FutAventar – S. L. Benfica #3

Simples, não?
O que dizer ou escrever? Até o Nuno Gomes marcou um golo!

http://videos.sapo.pt/Lzh78ZAHiHOPAfz7eTFH

Coisas que me parecem surreais… mas são reais

Há crise económica, os partidos políticos dizem-se preocupados e atrevem-se a lançar alguns conselhos e recomendações sobre a melhor maneira de enfrentar e resolver a crise. Esses mesmos partidos aplicam fortunas em campanhas eleitorais, e, nestas, em formas pouco esclarecedoras de promover o debate político.

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Os partidos políticos clamam – melhor será dizer, exigem -, por mais debates políticos e todos querem aparecer na televisão. Demoram meses a chegar a acordo e quando chegam não têm coragem de decidir. Têm de ser as televisões a fazer sorteios. Quando chegar a hora das verdadeiras decisões, o que vão fazer?

Uns lançam um programa político de muitas páginas e palavras. Outros são mais contidos nas palavras mas dizem quase o mesmo. As prioridades são as mesmas, as de sempre. Não pode haver outras, claro.

Alguém da presidência lança a suspeita de haver vigilantes do Governo a seguir Cavaco Silva e acólitos. Sócrates diz que é um “disparate de Verão” e mais nada faz, nem sequer pedir uma investigação. O Procurador Geral da República diz que não há dados que apontem para algo mais que o tal disparate.

O Presidente da República nada diz. Deixa o caso em lume brando, faz de conta que não é nada com ele e mantém-se a banhos, tranquilo. Quando fala é para dizer que não quer alimentar casos laterais e garante que preserva a solidariedade institucional. Espantoso. Nem demitiu ninguém, nem anunciou que o faria, não mandou convocar o primeiro-ministro, nem o PGR. Não pediu qualquer informação adicional, não interrompeu as férias para fazer uma comunicação ao país. Nada. Nicles.

Agosto termina hoje, mas com a classe política que temos, a silly season vai continuar.

ATEA

ATEA

Caro presidente [Lula da Silva]

o senhor chegou ao poder carregado pela bandeira de uma sociedade mais
justa e mais inclusiva. O uso da palavra “excluídos” no vocabulário
das políticas públicas tem o mérito de nos lembrar que as conquistas
de nossa sociedade devem ser estendidas a todos, sem exceção. Sim,
devemos incluir os negros, incluir as mulheres, incluir os miseráveis,
incluir os homossexuais. Mas, presidente, também é preciso incluir
ateus e agnósticos, e todos os demais indivíduos que não têm religião.

Infelizmente, diversas declarações pessoais suas, assim como
políticas do seu governo, têm deposto em contrário. Ontem mesmo o
senhor afirmou que há “muitos” ateus que falam sobre a divindade da
mitologia cristã quando estão em perigo. Ora, quando alguém diz
“viche”, é difícil imaginar que esteja pensando em uma mulher
palestina que se alega ter concebido há mais de dois mil anos sem pai
biológico. Algumas expressões se cristalizam na língua e perdem toda a
referência ao seu significado estrito com o tempo, e esse é o caso das
interjeições que são religiosas em sua raiz, mas há muito estão
secularizadas. Se valesse apenas a etimologia, não poderíamos nem
falar “caramba” sem tirar as crianças da sala.

Sua afirmação é a de quem vê ?muitos? ateus como hipócritas ou
autocontraditórios, pessoas sem força de convicção que no íntimo não
são descrentes. Nós, membros da Associação Brasileira de Ateus e
Agnósticos, não temos conhecimento desses ateus, e consideramos que
essa referência a tantos de nós é ofensiva e preconceituosa. Todos os
credos e convicções têm sua generosa parcela de canalhas e
incoerentes; utilizar os ateus como exemplo particular dessas
características negativas, como se fôssemos mais canalhas e mais
incoerentes, é uma acusação grave que afronta a nossa dignidade. E os
ateus, presidente, também têm dignidade.

