O Condestável é assim «tão lindo»? (I)

  A minha amizade pelo Paulo Jorge Vieira, do «5 Dias», permite-me dizer o seguinte.
A julgar por um dos seus últimos posts, o Paulo Jorge parece ter um certo fetiche por nobres medievais e, em particular, pelo Condestável Nun’Álvares Pereira.
Já quanto aos seus comentadores, vão do bacoco fervor nacionalista ao injustificado desprezo por uma das maiores figuras da história lusa. Ali, só se salva mesmo a Maria Monteiro, o Carlos Fernandes e pouco mais.
Já sabia da inclinação do Paulo Jorge por fardas e armaduras, mas não pensei que isso lhe toldasse o raciocínio. Deve ser por estarmos na Primavera, altura em que as flores começam a desabrochar. E uma florzinha como ele, nesta altura, só podia mesmo desabrochar.
Vamos ao que interessa. Milagres não me dizem nada, e acredito tanto na senhora que ficou cega ao fritar peixe como em todas as outras patranhas que há séculos a Igreja Católica nos tenta impingir. Ainda por cima, a dita senhora é de Vila Franca de Xira, e todos sabemos que essa gente não é de fiar.
Santos e santas? Ora, ora…
Mas isso não invalida o papel de Nun’Álvares Pereira, o Condestável do Mestre de Avis, na história de Portugal e, em particular, na crise de 1383/85. O texto que se segue já foi publicado há uns tempos numa monografia relativa ao concelho da Batalha e baseia-se no conhecimento profundo de um conjunto de autores sobre a vida de Nun´Álvares Pereira. Aqui vai, com um conselho final ao Paulo Jorge Vieira: que se preocupe mais com factos históricos e menos com fardas, armaduras, espadas ou bacamartes. Digo eu…

