Memórias da Revolução: 6 de Abril de 1974


Chegou o grande dia, noticia o «Jornal de Notícias» de 6 de Abril de 1974. Logo à noite, em Brighton, realiza-se o Eurofestival da Canção, um dos maiores acontecimentos do ano. E lá está Paulo de Carvalho, com o seu «E Depois do Adeus», com música de José Calvário e letra de José Nisa, a representar Portugal.
Como sempre, a imprensa dá a nossa canção como uma das favoritas. Como sempre, diz-se que foi a mais aplaudida dos ensaios. Como sempre, e desculpem-me o tom pessoal, a minha mãe deve ter feito um bolo para passarmos o serão. Nesse ano não sei, que era pequenino, mas foi assim assim durante muitos anos, por isso naquele ano também deve ter sido.
Como sempre, a desilusão seria tão grande quanto a esperança. Não faz mal. «E Depois do Adeus», no 25 de Abril, desempenharia um papel muito mais importante.
Faltam 19 dias para a Revolução.

Medina Carreira: A crise só nossa (I)

Nota: O Professor Medina Carreira, um dos mais capacitados economistas portugueses, sempre que fala, deixa o País a reflectir, estupefacto. Aqui deixamos a síntese de uma das últimas entrevistas que concedeu e, a não perder.

“Vocês, comunicação social, o que dão é esta conversa de «inflação menos 1 ponto», o «crescimento 0,1 em vez de 0,6»….Se as pessoas soubessem o que é 0,1 de crescimento, que é um café por português de 3 em 3 dias… Portanto andamos a discutir um café de 3 em 3 dias…mas é sem açucar…”
“Eu não sou candidato a nada, e por conseguinte não quero ser popular. Eu não quero é enganar os portugueses. Nem digo mal por prazer, nem quero ser «popularuxo» porque não dependo do aparelho político!”
“Ainda há dias eu estava num supermercado, numa bicha para pagar, e estava uma rapariga de umbigo de fora com umas garrafas, e em vez de multiplicar «6×3=18», contava com os dedos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9… Isto é ensino…é falta de ensino, é uma treta! É o futuro que está em causa!”
“Os números são fatais. Dos números ninguém se livra, mesmo que não goste. Uma economia que em cada 3 anos dos últimos 27, cresceu 1% em 2…esta economia não resiste num país europeu.”
“Quem anda a viver da política para tratar da sua vida, não se pode esperar coisa nenhuma. A causa pública exige entrega e desinteresse.”
“Se nós já estamos ultra-endividados, faz algum sentido ir gastar este dinheiro todo em coisas que não são estritamente indispensáveis? P’ra gente ir para o Porto ou para Badajoz mais depressa 20 minutos? Acha que sim? A aviação está a sofrer uma reconversão, vamos agora fazer um aeroporto, se calhar não era melhor aproveitar a Portela? Quer dizer, isto está tudo louco!”
“Eu por mim estou convencido que não se faz nada para pôr a Justiça a funcionar porque a classe política tem medo de ser apanhada na rede da Justiça. É uma desconfiança que eu tenho. E então, quanto mais complicado aquilo fôr…”
“Nós tivemos nos últimos 10-12 anos 4 Primeiros-Ministros:
-Um desapareceu;
-O outro arranjou um melhor emprego em Bruxelas, foi-se embora;
-O outro foi mandado embora pelo Presidente da República;
-E este coitado, anda a ver se consegue chegar ao fim e fazer alguma coisa…”
“O João Cravinho tentou resolver o problema da corrupção em Portugal. Tentou. Foi “exilado” para Londres. O Carrilho também falava um bocado, foi para Paris. O Alegre depois não sei para onde ele irá… Em Portugal quem fala contra a corrupção ou é mandado para um “exílio dourado”, ou então é entupido e cercado.”
“Mas você acredita nesse «considerado bem»? Então, o meu amigo encomenda aí uma ponte que é orçamentada para 100 e depois custa 400? Não há uma obra que não custe 3 ou 4 vezes mais? Não acha que isto é um saque dos dinheiros públicos? E não vejo intervenção da policía… Há-de acreditar que há muita gente que fica com a grande parte da diferença!”
“De acordo com as circunstâncias previstas, nós por volta de 2020 somos o país mais pobre da União Europeia. É claro que vamos ter o nome de Lisboa na estratégia, e vamos ter, eventualmente, o nome de Lisboa no tratado. É, mas não passa disso. É só para entreter a gente…”
“Isto é um circo. É uma palhaçada. Nas eleiçoes, uns não sabem o que estão a prometer, e outros são declaradamente uns mentirosos: -Prometem aquilo que sabem que não podem.”
“A educação em Portugal é um crime de «lesa-juventude»: Com a fantasia do ensino dito «inclusivo», têm lá uma data de gente que não quer estudar, que não faz nada, não fará nada, nem deixa ninguém estudar. Para que é que serve estar lá gente que não quer estudar? Claro que o pessoal que não quer estudar está lá a atrapalhar a vida aqueles que querem estudar. Mas é inclusiva…. O que é inclusiva? É para formar tontos? Analfabetos?”
“Os exames são uma vergonha. Você acredita que num ano a média de Matemática é 10, e no outro ano é 14? Acha que o pessoal melhorou desta maneira? Por conseguinte a única coisa que posso dizer é que é mentira! Está-se a levar a juventude para um beco sem saída. Esta juventude vai ser completamente desgraçada! “
“A minha opinião desde há muito tempo é TGV- Não! Para um país com este tamanho é uma tontice.”