Duas semanas atrás, o senhor afirmou que a religião pode manter os
jovens longe da violência e delinqüência e que ?com mais religião, o
mundo seria menos violento e com muito mais paz?. Mas dizer que as
pessoas religiosas são menos violentas e conduzem mais à paz é
exatamente o mesmo que dizer que as pessoas menos religiosas são mais
violentas e conduzem mais à guerra. Então, presidente, segundo o
senhor, além de incoerentes e hipócritas, os ateus são criminoso e
violentos? Não lhe parece estranho que tantos países tão violentos
estejam tão cheios de religião, e tantos países com frações tão altas
de ateus tenham baixíssimos índices de criminalidade? Não é curioso
que as cadeias brasileiras estejam repletas de cristãos, assim como as
páginas dos escândalos políticos? Algumas das pessoas com convicções
religiosas mais fortes de que se tem notícia morreram ao lançar aviões
contra arranha-céus e se comprazeram ao negar o direito mais básico do
divórcio a centenas de milhões de pessoas. Durante séculos. O mundo
realmente tinha mais paz e menos violência quando havia mais religião?
Parece-nos que não.

A prática de diminuir, ofender, desumanizar, descaracterizar e
humilhar grupos sociais é antiga e foi utilizada desde sempre para
justificar guerras, perseguição e, em uma palavra, exclusão.
Presidente, por que é que o senhor exclui a nós, ateus, do rol de
indivíduos com moralidade, integridade e valores democráticos?

No Brasil, os ateus não têm sequer o direito de saberem quantos são. O
Estado do qual eles são cidadãos plenos designa recenseadores para
irem até suas casas e lhes perguntarem qual é sua religião. Mas se
dizem que são ateus ou agnósticos, seus números específicos lhes são
negados. Presidente, através de pesquisas particulares sabemos que há
milhões de ateus no país, mas o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística, que publica os números de grupos religiosos que têm
apenas algumas dezenas de membros, não nos concede essa mesma
deferência. Onde está a inclusão se nos é negado até o direito de
auto-conhecimento? Esse profundo desrespeito é um fruto evidente da
noção, que o senhor vem pormenorizando com todas as letras, de que os
ateus não merecem ser cidadãos plenos.

Presidente, queremos aqui dizer para todos: somos cidadãos, e temos
direitos. Incluindo o de não sermos vilipendiados em praça pública
pelo chefe do nosso Estado, eleito com o voto, também, de muitos
ateus, que agora se sentem traídos.

Presidente, não podemos deixar de apontar que somente um estado
verdadeiramente laico pode trazer liberdade religiosa verdadeira,
através da igualdade plena entre religiosos de todos os matizes, assim
como entre religiosos e não-religiosos de todos os tipos, incluindo
ateus e agnósticos. Infelizmente, seu governo não apenas tem sido
leniente com violações históricas da laicidade do Estado brasileiro,
como agora espontaneamente introduziu o maior retrocesso imaginável
nessa área que foi a assinatura do acordo com a Sé de Roma, escorado
na chamada lei geral das religiões.

Ambos os documentos constituem atentado flagrante ao art. 19 da
Constituição Federal, que veda ?relações de dependência ou aliança com
cultos religiosos ou igrejas?. E acordos, tanto na linguagem comum
como no jargão jurídico, são precisamente isso: relações de aliança.
Laicidade, senhor presidente, não é ecumenismo. O acordo com Roma já
era grave; estender suas benesses indevidas a outros grupos não
diminui a desigualdade, apenas a aumenta. Nós não queremos
privilégios: queremos igualdade e o cumprimento estrito da lei, e
muitos setores da sociedade, religiosos e laicos, têm exatamente esse
mesmo entendimento.

Além de violar nossa lei maior, a própria idéia da lei geral das
religiões reforça a política estatal de preterir os ateus sempre e em
tudo que lhes diz respeito como ateus. Com que direito o Estado que
também é nosso pode ser seqüestrado para promover qualquer religião em
particular, ou mesmo as religiões em geral? Com que direito os
religiosos se apossam do dinheiro dos nossos impostos e do Estado que
também é nosso para promover suas crenças particulares? Religião não
é, e não pode jamais ser política pública: é opção privada.

