventadores”, mas tenho a certeza que terei oportunidade de conhecer. Recentemente, enquanto pesquisava sobre marketing político, para tentar perceber como é que os políticos conseguem enganar tanta gente ao mesmo tempo, cheguei à conclusão que os políticos apenas deveriam fazer campanhas escritas. Esta é, se calhar, a maneira menos enganadora e séria de comunicar. Iniciar um blog colectivo, para mim, é uma excelente oportunidade para conhecer primeiro o interior e só depois o exterior. Apesar de tudo, fui apanhado um pouco de surpresa com o convite. Chego à conclusão que (afinal) não precebo nada de blogs, e portanto, se um post sair de pernas para o ar, foi culpa minha de certeza! Avente-se!

ME: ministério dos Enganos

“Os mentirosos conseguem apenas uma coisa: é a de ninguém acreditar neles quando disserem a verdade.” (Esopo)

Bons dias caro leitor,

hoje, dia 2 de Abril, vamos dialogar sobre as mentiras do Ministério da Educação.
Agora que já foi a correr ao calendário verificar que dia é, posso confirmar que é dia 31 de Março – mas se ontem decidi que era dia 1 de Abril, hoje é dia 2.
Se ontem trouxe a primeira mentira, hoje trago a segunda.
Ao iniciar o post resolvi ir buscar alguma inspiração ao site do ME – ministério dos Enganos (sim, M pequeno para o ministério e e GRANDE para os enganos).

E de facto ela (a inspiração) abunda – não se torna complicado mentir assim:

Prémio Nacional dos professores: como alguém dizia, os números falam por si. Há mais de cento e cinquenta mil professores. O ano passado houve pouco mais de de sessenta professores a concorrer. O que dizes mais?
Alunos faltam menos: o boletim do Professor, que aos montes nos aparecem no caixote de papel para reciclar lá da escola traz esta boa nova. Sobre ela duas notas parecem importantes:
a) Os dados não podem ser vistos assim, tal como a Educação do meu Umbigo faz notar. Em média, cada aluno dá menos UMA falta por ano. UAU!
b) Na maioria das escolas não há qualquer alteração introduzida pelo Estatuto do Aluno. Como acontece há mais de trinta anos a maturidade das escolas e a sua (real) autonomia permite filtrar algumas trapalhadas que nos chegam da 5 de Outubro. Por isso, costumo dizer que as escolas funcionam apesar dos Governos. Ou seja, mesmo dando como adquirido que uma falta a menos por ano é motivo para festa, quem me consegue provar que isso se deve à aplicação do estatuto do aluno?

Requalificação das Escolas: cheira a autárquicas por todo o lado. É uma enorme mentira toda esta propaganda em torno da qualidade das nossas escolas. E é MENTIRA porque tem por base um ENORME pressuposto que os “técnicos que nunca trabalharam” desconhecem. As tecnologias não fazem o sucesso. São as pessoas que as usam que podem gerar o sucesso – a aprendizagem acontece ou não com as pessoas. E atrevo-me a escrever mais: sem tecnologias pode haver sucesso; sem pessoas…jamais!
Não vou esconder a importância da qualidade das nossas escolas, do seu equipamento tecnológico, etc. E, isso reconheço, como uma boa aposta deste Governo. Mas, tudo isso está a ir pelo cano abaixo porque as pessoas estão a ser tratados como se fossem uma velha disquete. E, quer os governantes queiram, quer não queiram, a diferença entre a escola com tecnologias e a escola sem tecnologias só se vai fazer quando os professores as integrarem nas salas de aula. Isso não está a acontecer, e vai continuar assim enquanto os mentirosos continuarem a dizer ao povo que o magalhães é o “Professor do Povo“.

E com isto tudo já me perdi…
Tanta mentira dá a volta a qualquer um…
Volto mais tarde. Agora está na hora do genérico
Continua…

P.S.: Ao que venho… Venho Aventar. Avento desde Vila Nova de Gaia. Sou professor e costumo frequentar a margem esquerda da vida, com actividade sindical intensa nos últimos dez anos.
Ando nestas coisas da Web há muitos anos e também há meia dúzia de anos à volta dos blogs: meio a brincar no Eu estive lá ou mais a sério no Diário de um Professor são mais de 5 anos a blogar. Sempre à procura de novas ideias, novas práticas e comprometido com a ideia de perceber como é que estas ferramentas poderiam contribuir para que eu me tornasse melhor profissional.