Para que não haja desculpas

Temos tendência a consumir muito. Pode até ser um reflexo dos tempos em que nada tínhamos e nada, portanto, podíamos consumir. Quando passamos a ter, não perdemos tempo e desatamos a comprar tudo o que nos aparecia à frente. Desconfio que até pentes para carecas devem ter sido vendidos aos milhares.

Sem espantos, passamos a dever mais, muito mais do que recebemos. Dos tempos da austeridade, do apertar do cinto, passamos à fase do engordar das carteiras com uma série longa de cartões de crédito, débito, de pontos e de tudo o mais que nos impingiam.

Poupar era uma palavra sem sentido e chapa ganha era chapa gasta. O argumento de que não é possível poupar com o recebemos ficou demasiado gasto de tanto ser utilizado. Por algumas pessoas de forma correcta, por outras – a maioria -, nem por isso.

Cumprindo o ditado que nos lembra que “depois de casa roubada, trancas à porta”, Governo e Banco de Portugal apresentam amanhã a Central de Responsabilidades de Crédito. Um sistema que vai permitir saber quanto se deve e a quantos bancos, se há dívidas existentes ou não ao fisco e até problemas judiciais de insolvência. Os bancos deixarão de ter desculpas e poderão avaliar o risco de crédito de cada cliente com maior facilidade. Não é que não saibam já fazer isso. Deixam é de ter desculpas para dizer que não sabiam.