O Estado pertence a todos os cidadãos, sem distinção de raça, cor,
idade, sexo, ideologia ou credo. Nenhum grupo social pode ser
discriminado ou privilegiado. Esse é um princípio fundamental da
democracia. Isso é um reflexo das leis mais elementares de
administração pública, como o princípio da impessoalidade. Caso
aquelas leis venham de fato integrar-se ao nosso ordenamento jurídico,
os ateus se juntarão a tantos outros grupos que irão ao judiciário
para que nossa lei não volte ao que era antes do século retrasado.

Presidente, será que os ateus não merecem inclusão nem em um pedido de
desculpas?

Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos
www.atea.org.br

A Europa virou à direita? Qual Europa?

Os resultados das eleições realizadas em três estados alemães são no mínimo fascinantes. Alem de a CDU ter perdido a governação de 2 estados,

Nos dois casos antecipa-se uma coligação entre o SPD, A Esquerda (Die Linke) e os Verdes: Sarre poderá assim tornar-se na primeira coligação que o partido A Esquerda integra num estado federado ocidental.

A nossa comunicação social como é muito distraída nem repara no dado mais importante: a subida da Esquerda (Die Linke), que nos três resultados fica acima dos 20%, ocupando 0 2º lugar em dois estados.

O resto, com eleições gerais a 27 de Setembro, é mais do mesmo: o bloco central está instituído na Alemanha e pode muito bem ser fonte de inspiração para um futuro bloco central português. O facto de à sua frente estar o SPD ou a CDU é tão irrelevante como a (in)diferença entre PS com e sem D. De notar que nas últimas eleições europeias os partidos portugueses que mantêm relações com o Die Linke (BE e PCP) já somaram 20%.

Acresce na boas notícias que a extrema-direita desceu. Mais cuidadinho a ler os resultados globais das eleições para o parlamento europeu fazia bem a muita gente. Resultados e análise mais detalhada aqui.

Não há empreitadas grátis

lemos

No sábado o Expresso noticiava a propósito do programa de recuperação das escolas que coube ao Grupo Lena a melhor fatia no bolo das adjudicações de empreitadas: 89 285 milhões de euros, seguindo-se a Soares da Costa com menos de metade.

No mesmo sábado o Diário As Beiras inventava um “Dossiê Regresso às Aulas” composto por uma entrevista a Valter Lemos, cinco páginas, pela opinião dos sindicatos significativamente intitulada “Sindicatos ‘de olho’ nas eleições” uma página (a única disponível online), e outra sobre o preço dos livros escolares.

Qual é a relação? Antes de se lançar no jornalismo diário a nível nacional, o grupo Lena adquiriu a empresa Beirastexto, que juntou a  outros jornais regionais que já possuía. Adivinharam: a empresa Beirastexto é a proprietária do Diário As Beiras.

Mais um caso de amor com amor se paga. Da entrevista, além da repetição das mentiras  rotineiras, destaco o final: inquirido pela jornalista sobre o conselho que gostaria de deixar a um sucessor, Valter Lemos responde:

Não sou de muitos conselhos, nem tenho essa arrogância. Ainda tenho muito trabalho para fazer e não pensei nisso. Espero que o resultado das eleições seja favorável ao partido que está no Governo e espero que as questões de política educativa possam ter continuidade no sentido da melhoria de resultados.”

O sublinhado é meu. A preocupação também.

Faz hoje 70 Anos:

Quando o Supremo Comandante das Forças aliadas (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, etc.), General Dwight D. Eisenhower encontrou as vítimas dos campos de concentração, ordenou que fosse feito o maior número possível de fotografias. O motivo:

‘Que se tenha o máximo de documentação – façam filmes – gravem testemunhos – porque, em algum momento ao longo da história, algum idiota se vai erguer e dirá que isto nunca aconteceu’.