Costumo escrever mais depressa do que o processamento no meu cérebro… vamos lá AVENTAR!

P.S. II: um beijinho GRANDE para a Mercedes. Boa (re)forma, isto é, espero que encontres novas formas de ser feliz longe desta Educação.

Empreendorismo à portuguesa

Diz o Público em 24 Março 08.

“São alguns dos maiores especialistas ambientais do país que o dizem:é um embuste o apadrinhamento, por parte do primeiro-ministro, da tecnologia da Energie,onde ontem foi inaugurada a segunda fase de expansão da fábrica. Diz quem sabe que aquilo não é energia solar, mas sim eléctrica. Gato por lebre, portanto!”

Na semana passada soubemos que ” a patente mais cobiçada do mundo” não encontrou interessados em Portugal para desenvolver a industrialização do primeiro transistor em papel, uma descoberta da cientista Elvira Fortunato e do seu grupo que trabalham na Universidade da Costa da Caparica. Parece que encontrou interessados no Brasil.

Isto mostra duas coisas.Primeiro o grande apego ao risco dos nossos empresários e das nossas empresas de “venture capital”. Segundo o desprezo absoluto que o nosso governo dedica a tudo o que não se transforme em notícia televisiva.

Aquela tecnologia ganhou um reputado prémio internacional(do European Research Coucil) considerado o Nobel Europeu da Ciência. Trata-se de uma descoberta que permite que a actual tecnologia de produção de transistores, tenha como matéria prima o papel (celulose) e abre um mundo de possibilidades industriais no domínio da electrónica.

Agora, juntemos-lhe “o Magalhães desenvolvido e produzido”(?) em Portugal.

Pois, se as empresas públicas e os grandes grupos económicos ganham milhões à sombra do Estado, em quase ou total monopólio e/ou em cartel,porque haveriam elas de correr riscos a investir num produto que
exige, além de dinheiro, determinação e tempo?

Quanto ao governo é bem mais simples deitar dinheiro para cima dos mesmos de sempre!O resultado pode ser muito mau (como avisa a senhora Merkel) mas é daqui a uns anos.E quem vier a seguir que feche a porta!

Cá estou eu outra vez

Hesitei antes de aceitar o convite feito por mim próprio. Afinal, tanto amor à camisola, tantas lágrimas, e ao fim de três semanas o luto já está feito e já parti para outra?
Assim parece. O «5 Dias» ficou para trás e, aos meus ex-colegas, desejo-lhes toda a sorte neste mundo cão, castrador e autofágico que é a blogosfera. Tal como no futebol, espero que ganhem sempre, excepto quando jogarem contra nós. Uma coisa prometo, se é que a minha palavra vale alguma coisa: nunca irei morder a mão que me alimentou. Se algum dia baquear, é porque palavras leva-as o vento. E eu terei voltado a ser o Puto Charila de outrora.
A meu lado, gente muito melhor do que eu. Alguns são veteranos da blogosfera. E sobreviveram! Outros são estreantes – nem sabem no que se vão meter! Todos juntos, seremos uma família, mais unida do que uma que eu cá sei (ops!).
Aqui chegados, um agradecimento especial ao Luís Moreira, que me apoiou totalmente desde o dia em que lhe disse que ia lançar um blogue colectivo, ao ponto de ter dado o nome ao rebento; ao José Freitas, inexcedível na forma como levou a cabo a criação do blogue; a todos os autores que aceitaram o meu convite e decidiram entrar nesta aventura; e ao Zé Nuno, do «5 Dias», a quem recorri nos primeiros momentos de aflição.
Todos estão desde já convidados. Queremos muitos leitores e muitos comentários, de preferência assumidos (olhem a Base de Dados!). Os elogios e as críticas serão sempre bem-vindos. Sejam os seus autores simpáticos ou antipáticos, servis ou arrogantes, espalha-brasas ou sensaborões. Escaganifobéticos é que não!