A BATALHA REAL

Pode-se dizer que foi o primeiro grande acontecimento da Batalha pós-fundação da Nacionalidade. Porque foi exactamente esse acontecimento que deu origem ao povoamento da vila e à posterior formação do concelho. Porque, indubitavelmente, foi graças à vitória na Batalha Real que D. João I cumpriu o que tinha prometido, mandando edificar ali perto um mosteiro dedicado a Nossa Senhora da Vitória. O Mosteiro da Batalha.
Batalha Real é nome que caiu no esquecimento. Não por nossa responsabilidade, como será fácil de reparar. Mas desde há alguns séculos que Batalha de Aljubarrota é o nome mais conhecido. Curiosamente, Aljubarrota é freguesia de Alcobaça e o local da batalha foi no concelho de Porto de Mós. Parece que não tem nada a ver com a nossa Batalha. Mas tem. Tudo.
Realizada em 14 de Agosto de 1385, numa segunda-feira, foi conhecida durante muito tempo como Batalha Real dada a presença dos dois monarcas na contenda. Nos primeiros tempos após 1385, o acontecimento era sempre referido como a batalha entre portugueses e castelhanos, nunca sendo indicado o local da mesma. Ainda nos meados do século XV, Batalha Real ou simplesmente Batalha era o nome mais comum.
O actual nome terá surgido, segundo Saul António Gomes, devido a um mal-entendido do cronista Froissart, que confundiu os locais e acabou por chamar Aljubarrota a uma refrega que em nenhum documento anterior fora identificada dessa forma. Até porque a aldeia mais próxima era Tojal, Porto de Mós, e nunca os exércitos entraram sequer em terras de Alcobaça.. Para Froissart, no entanto, os portugueses acamparam na vila de Aljubarrota e aí decorreram os combates.
O erro germinou e propagou-se nos anos que se seguiram, até entre os portugueses. No século XVII, já não se dava mais nenhum nome à Batalha Real a não ser o de Batalha de Aljubarrota e até a lenda da célebre padeira passa a ser associada ao acontecimento.
Mas para entender o contexto em que decorreu a Batalha Real, que garantiu por muitos anos a independência de Portugal, é necessário recuar à I dinastia e às guerras em que D. Fernando envolveu o nosso país, as chamadas guerras fernandinas.
Como forma de promover a paz entre os dois reinos desavindos, terminando assim com essas guerras, o rei D. Fernando assina o Tratado de Salvaterra de Magos, que prevê, entre outras disposições, o casamento da sua única filha, D. Beatriz, com o rei de Castela, D. João. Este facto vai provocar um problema de sucessão, porque o rei morre pouco tempo depois sem deixar mais nenhum descendente, a não ser a filha, que agora está casada com o rei de Castela. Obviamente, isso punha em causa a nossa própria independência, porque se ela chegasse ao trono, seria o seu marido a governar Portugal.
Quando o rei morre, D. Leonor Telles, a viúva, manda gritar pela cidade «Arraial pela rainha D. Beatriz de Portugal, nossa Senhora!», no que é apoiada pelas classes sociais superiores, interessadas nos cargos políticos e nos títulos que daí podem advir. Ao mesmo tempo, algumas regiões lembram o infante D. João, filho de Pedro e Inês, homiziado em Castela, e o povo, agitado pelo ódio e temor de D. Leonor Telles, começa a gritar pelo Mestre de Avis, que também era filho de rei. D. João de Castela, entretanto, decide marchar sobre Lisboa para reivindicar o que era seu.
Considerado como uma influência nefasta para Leonor Telles e como responsável indirecto pela morte de D. Fernando, o Conde Andeiro, seu amante, é assassinado no paço da rainha pelo Mestre de Avis, com o auxílio de Álvaro Pais, que espalha pela cidade que o Mestre está a ser morto. O povo acorre em massa e, verificando que tudo está bem, aclama o Mestre de Avis como Regedor e Defensor do Reino. O governo é constituído de imediato porque se torna necessário defender o país da previsível reacção castelhana.
O cerco de Lisboa, em 1384, durou dois meses e representou o ponto máximo da tentativa de ocupação castelhana. D. João de Castela desmobilizou, mas prometeu voltar, o que viria a acontecer logo no ano seguinte. É que, apesar da derrota, tinha ainda um grande número de apoiantes no nosso país. Quase todo o norte, à excepção do Porto, e as mais importantes fortificações do centro, tanto no litoral como no interior, estavam ao lado de D. João de Castela. Castelo Melhor, Castelo Rodrigo, Almeida, Castelo Mendo, Covilhã, Leiria, Torres Novas, Óbidos, Atouguia, Santarém, Torres Vedras, Alenquer, Sintra, Marvão, Crato, Alter do Chão, Monforte, Campo Maior, Vila Viçosa ou Olivença são apenas alguns exemplos.
Mesmo assim, e porque perdera os seus principais comandantes durante o cerco de Lisboa, D. João de Castela decidiu recuar estrategicamente para Sevilha, de forma a reorganizar o seu exército. Dali voltou a atacar Portugal, seguindo novamente a linha da Beira Alta, como já fizera na invasão anterior.