Entretanto, o Reino Unido removeu o Holocausto dos seus currículos escolares porque ‘ofendia’ a população muçulmana, que afirma que o Holocausto nunca aconteceu…
holocausto 3
holocausto 1

holocausto 2

 

 

(recebido por mail)

A ARTE (10)

A ARTE (10)

O conteúdo de uma obra é uma nova visão da realidade, às vezes um conflito, uma ponte ou uma travessia difícil entre a ideia e o Homem. Uma travessia sem demonstrações de verdade nem garantias de segurança. A única garantia é que algo muda dentro de nós e do mundo, por via da total liberdade do artista. A Arte é uma das formas mais livres de investigação e expressão de ideias e uma das maiores fontes de enriquecimento da nossa espontaneidade.
O artista é um ser vivo em mutação constante, com profunda experiência da vida, da alegria e do sofrimento do viver. O artista, ainda que nem sempre culto no sentido global do termo, está mais ou menos profundamente inserido no mistério da Natureza e das relações humanas, tal como o cientista e o filósofo, investigando, descobrindo e propagando ideias. Ele é dotado da energia, da acção, da sensibilidade, da curiosidade, da rebeldia e da capacidade de sofrimento necessárias à ânsia de conhecimentos novos, sem a qual não é possível uma personalidade artística profunda. Uma personalidade capaz de dirigir o olhar para outros mundos, outras formas de ser e de estar, outras maneiras não doutrinadas de olhar a existência.
A vivência da Arte é absolutamente singular e não tem paralelo com outro tipo de vivência. Há quem diga que aquele que não vive a Arte não vive a vida. Não querendo ser tão radical, prefiro dizer que quem não vive a Arte não sabe o que perde. Quem vive uma obra de Arte, poderosa expressão da essência humana, está constantemente a aprender uma experiência vivencial que não faz parte dos nossos padrões habituais de reflexão. E pode, se o estímulo, a sensibilidade e o sentido artístico tiverem a força necessária, alcandorar-se a instâncias onde reside uma fruição única do prazer estético. (Continua).

                              (adão cruz)

(adão cruz)

POEMAS DO LUSCO-FUSCO

Eu nasci na erva e dormi no feno
acordei com os melros e rouxinóis
e saltitei com os pardais.
Vesti-me de sol e despi-me de luar
estreei o mundo no abraço das árvores
e no beijo dos rios.
Meus olhos dormidos casaram a noite e o dia
no mesmo silêncio de sonho – menino.
A vida viveu em mim
crescendo todos os tamanhos
e medindo todos os céus.
Também eu fui criança
e matei em mim a criança que procuro.

                             (adão cruz)

(adão cruz)

Santarém, Capital do Gótico (X)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