Quem não sabe do que fala, que se cale para sempre

Edward C. Green é investigador científico da Escola de Saúde Pública de Harvard, nos EUA. Ontem, domingo, publicou um artigo no jornal Washington Post a propósito das polémicas palavras do Papa acerca da ineficácia da utilização do preservativo para travar a Sida em África. Bento XVI disse, recorde-se, que o problema podia ser ainda pior e apelou à abstinência.

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Adivinhe quem é mais atrasado?

Papa: Não aos preservativos para combater a Sida em África!

Cartoon de Dave Granlud

 

 

 

O Bispo de Roma mostrou que entre ele e África, sobretudo a área “negra”, há um fosso maior que os existentes nos antigos circos romanos. Edward Green dá indicações de que África, para ele, é o local de onde são originários os agora chamados afro-americanos.

Num artigo intitulado “O Papa pode ter razão”, o homem analisa os argumento de Ratzinger e diz que as campanhas de defesa de utilização das borrachinhas não podem ter sucesso em África.

Começa pela “compensação do risco. Quando as pessoas pensam que estão seguras por usar preservativos, pelo menos algumas vezes, são capazes de cair na tentação do sexo inseguro, salienta. Esquece que as campanhas devem ir mais longe que só dizer aos africanos que o preservativo deve ser utilizado mais do que apenas umas vezes.

Utilizar a protecção indica falta de confiança no parceiro, acrescenta, em mais um daqueles argumentos que é válido para todo o mundo e não apenas no continente negro.

Entre outras explicações do género, o senhor pergunta: “O que funciona em África?” E responde: “Estratégias que quebrem as múltiplas e simultâneas redes sexuais”. Concretize, amigo… “Monogamia mutua e fiel ou, pelo menos, uma redução do número de parceiros, especialmente quando em concorrência”. “A poligamia fechada e fiel também pode resultar”, acrescenta.

A alminha em causa pode ter boas intenções, não sabe é nada de África. Não é sequer necessário passar lá anos ou meses. Basta ir falar com a população e conhecer um mínimo dos seus hábitos.

Na maior parte das tribos (nesta área deve-se ter em conta as tribos mais do que os países) os usos, costumes e as tradições, ainda muito enraizadas, apontam para a poligamia plena e para práticas que, na Europa e nos EUA, podem ser tidas como promiscuas. Nos mais jovens as coisas já começam a mudar e deveria ser para eles que as iniciativas de combate à Sida se deveriam dirigir. Com preservativos.

O Papa não tem razão. E Edward Green também não.

Texto publicado em blocodenotas.eu e aventar.eu

Deitar à terra

Os lojistas da especialidade olham-nos com uma bonomia ligeiramente trocista e parecem saber exactamente o que buscamos: as espécies mais resistentes, as que suportarão a inépcia dos seus cuidadores, as rajadas de vento das noites portuenses, a inclemência do sol de Maio. As que são, a um tempo, dóceis e obstinadas.

A cada primavera que se anuncia, saímos das tocas de inverno, trocamos com entusiasmo as ferramentas da vida moderna pelas pazinhas que evocam as construções de areia da infância, e é ver-nos, nas varandas, nas nesgas de jardim que a cidade ainda não ocupou, esquecidos de tudo, tomados unicamente pela dúvida: a que profundidade plantar um bolbo de íris?

Seguir-se-ao longos dias de ansiedade, espreitadelas constantes, tantas vezes tomadas pela incredulidade de que algo (e muito menos uma íris) possa vir a irromper desse manto denso e negro. Virão ainda mais dias de neblina e chuva, a terra continuará quieta e desolada, mas a memória desses momentos em que os dedos remexem a terra, e em que julgamos vislumbrar, num fugaz instante, uma sabedoria ancestral que não imaginávamos possuir… essa memória preenche os dias de inverno.

E virá o dia em que, ao cair da tarde, regressados das obrigações e dos horários e dos dias cinzentos, descobriremos, com espanto e, confessemo-lo, uma pontinha de orgulho, que a primeira íris se desprendeu enfim e espreita o mundo com o seu corpo frágil e intensamente lilás. E nessa nova condição de semeadores, também nós olharemos o mundo como novo.