A iminência de um novo ataque castelhano foi aproveitada com mestria pelo Dr. João das Regras nas Cortes de Coimbra, em Março/Abril de 1385. O objectivo principal era demonstrar que nenhum dos outros candidatos tinha legitimidade. Assim, declarando-se o trono vago, seria mais fácil ao Mestre de Avis, Regedor e Defensor do Reino, obter o título de rei.
Para além de D. Beatriz, filha do rei D. Fernando, que era menor de idade e casada com o rei de Castela, tinham ambições os infantes D. João e D. Dinis, filhos de D. Pedro e Inês de Castro. Os representantes dos concelhos e a baixa nobreza apoiavam o Mestre de Avis; a alta nobreza e a maior parte do clero apoiava o infante D. João ou, se este não o pudesse ser, o infante D. Dinis – argumentavam que Pedro e Inês casaram em clandestinidade, logo os filhos eram legítimos.
Durante o seu discurso, João das Regras defende que D. Beatriz era ilegítima, porque Leonor Telles casara com D. Fernando quando ainda era casada com outro homem. Os infantes D. João e D. Dinis também eram ilegítimos, porque nunca houvera casamento entre D. Pedro I e Inês de Castro – e mesmo que tivesse havido, esse enlace era considerado nulo.
Por vir da linhagem real de D. Pedro e pelos serviços que prestara desde 1383 como Regedor, período no qual se incluiu o Cerco de Lisboa, o Mestre de Avis conseguiu obter a concordância dos presentes nas Corte
s
e tornou-se, em 6 de Abril, depois de mais de um mês de discussão, o primeiro rei da segunda dinastia.
Uma conquista que premiou a estratégia de um monarca calculista. Assentando a sua força no poder da Cavalaria (força militar) e no Regalismo (força popular consubstanciada na pessoa do rei), D. João I soube sempre apoiar-se em duas facções totalmente inconciliáveis e que tinham como representantes máximos Nun’Álvares Pereira, por um lado, e por outro o Dr. João das Regras.
Logo que foi proclamado rei, no início de 1385, D. João I de Portugal partiu, juntamente com D. Nuno Álvares Pereira, já o Condestável, em direcção ao norte do país, que ainda se encontrava em estado de rebelião.
Estava o rei no Minho quando se soube que D. João de Castela voltara a invadir o país, com o objectivo de fazer valer os seus direitos sucessórios (era casado com D. Beatriz) e de fazer respeitar o articulado no Tratado de Salvaterra de Magos. Desta vez, entrou por Badajoz cercando Elvas. Seguiu o nosso rei de imediato para sul – Porto, Coimbra, Leiria, Tomar, Torres Novas, Golegã, para atravessar o Tejo em Santa Iria e cortar o caminho aos invasores.
Derrotado em Trancoso, o rei de Castela regressa a Ciudad Rodrigo, onde organiza um grande exército, que a 8 de Julho de 1835 volta a atacar, usando a linha do Mondego. O objectivo era dividir Portugal em duas partes, para que o sul não conseguisse receber o apoio do norte e do centro. Concretizado este objectivo, o avanço sobre Lisboa seria muito mais fácil. É que o alvo era mesmo a capital, não as outras regiões. Porque a conquista da cidade significaria automaticamente ter o direito de «cobrar» o resto do reino.
D. João I de Castela entra no país por Almeida, apodera-se de Celorico da Beira, onde permanece dez dias, até 1 de Agosto, devido ao agravamento do seu estado de saúde. Naquela data prossegue então a sua marcha, devendo chegar a Coimbra na primeira semana de Agosto. A falta de alimentos explica a sua lenta progressão. É que grande parte da população fugiu das terras invadidas e consigo levou as colheitas já retiradas da terra.
Entretanto, na primeira quinzena de Julho, não se sabendo ainda claramente qual a linha de invasão castelhana, o rei português tinha ficado em Abrantes e D. Nuno Álvares Pereira reunira os seus homens em Estremoz, uma das praças que poderia ser escolhida como local da invasão. Quando se compreendeu que, afinal, não seria por aí, o Condestável juntou-se a D. João I em Abrantes, onde se reuniu o Conselho de Guerra.
Estávamos no mês de Agosto, o mês da Batalha, e a maior parte dos conselheiros defendia um ataque a Sevilha como forma de iludir os castelhanos. Assim, ganharíamos tempo até à chegada dos reforços vindos de Inglaterra, caso contrário não teríamos qualquer hipótese de derrotar o inimigo em campo aberto. «Suas companhias (do rei de Castela) eram tantas que era espanto de olhar, de guisa que não havia quem as visse e segundo os lugares que por elas estavam, que não julgasse em breves dias todo Portugal perdido.» (Fernão Lopes)