A deambular

Vivemos na era da informação. Se bem que parece mais a era da desinformação. Sei que corre em tribunal um processo para se decidir em qual das eras vivemos. Como está em segredo de Justiça, ainda nada se sabe… Deambulava pela vastidão da net quando tropecei numa notícia do JN que revela as “10 mentiras do jornalismo“. Estranho este artigo num jornal. Já tinha percebido uma certa inclinação “estranha” do JN, mas como era para o dia das mentiras, nada melhor que ilustrar o dia com mentiras publicadas em jornais. Tudo bem. Curiosamente, a primeira “mentirinha” é a de um fotógrafo que decidiu brincar com o “Photoshop” juntado fotografias no Iraque… e foi despedido. Ironicamente com a “Grande Mentira” – a das armas de destruição maciça – metida na Cimeira dos Açores, a milhões de pessoas, ninguém foi despedido… Não interessa, deambulando… Manuela Ferreira Leite está preocupada e quer combater a corrupção em Portugal. O PS, através do seu porta-voz, Vitalino Canas diz que “estão atentos“.  Nós, os cidadãos também estamos atentos. Tudo está atento. Até a ERC está com “atenção”. Pensando um pouco mais, corrupção, que corrupção? Nunca se conseguiu provar que ninguém neste país é corrupto. Aliás, o melhor é mesmo que não se consiga provar nada, porque senão o número de gestores em empresas de resíduos ainda aumenta significativamente. Ou não.
Saltando para outros lados menos pestilentos, encontrei a dona Maria dos Prazeres a perguntar: “Nunca mais votei. Votar para quê?“. Tem toda a razão, dona Maria dos Prazeres. Não se dê ao trabalho, porque o Ribau Esteves está a preparar a “IV republica“. Ainda não está tudo preparado, porque se meteram as Férias da Páscoa, mas mal acabe esta época festiva irá apresentar a nova versão da república “«num trabalho que estamos a fazer para um dia destes começar um movimento de boa revolução em Portugal, ao nível da cidadania, e para construir um país com futuro». Então, vá! Continuando nas deambulações… parece que alguém descobriu que 1/5 do país não têm dono! O executivo já me mandou um e-mail, “pressionando-me” a emendar para 20%. Porque é “diferente” de 1/5. Parece que o executivo vai gastar 700 milhões de euros para definir que o que não pertence a ninguém, vai ser pertença de todos, revertendo para o Estado. Espero que isto nada tenha a ver com o que Ives Lacoste refere: “Nos nossos dias, a proliferação de discursos que versam o ordenamento do território em termos de harmonia, de busca de equilíbrio, serve sobretudo, para ocultar medidas que permitem às empresas capitalistas, especialmente as mais fortes, aumentar os lucros. Há que salientar que o ordenamento do território não com objectivo única a marginalização do lucro, mas também organizar estrategicamente o espaço económico, social e político, de forma a o aparelho de Estado estar capacitado para sufocar os movimentos populares. (…) Hoje, importa, mais do que nunca, estar atento a esta função política e militar da Geografia, a verdadeira desde a sua génese.” – Yves Lacoste – A Geografia, uma arma para a guerra, 1977
Considerando que estamos em Portugal, não deve ter nada a ver com nada, e nunca se conseguirá provar nada em Tribunal. Devo ser eu que ando a deambular demais por sites anti-capitalistas…
Curiosamente com estas deambulações em Geografia acabo também por tropeçar em Pinochet, porque parece que ele também se interessava muito por geopolítica e geografia. Juntamente com o referido fulano, refere-se “propaganda negra”, “Chicago Boys”, privatização da segurança social e neo-liberalismo. Curiosamente até se fala em fortunas e bancos. E um, pelo nome, até parece português. Não deve ser, porque nós, os portugueses somos muito pequenos e não nos metemos em assuntos assim “tão” grandes. Deve ser um off-shore, um hedge-fund ou outro nome estrangeiro bonito qualquer. Não é dos nossos, que os nossos são sérios. O que importa reter neste assunto é que ele (Pinochet) safou-se de todas as acusações porque “em Julho de 2001, apresentou um atestado de debilidade mental que o terá salvado de uma possível condenação.” Eu acho melhor o Alberto João Jardim calar-se um pouco, porque está a dar ideias ao pessoal do “Contenente” com essa do bando de loucos. Assim, ainda se safam todos!  Parvoíces!
Decido então deambular por temas mais “sérios” que os da actualidade e decido mergulhar nos grande temas filosóficos. O portal de filosofia da Wikipédia tira-me muitas horas de sono. Para minha surpresa veja que a actualidade não me deixa em paz. Encontro o Sócrates. Não este do Freeport, o outro que também não deixou nada escrito, mas que também foi envenenado. Admito que por vezes fico um pouco chateado que qualquer pesquisa sobre o que quer que seja esbarre sempre na wikipedia. Nesta era da desinformação é sempre necessário cruzar várias pesquisas, não vá o diabo tecê-las, ou ainda tropeçámos na página pessoal daquele cardeal que acha que as câmaras de gás eram para desinfectar pessoas. Nesta senda de cruzamento de informações, o Correio da Manhã diz-me que Sócrates tem uma namorada. Fiquei curioso. Então o homem não deixa nada escrito mas tinha namorada?. Porra! Não era o antigo, mas era este, o actual, do Freeport. Seja como for, foi bom porque eu não sabia que o PM tinha namorada. E ainda por cima, uma jornalista. Uma “plantadora” de notícias. E ainda por cima, uma jornalista que também acredita e sente o poder da desinformação. Espero que ela não ache este pequeno comentário insultuoso ou de alguma forma pressionante. Ainda me processa! Seja de que forma for, eu e a sociedade portuguesa só ficavam a ganhar com uma iniciativa dessas: eu, se for processado, promovo o meu novo livro “Como enriquecer na sociedade neoliberal, não fazendo rigorosamente nada e apenas escrevendo livros sem conteúdo nenhum”, e a sociedade ganha também, com a credibilização do jornalista em geral, que assim mostra que também pode mover processos a outras pessoas.
Estou farto da “actualidade” e de tantas notícias. Plantadas ou não. Já não me interessa tanta (des)informação. Vou mas é deambular aqui
pe
lo pequeno pinhal perto de minha casa, não vá aparecerem os tais senhores do Estado que não sabem de quem são aqueles 20% do território. Se ninguém se chegar à frente, este pequeno pinhal é meu, desde pequenino. E com o Photoshop, eu até sou capaz de “fazer” os documentos que o comprovam.