O julgamento de Isaltino Morais e uma questão de paciência

Quando criança e adolescente era visita frequente de um barbeiro localizado no centro da cidade onde vivia, Ermesinde. Era junto da estação de comboios e, com naturalidade, era uma barbearia bastante solicitada. À frente daquelas cadeiras enormes e pesadas, e por cima dos espelhos que nos permitiam ver o progresso da arte do corte dos cabelos, enquanto ouviamos a tesoura, havia um pequeno mas significativo quadro. A memória diz-me que o quadro estava emoldurado mas todos sabemos como as recordações de há alguns anos podem ser traiçoeiras. Já quanto à mensagem tenho a certeza, até porque não era particularmente original. Dizia: “Saber esperar é uma virtude”.

Foi deste quadro, e da sua mensagem, que me lembrei na sequência das notícias das primeiras sessões do julgamento de Isaltino Morais.

Perante as revelações que o autarca e ex-ministro fez  em tribunal, esperei pelas reacções. Isaltino confessou que fugiu ao fisco na aquisição de uma casa, nos anos 90, num negócio que classificou de “normalíssimo”. Desafiou alguém a apontar alguém que, até 1995, tenha pago a escritura pelo valor da casa. Não especificou se era necessário ou não indicar pessoas que ocupavam cargos políticos, eleitos e de responsabilidade pública. Como ele, que era presidente da Câmara de Oeiras desde 1985.

O homem, que admitiu “apetência” por dinheiro (e isto não tem mal nenhum), pagou, em 2003, 35 mil euros em numerário por um Audi8, que vendeu um mês e meio depois por 60 mil euros. O preço do veículo novo rondaria os 130 mil euros. E, como se sabe, os veículos têm uma estranha tendência em valorizar-se com o tempo, não é?

Para não vos maçar, nem vou particularizar o caso das alegadas irregularidades na Quinta da Giribita, nem da casa em Cabo Verde. Vamos, pois, ao assunto que me deixa mais perplexo.

Isaltino Morais admitiu que tinha na conta bancária que possuía na Suíça (a tal conta do sobrinho taxista) “sobras” eleitorais que rondavam os 400 mil euros. Era dinheiro excedente das campanhas, feitas até 2001. Dinheiro entregue por pessoas e, eventualmente, empresas que deveria ter aplicado no pagamento de despesas da campanha eleitoral. Pelos vistos, o autarca de Oeiras não tinha as mesmas dificuldades de outros e não lhe faltaram contribuições. De forma tão avantaja que nem gastava tudo. Sem saber muito bem o que fazer com as “sobras”, guardou-as. Mas não para sempre, porque utilizou esse dinheiro, pelo menos em parte, em “bens pessoais”.

Diz que era, na época, antes da lei de 2005, prática habitual. Traduzindo: nem todo o dinheiro das campanhas eleitorais era gasto e quem tinha “sobras” ficava com elas.

Perante isto, e procurando respeitar a virtude de saber esperar, esperei. Esperei que o habitualmante prolixo presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses, sempre pronto a reivindicar mais verbas para as autarquias, viesse dizer que as coisas não eram bem assim. Esperei que os partidos políticos, que até comentam anúncios de estações de rádio, comentassem estas informações. Esperei que as televisões, que analisaram à exaustão o penalti do Sporting – Benfica, analissasem em detalhe estas revelações.

Esperei, mas em vão. O defeito pode ser meu, mas há algo de muito mal-cheiroso nisto tudo.

P.S.

Uns segundos apenas para dizer ao que venho. Sou jornalista. Dizem que estou a caminho dos 40 e deve ser isso mesmo que está a acontecer. Não sou militante de nenhum clube, nem sócio de nenhum partido. Tenho as minhas preferências mas prefiro que as descubram ao longo do tempo.

Inicio hoje a minha colaboração com Aventar, sentindo-me um dos orgulhosos fundadores desta comunidade. Se não se importam, irei manter o meu blogue pessoal, a solo, blocodenotas.eu, que lancei em Janeiro passado, procurando estabelecer o melhor equilibrio entre eles.

Hoje é dia 1 de Abril! Vamos ao Trabalho!