A elevação a cidade

A elevação a cidade, referendada por Sá da Bandeira no dia de natal do ano de 1868, representou o culminar de um longo período de desenvolvimento da vila. Um desenvolvimento que se prolongava já desde a época medieval, como o provam os contínuos favores de sucessivos monarcas. A carta régia que consagrou o título da cidade, de resto, traçava em algumas linhas toda a história da notável vila ao longo dos séculos.
«Atendendo a que, ilustre por sua remotíssima antiguidade e memórias nobilíssimas, veneranda pela primazia que lhe anda autenticada pela história, já como colónia militar, a que Júlio César deu o seu nome, já como convento jurídico, ou cabeça de uma das três grandes circunscrições judiciais, instituídas pelo imperador Augusto na Lusitânia, já como sede de governo e residência real, nos primeiros séculos da monarquia portuguesa, é a muito nobre vila de Santarém uma das insigníssimas povoações do reino;
Atendendo mais a que, desde 1273 até 1478, doze vezes foram no seu recinto convocadas e celebradas as antigas cortes;
Atendendo outrossim à importância da sua posição, à fertilidade do seu território, aos gloriosos brasões do seu passado, em todos os tempos, às numerosas provas de patriotismo dadas pelos seus habitantes em diversas épocas;
Considerando finalmente que, por todas as referidas condições e demais predicamentos bem conhecidos, é esta povoação inteiramente digna de subir em preeminência, não lhe faltando elementos para sustentar a correspondente dignidade;
Hei por bem fazer mercê à dita vila de Santarém, de a elevar à categoria de cidade, com a denominação de cidade de Santarém, e me praz que nesta qualidade goze de todas as prerrogativas, liberdades e franquias que direitamente lhe pertencem: devendo expedir-se à câmara municipal respectiva a carta competente, em dois exemplares, um para título daquela corporação, outro para ser depositado no real arquivo da Torre do Tombo.»
Foi um momento, o da elevação a cidade, que culminou um processo de profunda reorganização administrativa, em Santarém e em Portugal, iniciado em 1836 e continuado em 1853, 1855, 1895 e 1898. Na primeira daquelas datas, 1836, foram extintos mais de quatrocentos concelhos, fruto de privilégios do passado e da época em que ainda tinham alguma importância, e criados cerca de cem, maiores e mais aptos a corresponder às novas necessidades do liberalismo.
A par disso, surgem os distritos e Santarém vai ser a sede de um deles, de grande âmbito geográfico e que se estende às duas margens do rio Tejo. Das fronteiras de Castelo Branco às portas de Lisboa, eis os seus limites. Uma honra para Santarém, que viu posteriormente o título ser disputado por Tomar, e que provou que os velhos pergaminhos do passado não tinham sido esquecidos.
Um momento que vai trazer consigo alguns outros de igual importância e que não passam, afinal, de consequências do primeiro: a criação de um palácio do governo; a captação de delegações e serviços do Estado; e a construção de uma estrada rodoviária entre Peniche e Évora a passar pela Ribeira de Santarém.
Mas as alterações administrativas no concelho de Santarém não vão ficar por aqui. São alterações que começaram ainda antes, no século XVIII, e que depois se prolongariam pelo século XX. Quando os anos de Setecentos começaram, constituíam o município vinte e cinco freguesias: Abitureiras, Achete, Alcanhões, Azinhaga, Alpiarça, Almoster, Azoia de Baixo, Azoia de Cima, Cartaxo, Casével, Pinheiro, Pombal, Póvoa dos Galegos, Raposa, Ribeira de Pernes, Rio Maior, S. Pedro de Arrifana, S. João da Ribeira, Valada, Vale, Vale de Cavalos, Vale de Figueira, Vale da Pinta, Vaqueiros e Várzea.
Num primeiro relance sobre o panorama nessa época, em relação à actualidade, constatamos de imediato que Azinhaga, Alpiarça, Cartaxo, Pinheiro, Raposa, Ribeira de Pernes, Rio Maior, S. Pedro de Arrifana, S. João da Ribeira, Valada, Vale de Cavalos e Vale da Pinta não pertencem ao concelho.
Cartaxo, Rio Maior e Alpiarça viriam mesmo a constituir concelho próprio, em 1815, 1836 e 1914. Azinhaga passou para o concelho da Golegã; Raposa para o de Almeirim; Valada e Vale da Pinta para o do Cartaxo; Pinheiro e Vale de Cavalos para o da Chamusca; Cortiçada e S. João da Ribeira para o de Rio Maior.
Por outro lado, Póvoa dos Galegos mudou o seu nome para Póvoa de Santarém; Pombal passou a chamar-se Pombalinho; e Vale, Vale de Santarém.
Constata-se também que existem actualmente várias freguesias no concelho que, por esta época de grandes reorganizações administrativas, estavam integradas noutros municípios. Abrã, Alcanede, Arneiro das Milhariças e Pernes estavam nos concelhos de Alcanede e Pernes, que viriam a ser extintos. Não existia ainda a freguesia de Moçarria, que foi desmembrada da freguesia de Abitureiras; Póvoa da Isenta, que saiu do termo de Almoster; e Amiais de Baixo do de Malhou.

