Vasco Lourenço – Do interior da Revolução (Primeira reunião alargada)*

PRIMEIRA REUNIÃO ALARGADA, NUM MONTE AGRÍCOLA, PERTO DE ÉVORA

Lá fomos para a reunião. Preocupados com a segurança, decidimo-nos por dois locais de concentração em Évora. Um junto do Templo de Diana, para os que vinham do norte, e outro, numas bombas de gasolina, à entrada da cidade, para os que iam de sul…
Enquanto nas bombas de gasolina estava o Piteira Santos e mais um outro capitão, que conheciam os previstos vindos do sul, no Templo de Diana, formámos um grupo de recepção com um elemento de cada curso da Academia Militar.
Seria, portanto, difícil que quem chegava não conhecesse ninguém. Como recurso, estava previsto que entre as 14 e as 14.30 estaria um carro com o capot aberto, simulando uma avaria, devendo quem precisasse dirigir-se ao condutor, apresentar-se, pois seria encaminhado.
Mal chegámos junto do Templo de Diana, vimos aparecer um Mercedes de matrícula militar com um velhinho a sair de lá de dentro. «O que é isto?», diz o Bicho Beatriz. «Quem é aquele tipo?», digo eu. «Eh pá, aquele tipo é o comandante da Região Militar.»
«Alto! Estamos denunciados». «Bom, está bem, ninguém se perturba. Vamos para o jardim».
Íamos para avançar para o jardim, aparece outro Mercedes com outro velhinho, e diz o Bicho Beatriz. « Eh pá, aquele é o segundo comandante e o tipo conhece-me!»
Dá meia volta, mete-se no carro e zarpa. Bem, croquis numerados era ele que os tinha no carro.
Avanço para o jardim e que vejo? O jardim cheio de malta nova, cabelo curto, a assobiar, a passear em grupos de dois ou três, a passarem uns pelos outros, a fazerem que não se conheciam, a tentar despistar. Mas qualquer pessoa que chegasse via que se passava qualquer coisa. Em Évora, num domingo, o jardim cheio…
Bem, de repente, eu entro pelo meio daquilo, com os croquis, e à medida que os vou entregando, vou dizendo. «Desaparece! Desaparece! Desaparece!»
E começa aquela malta toda a sair do jardim, a meter-se nos carros e a zarpar! Com os generais a olharem para nós com caras de parvos. Mais tarde, viemos a descobrir como é que eles tinham sabido. Tinha sido um major do Quartel General de Évora que tinha denunciado a reunião. Um major de Artilharia chamado Gaspar, conhecido pelo Gasparito, o doido, mas, enfim, o Dinis de Almeida tinha-o informado da reunião e ele tinha-nos denunciado.

* PRÉ-PUBLICAÇÃO

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