“Numa era em que a mentira é universal, dizer a verdade é um acto revolucionário”, George Orwell

Cara ou Caro leitor

Estou certo do Seu interesse por estas linhas, caso contrário estaria a ler o manual de bom escuteiro da JS. Mas, como teve o azar de vir aqui parar, vai ter que partilhar comigo esta primeira ventania – assim, aos pares (eu e o meu amigo leitor) vai custar menos um bocadinho. Vamos lá então!
E não vou fazer por menos. Vou alterar uma tradição muito Nossa. Hoje é dia 1 de Abril.

Sim, não me enganei – Decidi antecipar o dia um. Ou antes, porque não antecipar o dia 1 de Abril para o dia 30 de Março e assim fazer três dias de mentiras e partidas, algo ainda muito longe do que nos tem feito o Governo vigente da República quase indigente? Parece-me uma excelente opção.

As pilhas estão na prateleira da direita, mesmo aí junto à escova das botas de camurça.

Pilhas?

Sim, as do rato – é que só pode ter acontecido uma coisa para ter chegado aqui – faltou a pilha no seu rato sem fios e não consegue clicar para sair. Obrigado tecnologia que estás sempre aí!

Neste primeiro dia das mentiras vou escrever sobre o emprego, ou antes, sobre a falta dele. Não há dia que não me recorde dos cento e cinquenta mil empregos que o Partido Socialista levou às eleições e que o Governo transportou para o seu programa de (dês)governo.

Vamos, eu e o caro leitor, imaginar que recuamos um ano. Ninguém falava de crise. Nessa altura o que se dizia sobre esta promessa dos cento e cinquenta mil empregos?

Em Setembro de 2009 Vieira da Silva reconhecia que ia ser difícil, o que todos viam há muito tempo.

Está claro então para todos que a promessa do Senhor, que foi Primeiro antes de ser Engenheiro, não só não se transformou em realidade como se virou exactamente ao contrário!

Tenho para mim que não se deve confiar em alguém que nunca trabalhou – é que o trabalho é um pilar da natureza humana: dignifica e torna cidadão e colectivo, o que biologicamente é individual. Sem trabalho é a dignidade do Homem que fica em causa.

Se a ideia era ter um saldo positivo de 150 mil duvido que qualquer um dos governantes fosse, hoje, abdicar de um saldo negativo dessa ordem de grandeza.

E, descontando o efeito da crise (que não nego), importa equacionar como foi possível conduzir um país de forma tão demagógica, prometendo o que não se podia prometer?

Como foi possível mentir sobre algo tão importante?

Como foi possível mentir ao povo que minuto a minuto, segundo a segundo ia perdendo o seu emprego?

O que pensarão, por exemplo, os colaboradores da Quimonda sobre esta promessa?

E, mais grave ainda, como houve quem acreditasse? Bem, depois do Sr. Lopes, qualquer um acreditaria no coelhinho da Páscoa.

É pois sob o signo da mentira que começo estes três dias da mentira. A próxima mentira será sobre a área da Educação.

P.S.: Para terminar este primeiro dia de mentiras informo os caros leitores que o Guarda Abel foi escolhido para novo provedor de justiça.

Avente-se!

Aqui o limite são as calúnias e as caralhadas! As calúnias não passam nunca. As caralhadas não passam se forem ordinárias. Como vê, a culpa é sempre sua. No resto, exponha-se, arremesse, adivinhe, preveja, manifeste-se, suspire e tudo o mais que AVENTAR representa. Que são todas estas palavras e mais o que a sua imaginação conseguir criar.
Pode ficar AVENTADO? Pois pode, mas só faz bem ao stress ser agitado por vendaval! É bem melhor do que sofrer de AVENTAMENTO, ficar calado, azedar!
Por mim, infelizmente, só sou novato enquanto bloguer. Já levei com a minha dose de fascismo.
Andei numa guerra que não me dizia nada. Trabalhei de dia e estudava de noite. As namoradas engravidavam sem saber como e, pior, a pílula não existia. As namoradas engravidam pelo “ar que lhes deu”. Sem pílulas e com preservativos que saiam do lugar, tive que lutar pelo aborto muito antes dos actuais políticos fracturantes.
Tive sorte na vida profissional. Havia poucos gestores de empresas com estudos e isso deu-me vantagem. Aviso já que só fiz o que gostei! Bem, pelo menos a partir de certa altura.
Deixei de trabalhar logo que pude! Deito-me às três da manhã e levanto-me às 11 horas.
Antes do meio-dia, não estou para ninguém!
Como percebem, aguento tudo menos a mediocridade. Estou farto da merda deste país em que os gajos de sempre nos mantêm na miséria e, se puderem, no obscurantismo.
Este é um espaço de ar livre, com brisas, rajadas e ciclones. Está tudo na mão de quem aqui escreve, desde os que iniciaram esta tempestade aos que quiserem correr o risco de apanhar uma pneumonia. Mas é a loucura boa de quem quer escrever sem compromissos e sem ter que agradar a quem quer que seja. Eu por mim estou na maior. Não conheço nenhum dos meus
compinchas aventados!
AVENTE-SE! Mande-os à merda!