Economia e urbanismo: As grandes obras públicas

A segunda metade do século XIX vai marcar o início da modernidade para a vila de Santarém. Ao mesmo tempo, é criada uma série de infra-estruturas fundamentais a nível de transportes e comunicações, caso da via férrea e da ponte sobre o Tejo; e a nível social, cultural e urbanístico.
Assim aconteceu em todo a cidade. Mesmo a zona ribeirinha de Alfange, que vinha a definhar continuamente há alguns anos, devido à forma como fora separada do rio pelo comboio, ganhou um novo fôlego com a instalação na sua área, em 1891, da fábrica e gasómetro da Companhia de Iluminação e Gás de Santarém.
«Surgem então as modernas instituições da urbe: as escolas públicas e o Liceu Nacional, o Museu Distrital, a Biblioteca Municipal, o Teatro, a Praça de Touros, o moderno abastecimento de água a vapor, a Penitenciária Distrital, os jardins românticos, o matadouro municipal e as primeiras agências bancárias. A chegada do caminho-de- ferro, em 1861, a linha de caminho-de-ferro do leste e do norte, a abertura de estradas macadamizadas e a construção da ponte D. Luís I conferem uma nova fisionomia à cidade, integrando-a nas novas correntes urbanas e criando uma primeira vaga de interesse turístico na cidade, que pode documentar-se a partir da inauguração da linha ferroviária. O abastecimento de água iniciara-se em 1876, a introdução do gás de iluminação em 1892. Uns anos depois, será a vez da energia eléctrica.» (Catarina Viegas)
Na economia santarena oitocentista, notou-se sempre uma grande relação entre agricultura e indústria. Mesmo que as unidades fabris de grande dimensão não tenham penetrado no concelho com a dimensão com que o fizeram noutras localidades próximas, houve algumas de pequena e média grandeza que foram criadas e que tinham como sector de actividade a produção de vinhos, a moagem de cereais e a produção de estrumes, já não tanto o azeite. Daí a ligação ao sector primário a que se aludiu anteriormente.
Para além destas, iniciaram a sua laboração nesta época pequenas fábricas de bolachas e doces, de fermentação, de sabões e oficinas de fundição e serralharia de metais. A indústria de curtumes vai renascer em finais do século.
O grande crescimento económico obtido por Santarém no século XX tem as suas raízes mais imediatas no século XIX. A densificação da cidade, a construção de algumas obras de grande envergadura e a mudança da utilização de muitos dos edifícios existentes alteraram de alguma forma a face de Santarém, embora o respeito pela sua estrutura urbana tradicional tenha existido sempre.
Em termos urbanísticos, no século XIX surge um novo conceito de cidade – a cidade aberta. Vai ser a época das grandes destruições – desaparecem troços de muralhas, torres e
p
ortas, altera-se profundamente Alfange e Ribeira de Santarém para a construção da linha do caminho-de-ferro, desaparece a importância estratégica do rio e do monte.
Com o objectivo de desenvolver a totalidade do país, e não só o litoral, Costa Cabral projectara uma linha férrea que atingisse a fronteira espanhola. Nesse sentido, encarregou a Companhia de Obras Públicas de Portugal de desenvolver o projecto e de terminá-lo em dez anos.
A história da linha do norte, na qual a estação de Santarém se integra, começa em 1852. Nesse ano, a 30 de Agosto, um decreto governamental autoriza a construção daquela linha. A ideia era construir inicialmente a linha de Lisboa a Santarém e daí até à fronteira (linha do Leste) e até ao Porto (linha do Norte).
A 28 de Setembro de 1856, é inaugurado o primeiro troço da linha férrea, entre Lisboa e o Carregado. Dois anos depois, já se podia despachar mercadorias para Lisboa a partir da estação de Santarém. Em 1861, no primeiro dia do mês de Julho, a locomotiva Portugal, a mesma que fizera a ligação de Lisboa a Carregado, e a carruagem D. Luis chegam a Santarém pela primeira vez, momento que foi celebrado com grande regozijo.
Quanto à localização escolhida para a estação, após anos de estudos e discussões, acabou por ser extremamente negativa para o bairro ribeirinho de Alfange, que ficou separada do rio pela via férrea, e para a Ribeira de Santarém, cujo tecido urbano ficou totalmente esventrado e dividido a meio.
Um processo que não foi pacífico e que incluiu muitos estudos e a intervenção dos mais variados técnicos. Rumball, engenheiro encarregado de estudar essa primeira linha, apresentara um projecto em que a estação de Santarém ficava na Junqueira, a cerca de um quilómetro da vila. João Crisóstomo de Abreu e Sousa e Joaquim Tomás Lobo d’Ávila, chamados para avaliar o trabalho daquele engenheiro, propuseram uma outra solução, em que a estação, depois de cortar a calçada no lugar da Carne Coita, ficaria apenas a quinhentos metros do centro da povoação. A solução definitiva foi aquela que se sabe.
Outra das questões era a passagem da linha a norte ou a sul de Santarém. A Companhia das Obras Públicas de Portugal apresentara dois projectos. Um deles passava ao norte de Santarém, o outro ao sul, indo ambos convergir, após doze quilómetros de traçado, perto de Vale de Figueira. Após muitos estudos, foi decidido que a solução de fazer passar a linha pelo sul apresentava mais vantagens. Porque os declives, a altura dos aterros e as trincheiras eram menores; porque a estação ficaria mais perto da cidade e mais próxima do rio; porque os custos seriam menores.