Nuno Álvares Pereira discordou por completo e, confiando cegamente na força do nosso exército, decidiu partir sozinho a 7 de Agosto, contra a vontade de todos e até do próprio rei. Defendia ele que, perdida Lisboa, D. João I passaria a ser um simples mandatário de Castela, obrigado até «a andar a Sevilha por cortar duas oliveiras podres». De Tomar, mandou dizer ao monarca que estava à sua espera. Convencido por tamanha demonstração de coragem e de confiança, D. João I mandou reunir as suas tropas e marchou para Tomar, encontrando-se ambos a 10 de Agosto, num local hoje assinalado por um padrão.
É o momento em que ambos os exércitos caminham definitivamente para um encontro que se adivinha cada vez mais próximo. Castela por Coimbra, Soure, Pombal, Leiria e Azoia; Portugal por Tomar, Ourém e Porto de Mós.
Nessa altura, a estrada mais utilizada para chegar a Lisboa era a que ligava Coimbra a Santarém, mas o facto de os castelhanos terem seguido por uma estrada menos utilizada, a que ligava Leiria a Alcobaça, foi um primeiro indício de que queriam evitar o confronto directo. Era dia 12 de Agosto e os portugueses já se encontravam em Porto de Mós. No dia seguinte, D. Nuno Álvares Pereira saiu com 100 homens para reconhecer o inimigo e o campo de batalha.
Como grande estratega militar que era, D. Nuno Álvares Pereira apercebeu-se de imediato do grande valor estratégico que aquela posição encerrava. O terreno escolhido ficava a sul da ribeira de Calvaria. De cada lado, outros ribeiros, o de Vale da Mata e o do Vale de Madeiros. Em frente, uma longa planície que fornecia grande visibilidade. Do lado norte do planalto, havia esporões quase inacessíveis, pelo meio dos quais passava a estrada. Ou seja, as condições do terreno eram muito limitativas para os ataques do inimigo e muito propícias à defesa. Por outro lado, os castelhanos tinham uma frente de ataque muito estreita e ainda podiam ser atacados pelos lados.
«Qualifica-se, com frequência, de genial, esse relance do guerreiro. Alarguemos o conceito. O Condestável foi homem de génio, mas não apenas táctico e de ocasião. Homem de génio, sim, na totalidade estratégica do ser, capaz de encarnar e executar os imperativos morais e políticos de um povo, ansioso de ser ele próprio; de perceber com clareza as possibilidades sociais e psicológicas do momento, de imaginar nos seus desenvolvimentos o teatro das operações, e, mais que tudo, de fundir no mesmo raio as fulgurações da consciência e as do acto.» (Jaime Cortesão)
O exército castelhano era mais vistoso do que forte. Não havia organização nem capacidade de liderança – os melhores tinham morrido na peste do ano anterior e o rei tinha pouca capacidade de ser obedecido, isto para além de estar muito doente.
Logo que nasceu o dia 14, o nosso exército ocupou o campo de batalha. Ainda durante a manhã, os castelhanos postaram-se em frente aos portugueses. As forças em combate avistaram-se pela primeira vez às 10 horas.
Reconhecendo a vantagem de que parecia dispor o nosso exército, D. João I de Castela tentou mais uma vez evitar o confronto. Assim, mandou o seu exército por um caminho secundário, separado da posição portuguesa pelo ribeiro do Vale de Madeiros, estando as primeiras tropas no local onde é hoje a povoação de Calvaria, zona que na altura oferecia grande visibilidade a partir da cumeira de Aljubarrota.
Na Idade Média, dado o reduzido tamanho dos exércitos e alcance das armas, era raríssimo que um exército que quisesse escapar à luta com o inimigo não o conseguisse fazer. No entanto, parece ter sido o caso desta batalha, dado que D. João I e Nuno Álvares Pereira, decididos a impedir a continuação do inimigo até Lisboa, mandaram o nosso exército acompanhar a marcha castelhana, colocando-se agora três quilómetros a sul da posição anterior. A vanguarda avançou para a frente da batalha, passando para o sítio onde estava o curral pelo meio corpo central do exército. As alas postaram-se a seu lado. Às 14 horas, as novas posições estavam definidas.
Desta vez, a frente de ataque era de cerca de 400 metros, mas fora reduzida a muito pouco graças à construção de um sistema defensivo acessório, constituído por covas de lobo e fossos, tapados com ramos de árvores ou arbustos. A posição portuguesa era ainda defendida por uma paliçada. Estes fossos e covas de lobo terão demorado duas ou três horas a construir, durante o período de tempo em que o exército inverteu a sua posição. Uma estratégia que já fora feita na célebre Batalha de Poitiers e que foi aplicada em Aljubarrota, certamente com a ajuda de João de Montferrat, inglês que combatera em França e que foi muito importante na estratégia defensiva. Neste caso, a tão valiosa quão improvisada mão-de-obra veio dos trabalhadores agrícolas do Couto de Alcobaça.
Organizado em quatro azes (formações de combate) e no sistema de quadrad

