Memórias da Revolução: 16 de Abril de 1974

No dia 16 de Abril de 1974, a política internacional é o prato forte da capa do «Jornal de Notícias». Em frança, Fouchet desistiu a favor de Delmas. Na Nigéria, a tropa ocupou o poder. Um tenente-coronel derrubou o Presidente da República. Na Síria e no Líbano, continuam os ataques de Israel. O Egipto avisa que não ficará de braços cruzados se esses ataques continuarem.
A Portugal, já chegou o Bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto, para discutir a questão dos padres combonianos.
Agora que se aproximam as Feiras do Livro, o que lêem as crianças? Mafalda ou Mickey.
Charles Chaplin, o Charlot, está de parabéns. Faz hoje 85 anos.
Faltam 9 dias para a Revolução.

O lápis azul italiano

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Vauro Sinese é cartoonista de profissão. Prefere a sátira para fazer valer os seus pontos de vista. Um pouco como o nosso Antero. Nascido em 1955, passou uma vida a satirizar a classe política italiana que, como sabemos, se coloca a jeito para essas coisas. Sobre Berlusconi, esse delírio de todos os cartoonistas, Vauro já fez centenas de desenhos. E continuará a fazer. Não sabemos é onde.

A longa carreira já lhe valeu prémios, palmadinhas nas costas, muitas críticas, bastantes problemas e uma ou outra censura. Essa longa carreira faz dele um dos autores do género mais populares de Itália. Até alguns dias atrás trabalhava também para a RAI, a estação de televisão pública. Foi para a RAI que desenhou um dos seus muitos cartoons marcados por uma certa polémica. Digo “certa” porque há muitos outros que poderão ser ainda mais polémicos.

O cartoon versava uma crítica ao governo a propósito do terramoto de L’Aquila. Mas terá sido visto como ofensivo para as vítimas do sismo. O desenho foi apresentado no programa “Annozero”, um informativo que estava a causar alguns problemas ao chefe do Governo, pela forma como tinha criticado a resposta do executivo ao sismo, contrariando a maioria da comunicação social que aplaudia a generalidade da acções governamental.

O desenho (que se pode ver aqui) referia-se os planos do governo para aliviar as restrições às ampliações de construções residenciais, procurando reforçar a economia. Mostrava um coveiro cansado, ao lado de caixões, com a legenda “Ampliando a centimetragem cúbica … dos cemitérios”.

Mais do que sátira é mau gosto? Talvez. Mas não é isso que está em causa.

Vauro Senese foi demitido ontem, quarta-feira. O director-geral da RAI, Mauro Masi, nomeado pela maioria parlamentar mandou ainda o pivot do programa, Michele Santoro, “reequilibrar” a cobertura do assunto no programa desta quinta-feira.

Claro está que a oposição veio falar em censura, a maioria respondeu com a necessidade de respeito pelas vítimas. Cada uma das facções apresentou-se neste caso como se apresenta quase sempre, procurando tirar dividendos políticos. Quanto ao autor, foi alvo de um acto de censura. Não porque o seu trabalho não tenha sido mostrado, porque foi, mas porque não o poderá voltar a fazer num programa da RAI. Pelo menos tão cedo.

‘Xutos’ no poder e ‘Pontapés’ no vazio

Os ‘Xutos e Pontapés’ são, há anos, um ícone de salutar irreverência. A designada música de intervenção sempre integrou a expressão viva, e naturalmente cantada, da contestação, cujo símbolo maior e mais autêntico é, não foi, é Zeca Afonso.
Os percursos históricos e políticos em Portugal, como sucede em outros países, contêm registos de figuras e obras intemporais. O Zeca e as suas canções, assim como Eça de Queiroz e os ‘Maias’, são exemplos de fortes expressões dessa intemporalidade. Nesse cenário imaginário do tempo infinito, além de outros, gravei a escopo e martelo o nome e canções dos ‘Xutos e Pontapés’. Tratou-se possivelmente de uma atitude interesseira e egocêntrica: eu, como eles, sentimo-nos sempre jovens, independentemente do BI (não confundir com Banco Insular).
Tudo isto se coloca a propósito da letra da canção “Sem eira nem beira”, que é um verdadeiro ‘xuto’ no poder. No actual, e naqueles que têm exercido funções centrais e locais desde há 30 anos. É mesmo uma canelada a valer que magoa, e deveria despertar, qualquer atleta, mesmo do género daquele que, por moda e/ou populismo, se junta ao povo na meia, nos três quartos ou na inteira maratona.
Segundo alguns críticos, trata-se de “um grito de revolta de cidadãos desamparados”. Excluídos oportunismos quanto ao uso da letra e música, eu comungo dessa opinião. E até acrescento: “o que faz falta é agitar a malta”, plagiando, embora, o Zeca.
Por tudo isto, foi decepcionante deparar-me com o acto de contrição do Zé Pedro. Surpreendentemente demarcou-se da leitura política de “Sem eira nem beira” cujo texto, recorde-se, contém um apelo claro ao ‘Senhor engenheiro’ para nos dar um pouco de atenção e pôr fim à roubalheira.
Ao “xuto” no poder, Zé Pedro juntou um “pontapé” no vazio. Este último doeu-me imenso e não há pomada, de marca ou genérica, que me valha.