No que diz respeito ao edifício da estação, o projecto de 1870 aliava ao edifício principal uma cocheira para carruagens. Só em 1925, no entanto, é que aquela começa a adquirir a sua feição actual, graças a um projecto de Perfeito de Magalhães. A construção viria a ficar concluída dois anos depois, com a colocação, na fachada virada para as linhas e ao nível do piso do primeiro andar, de dezoito painéis de azulejos policromos com temática local (touros, campinos, cenas agrícolas e conquista de Santarém aos mouros), realizados pela fábrica Aleluia a partir de desenhos de J. Oliveira.
Da antiga estação, ficaram então apenas as paredes exteriores. Para além de todas as transformações utilitárias, que tiveram como objectivo responder ao aumento da circulação e da procura, houve também preocupações estéticas, tendentes a transformar Santarém num dos locais de maior interesse ferroviário da linha do norte.
O edifício principal da estação, mais harmonioso, é composto por três corpos geminados, o central de dois pisos e os laterais de dois pisos com sótão amansardado. Fachada posterior virada para o cais, piso térreo resguardado por alpendre em ferro, assente em colunas toscanas. Nos vãos entre as portas, os tais painéis de azulejos.
A antiga cocheira das carruagens, hoje transformada em núcleo museológico, é um edifício de planta rectangular, coberto por telhado de quatro águas, cuja fachada principal é de vários panos divididos por pilastras. A multiplicidade estilística revela-se na coexistência entre a estética tradicional da casa portuguesa e os elementos neo-árabes e neo-barrocos presentes em alguns pormenores decorativos.
A localização da estação provocou o aparecimento de novas estradas macadamizadas, como a estrada da Estação, a ligação a Rio Maior por Vale de Estacas, a viabilização da estrada Ribeira de Santarém / Alcanhões e do antigo caminho das Assacaias. A estrada principal, aquela que ligava ao planalto urbano, foi iniciada em 1877 e estabeleceu também uma ligação viária à ponte que em breve atravessaria o Tejo.
Em 17 de Setembro de 1881, era inaugurada precisamente a ponte D. Luís I, que tinha como objectivo a ligação rodoviária entre Santarém e Almeirim. Uma obra que durou quatro anos e que se tornou um dos símbolos das pontes metálicas erguidas em finais do século XIX por todo o país. Era na altura a terceira maior ponte da Europa e a sexta maior do mundo.
As características do rio Tejo, sem grandes vãos nem desníveis, determinou que a ponte fosse do tipo «passerele», como já fora experimentado há mais de trinta anos em França. O contraste entre a alvenaria de pedra e o ferro resulta numa composição de grande significado artístico. As inovações tecnológicas usadas na sua construção incluíram o uso de caixões de ar comprimido, a construção das fundações dos pilares de alvenaria de pedra, a descoberta do método de contravenção em terrenos de aluvião. Foi modernizada na década de 50 do século XX sob a direcção do engenheiro Edgar Cardoso. Na sua época, foi uma das mais extensas do mundo.
Apesar de todos os méritos – Vítor Serrão considera-a o elemento cenográfico mais importante que Santarém recebeu depois da elevação a cidade – a ponte D. Luís I foi responsável pela perda de importância do Tejo, pois agora as comunicações terrestres dispunham de infra-estruturas adequadas para as necessidades. Foram grandes obras de engenharia hidráulica, aquelas que decorreram junto ao rio e que, para além da construção da ponte, englobaram a regularização das margens do rio e a modificação do seu leito naquela zona.
Mas não foi essa a única razão da perda de importância do rio Tejo. Nem sequer a primeira. Repare-se que, logo em 1854, terminava definitivamente a carreira regular de barcos que ligava Lisboa a Santarém.
«Na transição da década de 40 para a década de 50, Santarém apresentava ainda grandes deficiências no que respeita às suas vias de comunicação. (…) A ponte, que fora obviamente planeada pensando no trânsito de tracção animal, estava longe de corresponder às novas necessidades impostas pela circulação automóvel em crescimento explosivo.
Faz parte da minha memória a solução precária então seguida para a tornar operacional. De facto, sendo apenas permitido um sentido alternado em via única, tornava-se necessário implantar uma pequena guarita na sua extremidade norte e outra no seu extremo do lado sul, onde dois guardas, interligados por telefone, iam accionando um pequeno semáforo que permitia ou interrompia a passagem alternadamente de acordo com as circunstâncias, o que, logicamente provocava longas e desesperantes filas de espera de um e de outro lado. Tratava-se obviamente de um sistema primitivo e em tudo desajustado às necessidades determinadas pela circulação. A sua modernização chegaria já nos anos 50, em que foi decidido transpor os passeios para o exterior do tabuleiro, assentando-os sobre esquadros suportados pelas longarinas e estreitando-os, de acordo com a redução óbvia da circulação pedonal, agora praticamente inexistente, com a consequente recuperação total dos 6,20 metros de tabuleiro útil.» (Luís Eugénio Ferreira)
Com os seus defeitos, via férrea e comboio foram ainda assim