Os roubos

Leio, na edição online de A Bola, que o Estádio do Mar, em Matosinhos, foi alvo de vandalização, com um assalto à secção de bilhar. Um cofre foi arrombado, e vários gabinetes foram vandalizados, diz o jornal, segundo o qual não se sabe ainda a avaliação do que foi roubado.

Feitas as contas é o segundo clube que, no mesmo fim-de-semana e na sequência de jogos com os grandes de Lisboa, é roubado. Embora de formas diferentes. O Leixões através de bens materiais, o Estrela da Amadora de forma desportiva.

Ministério Público. Justiça e Hierarquia

Em falta. Caros colegas “bloguers”. Já há alguns dias maturava a farpa que iria lançar. Trata-se, como se verá de uma simples provocação. O Ministério Público, pressões, a legalidade democrática. É tema que está na ordem do dia, e levará, talvez, à queda do Ministério Público, tal como o conhecemos.
Como se sabe, o Ministério Público vela pela legalidade democrática. Afastada, parece que de vez, a justiça privada, se os juízes aplicam a justiça em nome do Povo, o Ministério Público representa o Povo nos tribunais. Não, não é uma asserção revolucionária do “PREC”. É o que resulta da Lei e da Constituição. Pauta-se por critérios de objectividade (paralelo da “isenção” dos juízes), e apenas deve obediência à Lei. Nada mais, pelo menos por agora. A face mais visível do Ministério Público é, sem dúvida, a sua intervenção na jurisdição penal, onde lhe cabe, em suma, receber as notícias dos crimes (participações ou queixas), investigá-los, deduzir as acusações e sustentá-las em julgamento. Até aqui, nada de novo, certo?
Serve o dito como ponto de partida. Agora a provocação: quer-se um Ministério Público ainda sujeito aos princípios da legalidade e da objectividade, ou um Ministério Público funcionalizado, cadeia de transmissão do Governo, recebendo, ainda que por via indirecta, instruções e directivas do Governo? Quer-se um Ministério Público que apenas respeite a Lei, garantindo que todos os cidadãos são iguais em direitos e deveres perante a Lei, ou antes, um veículo de aplicação prática de um mando que vem desde cima? As maneiras de o fazer são muitas e variadas. Um Governo dito democrático, não teria, certamente, coragem de o fazer, submetendo os magistrados do Ministério Público a uma rígida obediência a ordens e directivas do Governo, ou do Ministro da Justiça.
Como também se saberá a magistratura do Ministério Público tem uma estrutura hierarquizada, tendo, no topo o Procurador-Geral da República, e nos escalões intermédios, Procuradores-Gerais Adjuntos, Procuradores da República, e na base, os Procuradores-Adjuntos. Como se sabe o Procurador-Geral da República é nomeado pelo Presidente da República, sob proposta do Governo. Os restantes magistrados do Ministério Público são profissionais de carreira. Ascendem, por promoção, resultado das inspecções periódicas a que estão sujeitos (a cargo do Conselho Superior do Ministério Público). E se, em vez de concurso fossem os escalões intermédios designados por nomeação? E se não fossem aqueles que pelos seus pares (e deputados, e elementos designados pelo Governo que compõe o Conselho Superior) são considerados mais aptos, a ocupar, por concurso, os lugares de chefia? E se o critério fosse a confiança (política, ou outra), que os elementos da hierarquia intermédia merecem aos da hierarquia superior? Estariam os interesses dos cidadãos, na realização da justiça mais protegidos?
Será que há magistrados do Ministério Público que sejam suficientemente irresponsáveis para denunciar publicamente pressões sobre colegas no sentido de beneficiar, no geral, ou em processos concretos, determinadas figuras públicas. Quanto ao Sr. Ministro da Justiça, se procurarem na esfera blogística encontrarão um post, escrito há alguns anos, pelo Dr. José Alberto Barreiros, sobre a passagem do Sr. Ministro pela Administração de Macau, e em que se relata os contactos deste com um Sr. Juiz de Instrução Criminal de Macau, o processo disciplinar a que o Sr. Ministro foi sujeito, e o fim que este teve. Boa sorte na navegação!
Paulo Ferreira

Titanic

“Wall Street está a ser paga para voltar a arrumar as espreguiçadeiras no convés do Titanic.Oxalá o resultado desta vez seja melhor”Ed Yardeni,analista financeiro.Der Spiegel 14/2009.

O pior é que os icebergues são cada vez maiores e mais perigosos!E não se vê bem porque havemos todos de embarcar.