o (para tirar vantagens do papel da infantaria), o nosso exército tinha dois grandes corpos, já que a vanguarda e as alas estavam juntos. A vanguarda era comandada por Nuno Álvares Pereira e era composta pelos lanceiros. A ala esquerda, chamada dos Namorados, sob o comando de Mem Rodrigues e Rui Mendes. A ala direita, por seu turno, era comandada por Antão Vasques, o Galhofeiro, e por João de Montferrat. Na retaguarda, que estava a ser dirigida pelo próprio D. João I, estavam os lanceiros, os besteiros e os peões. Mais atrás ainda, o parque ou curral, local onde se guardava a bagagem, os carros e o gado.
O exército castelhano começou a formar-se para um eventual ataque, mas reunidos em Conselho de Guerra, rei e seus conselheiros concordaram em não atacar, pelo menos nesse dia. Porque as tropas estavam cansadas, porque ainda não estavam completamente organizadas, porque as alas não poderiam atacar devido aos ribeiros e porque durante a noite certamente muitos portugueses fugiriam.
Apesar disso, os cavaleiros da vanguarda avançaram pelo planalto e iniciaram o ataque. Era já tarde e não faltaria muito para o pôr-do-sol. Dado que iam encontrando obstáculos, os castelhanos começaram a convergir para o centro – e já vimos que a linha de ataque era muito estreita. Assim, a coluna foi-se alongando por cerca de 60 ou 70 metros, ao mesmo tempo que avançava de forma completamente desordenada.
Os primeiros cavaleiros castelhanos chocaram com a parte central da vanguarda portuguesa e lograram rompê-la, por serem em maior número, mas foram de imediato atacados dos dois flancos pelo resto da vanguarda, pelas alas e ainda pela retaguarda. Ou seja, o número de soldados em confronto inverteu-se de um momento para o outro e um pequeno contingente da vanguarda castelhana teve de enfrentar quase todo o exército português. O rei de Castela manda então avançar a segunda linha, mas esta ainda não estava preparada.
Aglomerado num espaço apertado, o inimigo não teve qualquer hipótese. Como se estivesse a lutar «numa ponte levadiça», na feliz expressão de um estudioso famoso, e a sofrer o movimento de uma tenaz, foi completamente esmagado. Os da frente eram atingidos com tiros e lanças por todos os lados, os de trás eram empurrados para a frente, os restantes começavam a fugir desordenadamente em todas as direcções. O curral ainda foi atacado por leste, mas já era tarde demais. A refrega terá durado pouco mais de meia hora, rapidamente tudo terminou. As ambições imperialistas de Castela e a batalha. Outra Batalha começaria…
«D. João I e o seu Condestável obtinham a vitória mais retumbante da história de Portugal. Nessa que continua a ser a batalha-símbolo de todas as batalhas lusíadas – Aljubarrota. Que lá tem a perpetuá-la, ex-voto e túmulo do grande vencedor, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, mais conhecido por Mosteiro da Batalha. «Batalha» por antonomásia. Essa: a de Aljubarrota, 14 de Agosto, 1385.
Tal vitória, tão redonda e imprevista, foi logo tida por milagre. Sentença de Deus a confirmar a eleição de Coimbra e a dinastia que se iniciava. Deus, que está sempre pelo direito e nas batalhas reais premeia e castiga conforme o lado da razão, descera ao campo de Aljubarrota, como os deuses homéricos aos de Tróia, e decretou: João das Regras estava certo, o Mestre de Avis é que era. E foi.» (Armindo de Sousa)
Só na manhã seguinte D. João I e D. Nuno Álvares Pereira tiveram noção da dimensão da vitória portuguesa. Não tinham desarmado ainda, continuavam a aguardar o regresso do inimigo, mas logo que souberam que o rei castelhano fora visto a embarcar em Lisboa, em direcção a Sevilha, perceberam que a vitória era, para já, definitiva.