Xutos e Pontapés, os Comendadores da Ordem do Mérito


O João Paulo já apresentou há oito dias, no Aventar, a nova música dos Xutos, «Sem Eira nem Beira». A partir daí, muitos foram os blogues que lhe seguiram o exemplo, como por exemplo o «5 Dias».

«Do Portugal Profundo»
, o professor António Balbino Caldeira refere que «os Xutos e Pontapés, “Sem Eira Nem Beira”, arriscam-se a ser, involuntariamente, os cantautores populares de revolta contra o socratismo terminal, tal como Pedro Abrunhosa foi face ao cavaquismo senescente».
Na minha interpretação pessoal, o que se deve aqui realçar é a palavra involuntariamente. Porque logo após a chegada da música à opinião pública, Zé Pedro, repentinamente transformado em rapaz ajuizado (e medalhado), veio dizer, no Público, que os Xutos «nunca quiseram vestir a roupagem de “líderes de uma revolução política”». Disse ainda que interpretar esta faixa, cantada pelo baterista Kalu, como um hino contra as políticas do Governo socialista é “deturpar” a intenção do grupo. “Não há aqui alvos a abater”, diz, em resposta ao facto de o refrão começar com a frase Senhor engenheiro, dê-me um pouco de atenção. “Não queremos fazer um ataque político a ninguém.»
Já há uns meses, no «Jornal de Notícias», Zé Pedro confessara a sua paixão por José Sócrates. Referindo que «não há ninguém – ninguém mesmo – com capacidade para ocupar o lugar dele melhor do que ele» ou que «espero que Sócrates não perca as eleições. Tem que dar a volta por cima». Termina a entrevista com uma confissão que explica as frases anteriores: «Deixei de beber».
Pois que beba, que volte a beber e que deixe de dizer tonterias. Ou é a medalha de comendador e a profissão de manequim que lhe pesam e que o obrigam a dizer coisas destas?
Ao menos que não finja que continua a ser um menino rebelde. Faça como o Rui Reininho, o tal que mete todos os Xutos num só bolso, e cante musiquinhas das Doce e do Roberto Carlos.

A queda de um anjo

Num curto post, publicado no Blasfémias, João Miranda critica os familiares das vítimas do colapso da ponte de Entre-os-Rios por terem apresentado um processo judicial mal fundamentado e quererem agora que seja o Estado a assumir o pagamento dos custos judiciais, que foram condenados a saldar por terem perdido em tribunal.

É, de facto, um pedido sem sentido. Não foi o Estado que apresentou o processo, nem que o fundamentou de forma deficiente. Imagine-se o que seria, se todos nós recorrêssemos ao tribunal para tentar resolver qualquer litígio, mesmo sem fundamento ou provas. Se a coisa corresse bem, não havia problemas. Se corresse mal, o Estado pagava.

No caso de Entre-os-Rios, perder o processo foi como se a famosa estátua do anjo tivesse caído. Não há aqui menor sensibilidade em relação ao triste acontecimento de 2001. Há apenas uma questão de bom-senso.

O valor, é verdade, é exorbitante, num sinal de que a justiça em Portugal é lenta, chata, burocrática e muito dispendiosa. 500 mil euros por este caso parece excessivo.

Nos comentários a este texto, diz-se que “a culpa morreu solteira” porque “ninguém foi responsabilizado”. Não é verdade. Jorge Coelho demitiu-se do cargo, assumindo as culpas, mesmo que não as tivesse. Hoje é presidente de uma grande empresa construtora. Esperemos que, nestas funções, possa evitar a queda de alguma ponte ou viaduto. Mesmo dos que não servem para nada.