Coro

“Mãos de mulheres, cheias de ternura,
cozinharam seus filhos,
que lhes servirão de alimento,
quando da ruína da filha do meu Povo.”
Bíblia. Livro das Lamentações, Jod

«O que é um homem bom?»
O que é um homem bom?, penso e pergunto-te
sem medo da palavra que não trova com o mundo,
de quando em vez, acosso-te: «O que é um homem bom?»
novamente assomo sem pudor de te perturbar ainda; vivo assim:
sem medo da tua pele tão à beira de mim, sem me retrair nos olhos
e fico de borco desejando despenhadeiro – tua voz – essa vida com sotaque vigilante
e se a minha palavra se abeirasse dos teus olhos
não sei se seria um lago, neve, iogurte dentro do prazo, a leve vida,/
ou Elisa cantando: Tanzânia, T-a-n-z-â-n-i-a, T-a-n-z-â-n-i-a,
T-a-n-z-â-n-i-a sem adivinhar um punhal
levando a morte ao seu corpo;
sei, talvez, que essa palavra seria sempre um objecto secundário,
um acessório de uma memória suja, demente ou ambição de vertigem
face de um fragmento rudimentar com que irias à procura
de qualquer coisa que te lembrasse
que não existe diz-que-diz-que na solidão
essa pele que absorve a fundo a noite
outra vez vem ter comigo, imploro!
acossa de relance – nos meus olhos – a tua mão, par
da mão que desossa com o cutelo os ossos, toca piano,
mão engatilhando, levando a extinção na sua força, fixando
os corpos no seu tempo “ A guerra foi há duas semanas”, diz o homem
com as duas mãos no volante
. O que é um homem bom?, vacilo
— a mão de Sacha nas mãos
da mãe de Sacha; os olhos das mães crescendo
como a tensão nas mãos da mãe de Sacha

tanta face de lume! quando pensas noutro humano
tão impartilhável como é para mim o teu corpo de remendos,
depois vêm as palavras que seguram
o homem empoleirado, podando a preceito os ramos
de árvores russas, isso, as árvores eram russas,
as copas das árvores russas, a cidade ao fundo,
um enquadramento, um plano
tal como o rosto de infância a ser enterreado
na improvisada vala comum,
a areia tapando o rosto infantil de olhos abertos,
os corpos amontoados na carrinha de caixa aberta,
mas esse relâmpago em câmara-lenta — a última imagem — os olhos abertos
o bebé, e outras palavras juntam-se a ti
: manga-curta manga-comprida
porco-preto porco-branco
« o porco-preto é mais difícil de conseguir, corre mais
»

e os corpos arrojados até à porta da embaixada
as copas das árvores russas, os sacos de comida para o gato
a cultura do açafrão, Maria, a campa da Maria, as mãos da Marias
separandos as lágrimas do rosto, para se sentir mais na morte do filho,
o filho da Maria a galope do cavalo entrando pelo lago num dia de verão
russo, a aldeia russa da Maria, o marido da Maria e a nova mulher nova
a Maria entrando terra adentro com as suas mãos respirando a força do sol,
a comoção do realizador com a morte e campa da Maria, com as palavras da filha da Maria,/
a Maria fixando-se palavra viril
e ficas a pensar na possibilidade do nome das coisas, das tuas coisas quotidianas, tão a jeito e próximas da tua indiferença,
« o porco-preto é mais difícil de conseguir, corre mais»