Durante três dias, D. João I manteve-se no campo da batalha, como era tradição. Andou entre a Canoeira e Alcobaça, mas só se afastou o suficiente para não cheirar os corpos em putrefacção e não ver o espectáculo da morte que se lhe oferecia aos olhos.
Logo no dia seguinte à batalha, D. Lourenço Vicente, arcebispo de Braga, rezou a missa da vitória. Evocou então «todos os que ali tinham caído, amigos e inimigos, que o senhor se compadecesse das suas almas». Depois da missa, Nuno Álvares Pereira foi a Ourém pagar uma promessa que tinha feito. Percorreu então, sem o saber, todo o território do actual concelho da Batalha. Venceu o rio Lena, passou o Casal Novo, foi pelas Garruchas, avistou o Reguengo da Magueixa e continuou a subir. Pelo caminho, ainda teve tempo de socorrer um castelhano ferido que andava perdido.
Depois das tréguas de 1387 e de um novo acordo em 1393, veio a paz em Outubro de 1411. Só aí Castela resignou aos seus objectivos de conquistar Portugal. Entretanto, no ano seguinte à batalha, D. João I assinara com Inglaterra o Tratado de Windsor, que simbolizou a vontade do rei em encontrar uma aliança permanente que fosse garantia do futuro português. Dessa aliança acabou por resultar o seu casamento com D. Filipa de Lencastre, filha de João de Grant, Duque de Lencastre.
Vários séculos depois, foi possível saber muito mais sobre esta batalha, nomeadamente sobre o sistema defensivo idealizado pelo Condestável, graças às escavações arqueológicas conduzidas no Campo de S. Jorge por Afonso do Paço.
Em meados do século XX, a Capela de S. Jorge encontrava-se num estado de degradação total. Foram alguns elementos da Mocidade Portuguesa que, pela primeira vez, tomaram a iniciativa de adquirir os terrenos em redor do templo, algo que aconteceu a partir de 1953. A campanha, que ganhou dimensão nacional, possibilitou a compra de vastos terrenos em volta e a elaboração de um anteprojecto de urbanização do local.
Foi na sequência das primeiras obras de terraplanagem que surgiram os primeiros vestígios da batalha. As escavações arqueológicas, patrocinadas pela Comissão de História Militar e sob a direcção de Afonso do Paço, iniciaram-se pouco tempo depois e possibilitaram a descoberta de trincheiras, do fosso e das covas de lobo.
Uma descoberta que veio pôr cobro a interpretações diversas do que aconteceu durante a batalha em termos de estratégia defensiva por parte dos portugueses. As próprias fontes coevas eram divergentes em relação ao sistema militar nacional. Se por um lado, Froissart falava de fortificações com abatises e o Despensero de D. Leonor referia uma estacada e muitas covas abertas com ramos, Ayala menciona apenas os dois ribeiros e Fernão Lopes alude a um terreno sem quaisquer obstáculos, onde «tudo era campina igual sem nenhum estorvo».
A norte e leste da Capela de S. Jorge, descobriu-se um longo fosso, com 182 metros, e um importante sistema de fossos e covas de lobo, com 150×100 metros. Alguns fossos continham cerca de 40 filas de covas de lobo, cada uma com comprimentos variáveis entre 60 e 80 metros.
Em Março de 1960, dois anos depois do início das escavações arqueológicas, estava a nu todo o sistema defensivo situado sobre o flanco esquerdo da posição portuguesa. Estavam descobertas 830 covas de lobo, quatro fossos principais e vários secundários.
Nos terrenos a sul da capela, apareceu uma cova cheia de ossos de 400 indivíduos, obviamente castelhanos. Em quase todos os ossos encontrados, faltavam invariavelmente as extremidades, certamente porque serviam de «banquete» aos lobos vindos da serra de Albardos nos dias que se seguiram. «Quem por esses dias passasse na estrada ouviria com horror, sobre a cumeada, um vasto e crepitante roer de ossos e o sôfrego deglutir das feras» (Jaime Cortesão).