Actualização:
O Público online colocou uma informação da Lusa, segundo a qual o Tribunal de Castelo de Paiva disse hoje que o valor das custas relativas ao processo da queda da ponte de Entre-os-Rios é de 57 mil euros e não de perto de meio milhão, como disseram as famílias das vítimas. O presidente da Associação de Familiares das Vítimas da Tragédia de Entre-os-Rios (AFVTE-R), Horácio Moreira, surge na mesma notícia a admitir que seja esse o valor. “Se o tribunal diz que é esse o valor, eu acredito”. E, sem se rir, desvalorizou a diferença. Sim, porque entre 57 mil euros e 500 mil, a diferença é insignificante. Acho que vou passar a acreditar no coelhinho da Páscoa.

Soeiro Pereira Gomes nasceu há 100 anos (III)

(parte anterior aqui)
Em 1944, Soeiro Pereira Gomes começa a escrever «Engrenagem», mas não chega a concluir o livro. A realidade que apresenta nesse romance não difere muito da dos «Esteiros». Retrata as relações económicas e humanas numa grande fábrica de ferro e aço de uma vila ribatejana, que podia muito bem ser a fábrica de cimentos de Alhandra. Os diálogos, a acção, as condições de trabalho – tudo se assemelha a um quotidiano que o autor conhecia perfeitamente.
Os «Contos Vermelhos», que foram escritos na clandestinidade, narram a vida dos resistentes comunistas que, como ele próprio, andavam fugidos à PIDE. Cada um deles é um homem comum – com medo de tudo, mas também com esperança num futuro melhor e com força para o procurar.
Em «Refúgio Perdido», um homem perseguido é obrigado a dormir ao relento depois de perder o local onde se refugiava. Em «O Pio dos Mochos», um «bufo» recebe uma segunda oportunidade para regressar à luta política contra o regime. Em «Mais um Herói», tudo gira à volta da capacidade de resistência dos presos perante os horrores da tortura e dos interrogatórios.

A sua intervenção política, por alturas da publicação de «Esteiros» e da redacção de «Engrenagem», era cada vez mais intensa. Numa altura em que decorria a II Guerra Mundial e o mundo tomava conhecimento da barbárie nazi, Soeiro Pereira Gomes abria as janelas da sua casa para que todos pudessem ouvir as novidades da Guerra através da BBC, que estava proibida em todo o país.
Quando participou nas greves de 8 e 9 de Maio de 1944, como membro do Comité Regional da Greve do Baixo Ribatejo, chamou a atenção da PIDE para as suas movimentações políticas. Quando a Polícia Política se preparava para prendê-lo, conseguiu escapar e acabou por entrar na clandestinidade no dia 11 de Maio daquele ano. Na altura, foi uma vizinha que o avisou de que a chegada da PIDE estava eminente. Só teve tempo de fugir, dentro do seu automóvel, a caminho da clandestinidade.

Mesmo fugido, Soeiro Pereira Gomes não abrandou a sua acção política. Assumiu o comando da Direcção-Regional do Alto Ribatejo, contribuindo para o alargamento da base de apoio do Partido, e foi eleito membro do Comité Central.
Em 1946, elaborou um «esboço sobre a maneira como utilizar as praças de jornas ou praças de trabalho no Movimento de Unidade Camponesa para o derrubamento do fascismo». Esse trabalho foi publicado pela primeira vez no jornal «Ribatejo», periódico clandestino por ele impulsionado. O objectivo do seu escrito era criar «Comissões de Praça», que discutissem com os patrões o valor a pagar por cada jorna.
Torna-se membro da Comissão Executiva do MUNAF – Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista, acompanha as actividades do MUD – Movimento de Unidade Democrática, serve de elemento de ligação entre o Partido e o Conselho Nacional de Unidade Anti-Fascista e participa na primeira fase da campanha presidencial de Norton de Matos.
No entanto, nesta altura, já se encontrava gravemente doente e impedido, por razões óbvias, de ser devidamente tratado. Chegou a estar previsto a sua deslocação a Inglaterra, mas os perigos que encerrava uma viagem clandestina com várias escalas levaram o cancelamento da operação. Tinha apenas 40 anos quando morreu, no dia 5 de Dezembro de 1949.
No largo fronteiro à Sociedade Euterpe Alhandrense, a mais antiga colectividade do concelho (1862), encontra-se o monumento de homenagem a Soeiro Pereira Gomes. Foram seus autores os escultores João Duarte e João Afra, após concurso público em 1981.