in «Batalha: A Vila da Vitória», V. N. Gaia, IK Diagonal, 2004.

Declaração de interesses

Boas,
desta vez venho bloggar na primeira pessoa. É que ontem ouvi alguém, que não consegui identificar, mas creio que do Corta-fitas, na Antena 1 e resolvi seguir a dica, para não parecer que ando a comentar oculto.

Sou Professor de Matemática e Ciências numa escola do Grande Porto. Vivo em Gaia e sou sócio do Sport Lisboa e Benfica.

Politicamente ando quase sempre afastado dos partidos, mas não sou independente: voto à esquerda – já votei PS e Bloco. Nunca votei noutro partido.

Estou envolvido no movimento sindical, em particular no movimento sindical docente.

A falácia do casamento gay -2

Como seria de esperar os comentários críticos ao meu texto “A falácia do casamento gay” assentaram nos seguintes argumentos.1) discriminação,2) afectivas /humanitárias,3) demagógica! Quanto ao argumento de que os gays são discriminados por razão da sua orientação sexual, julgo que ficou claro que não são de todo.Um gay pode casar se o fizer com uma pessoa do sexo diferente.Está rigorosamente em pé de igualdade com qualquer outra pessoa. Da mesma forma que um negro não pode dizer que é a sua condição de ser negro que lhe dá acesso ao casamento.Não!É por ser homem e querer casar com uma mulher.O mesmo se aplica às mulheres como é óbvio!As razões afectivas tentam desencadear sentimentos de compaixão pelas pessoas a quem supostamente é impedido o acesso ao casamento, como se lhes fosse negado o acesso à felicidade.Ora casar não é sinónimo de felicidade!E depois invoca-se ( em certa medida tambem o faço)a generalidade das pessoas que aceitam o casamento gay o que, não sei se é assim tão verdade.Eu próprio tendo a apresentar como fim pacífico de conversa algo como “se isso os faz felizes pois assim seja”! Mas há uma questão que é muito importante para muita gente e que raramente é invocada.São as questões inerentes à adulteração do casamento civil tal como o conhecemos, eliminando-se a sua marca mais importante (entre um homem e uma mulher)!Para muita gente o casamento é a célula principal (estaminal chama-lhe o Prof Paulo Pulido Adragão) da sociedade.Não pode ser de ânimo leve que os políticos mudem radicalmente um conceito social de tal importância sem que o povo seja ouvido!E a dignidade dos homosexuais e a sua segurança jurídica e patrimonial já está garantida com o conceito “uniões de facto dos homosexuais”!

Vasco Lourenço – Do interior da Revolução (Primeira reunião alargada)*

PRIMEIRA REUNIÃO ALARGADA, NUM MONTE AGRÍCOLA, PERTO DE ÉVORA

Lá fomos para a reunião. Preocupados com a segurança, decidimo-nos por dois locais de concentração em Évora. Um junto do Templo de Diana, para os que vinham do norte, e outro, numas bombas de gasolina, à entrada da cidade, para os que iam de sul…
Enquanto nas bombas de gasolina estava o Piteira Santos e mais um outro capitão, que conheciam os previstos vindos do sul, no Templo de Diana, formámos um grupo de recepção com um elemento de cada curso da Academia Militar.
Seria, portanto, difícil que quem chegava não conhecesse ninguém. Como recurso, estava previsto que entre as 14 e as 14.30 estaria um carro com o capot aberto, simulando uma avaria, devendo quem precisasse dirigir-se ao condutor, apresentar-se, pois seria encaminhado.
Mal chegámos junto do Templo de Diana, vimos aparecer um Mercedes de matrícula militar com um velhinho a sair de lá de dentro. «O que é isto?», diz o Bicho Beatriz. «Quem é aquele tipo?», digo eu. «Eh pá, aquele tipo é o comandante da Região Militar.»
«Alto! Estamos denunciados». «Bom, está bem, ninguém se perturba. Vamos para o jardim».
Íamos para avançar para o jardim, aparece outro Mercedes com outro velhinho, e diz o Bicho Beatriz. « Eh pá, aquele é o segundo comandante e o tipo conhece-me!»
Dá meia volta, mete-se no carro e zarpa. Bem, croquis numerados era ele que os tinha no carro.
Avanço para o jardim e que vejo? O jardim cheio de malta nova, cabelo curto, a assobiar, a passear em grupos de dois ou três, a passarem uns pelos outros, a fazerem que não se conheciam, a tentar despistar. Mas qualquer pessoa que chegasse via que se passava qualquer coisa. Em Évora, num domingo, o jardim cheio…
Bem, de repente, eu entro pelo meio daquilo, com os croquis, e à medida que os vou entregando, vou dizendo. «Desaparece! Desaparece! Desaparece!»
E começa aquela malta toda a sair do jardim, a meter-se nos carros e a zarpar! Com os generais a olharem para nós com caras de parvos. Mais tarde, viemos a descobrir como é que eles tinham sabido. Tinha sido um major do Quartel General de Évora que tinha denunciado a reunião. Um major de Artilharia chamado Gaspar, conhecido pelo Gasparito, o doido, mas, enfim, o Dinis de Almeida tinha-o informado da reunião e ele tinha-nos denunciado.

* PRÉ-PUBLICAÇÃO

Os limites da arte ou a arte sem limites

Stelarc_orelha

Não façamos confusão. Stelarc é um artista. É um performer. Não é daqueles que coloca uma série de artefactos e resíduos orgânicos no chão e chama àquilo arte. Se assim é, eu sou um grande artista, a acreditar na fantástica apresentação do meu saco do lixo.

Não. Stelarc é mesmo um artista. Não é jovem em idade mas muito jovem em determinação e imaginação.

Apresentemos o senhor. Stelios Arcadiou nasceu em Limassol, em Chipre, numa obra do acaso, porque onde ele se sente bem é na Austrália. A sua arte, vamos chamar assim, suporta-se em perspectivas de futuro, em concreto no corpo futurista. O homem, ou será o artista, pensa que o corpo humano é obsoleto e, portanto, pretende ciberorganiza-lo. Este organiza-lo do ponto de vista cibernético deve ser entendido numa dupla perspectiva de ‘criar’ novos órgãos e arranja-los de maneira diferente.

Já foi o principal responsável por uma unidade de investigação de artes digitais, na Nottingham Trent University. Agora, aos 62 anos, tem um amplo projecto em desenvolvimento. Esteve recentemente no Festival Internacional de Ciência de Edimburgo, onde apresentou uma “terceira” orelha. Sim, implantada, de forma artificial, através de cirurgia no braço. Tal e qual a foto documenta (também aqui não façam confusão, a imagem é da National Geographic e eles levam tudo muito a sério). Para breve está a projectar instalar um microfone no mesmo local, para permitir aos utilizadores da internet interessados “ouvir” através da sua orelha. Fantástico.

Sobre o projecto de Stelarc, Michael Smyth, director do festival escocês, afirmou que “talvez estejamos a vislumbrar o futuro aqui, onde a tecnologia fica incorporada”. Literalmente, acrescento eu.

“Todos carregamos telefones portáteis para todo o lado mas, subitamente, quando quebramos a barreira da pele, já é assunto”, completou. Não está mal visto, não senhor.