MAR "FLAT"

ONDAS PARADAS

Tudo parado. Ondas paradas, máquinas paradas, parque parado, energia parada. Na Aguçadoura, tudo parado há cinco meses. E quer a EDP, ser uma empresa líder na área das energias renováveis. Pelos vistos, tudo isto é normal. A paragem é fruto dos reveses a que estão sujeitos os processos de investigação. A tecnologia não está ainda estabilizada, dizem agora. Será que é assim em todo o lado, ou só neste nosso País? Tudo isto me parece um fracasso. Esta bandeira deste governo, fracassou! Mentiras e mais mentiras, é o que este (des)governo nos dá. As três máquinas estavam no mar desde 15 de Julho p.p., se calhar para “Inglês ver”, e foram retiradas cerca de 2 meses depois, devido a “problemas técnicos”. O certo é que não voltaram ao mar e estão em Leixões, a seco, ao sol. O preço das máquinas foi de nove milhões de euros. Uma bagatela, se tivermos em conta o que se esbanja diariamente só em juros da dívida pública ao estrangeiro. Dizem agora que os problemas técnicos não existem, que há falta de dinheiro da detentora do projecto, desdizendo as notícias anteriores. Mais mentiras, ou as outras é que o eram? Afinal, como sempre, é tudo uma questão de notas de euro. Mas os nove milhões já lá vão, voaram baixinho. Eram 3 máquinas, que já não são, e iriam ser 25 que , pelo que se vê, nunca irão ser. O certo é Portugal ter perdido a corrida pela liderança nesta área, e tudo estar na estaca zero, excepto o dinheirinho, nosso, já gasto. Tudo foi inaugurado como se estivesse bom e a funcionar, à boa maneira do nosso Primeiro, que tem mais exemplos como este. O do Magalhães que deu e tirou computadores aos meninos pois era só para a comunicação social ver, os alunos que afinal não eram – eram contratados – nos quadros interactivos das escolas, a Escola de Soares dos Reis que afinal ainda não está pronta nem para lá caminha apesar de inaugurada com pompa e circunstância, e tantos outros.

Continuo tão contente com a nossa (des)governação.

Previsão meteorológica

Tenho uma amiga que vive em ânsias de saber a previsão meteorológica. É que as condições do tempo influenciam muitíssimo o seu estado de espírito e, se aquilo que se pode esperar é uma longa sucessão de dias cinzentos, então ela prefere sabê-lo o quanto antes e alugar cinco comédias no videoclube.

Se, pelo contrário, os dias serão soalheiros e a temperatura convidar ao passeio, ela quer estar prevenida, deixar o trabalho organizado para poder agendar uma escapadela ao campo, ou algo semelhante. Quem a conhece sabe que os dias cinzentos equivalem a vê-la depressiva e desconfiada da humanidade.

E que estes dias de primavera enganadora, carregados de cinzento, tolhidos de frio são, para ela, um sacrifício muito penoso. Não sendo tão sensível como ela, há dias em que eu também experimento as agruras que um Inverno demasiado prolongado pode trazer. À sensação geral de desconforto que induzem o frio e a humidade, juntam-se as pequenas misérias do dia-a-dia, um pulha que nos entra pela porta, um cão abandonado numa varanda, um desencontro com alguém a quem ansiávamos ver, a nossa equipa que perde um grande jogo em casa, esta chuva que não pára de cair…

Todos temos os nossos truques, que às vezes têm algo da fórmula mágica dos magos das histórias de encantar. O meu truque para os dias assim é evocar uma canção que sempre me tranquiliza porque acredito no que ela diz. E o que ela diz é uma verdade tão simples quanto irrefutável: não se pode reter a primavera. Não se pode demorá-la ou recusá-la ou aviltá-la. Tímida ou impositiva, ela fará a sua entrada e com ela novos dias e novas esperanças. O meu mago chama-se Tom Waits.

Uns mais cães que outros: o pluto e o pateta

Ouvi pela rádio que a Quimonda ia despedir umas centenas de funcionários e que iria deixar “meia-dúzia” para fazer a manutenção da fábrica.
A Quimonda é uma história muito mal contada porque a empresa (siemens, depois infineon e agora Quimonda) fartou-se de receber dinheiro (NOSSO!) para operar – em Vila do Conde diz-se mesmo que foram subsídios equivalentes a um ano de salários dos funcionários, isto é, o custo com pessoal era coberto integralmente pelos apoios do estado.

Mas, só me ocorria uma imagem “emprestada” por um amigo – até na Disney, uns são filhos e outros são filhos da mãe.
Que animal é o Pluto?
Certo. Um cão!
E como é tratado?
Certo. Como um cão!
E o Pateta? Que animal é?
Certo. Um cão?
Pois…

E foi então que juntei o Governo, a Quimonda, os Bancos, o Pluto e o Pateta tudo na mesma imagem. Há muito tempo que a explicação para a nossa crise estava nos quadradinhos da Disney: uns são Plutos e outros são Patetas.