duas infra-estruturas fundamentais que, para o bem e para o mal, revolucionaram a vida do concelho. Duas obras que podem ser integradas no fontismo. O desenvolvimento que então se alcançou, em Portugal e graças à acção de Fontes Pereira de Melo, passou por obras públicas da maior importância e pela oferta de uma maior qualidade de vida às populações.
Uma das grandes características do urbanismo oitocentista foi uma mais próxima comunicação entre os diferentes espaços da cidade. A ideia inerente a todo o processo foi dar a Santarém uma condição mais polivalente, que respondesse às novas necessidades de uma urbe em crescimento. Os bairros e vilas operárias, por exemplo, foram construídos no interior do planalto para as pessoas que trabalhavam nas fábricas locais. Já no século XX, a cidade expande-se para fora dos seus limites. Até 1950, são edificados os bairros de Trigoso/Combatentes e o de S. Bento, planeados segundo uma perspectiva de desenvolvimento urbanístico rigoroso.
«Durante o século XX, a urbe conhece o maior surto de construção da sua existência, devido à sua expansão e à aplicação de novas tecnologias e materiais de construção. Surgem os edifícios construídos com cimento armado, de paredes elevadas em tijolo furado, impondo-se pelo seu volume e altura, em ruptura com a arquitectura tradicional.
Os novos conceitos urbanísticos funcionalistas e a necessidade de se criar um ambiente urbano que satisfizesse as necessidades materiais e emocionais da sociedade, trazidos a Santarém pelos arquitectos-urbanistas (que neste século tiveram um papel preponderante no desenho da cidade), conduziram a propostas de novas tipologias habitacionais, a novas ligações espaciais, a novas linguagens arquitectónicas e a novos volumes, tendo em conta as unidades de composição urbanísticas aplicadas.» (José Augusto Rodrigues)

QUADRA DO DIA

Mas meu rico S. João
Que no céu és bom rapaz
Diz à Justiça divina
Que olhe um pouco para trás.

O mais belo bar de Portugal

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A «Tasca do Cais», em Vila Nova de Cerveira, nas traseiras do Castelo e junto à zona ribeirinha, deve ser o mais belo bar existente em Portugal. Não tanto pelo interior, normalíssimo, mas pela envolvente da sua esplanada. Um largo rodeado de casas em pedra, onde as buganvílias vão cobrindo a mancha pétrea, uma pequena capela ao centro, a via férrea e o rio Minho. Só visto, embora as imagens que deixo e o vídeo que fiz dêem uma ajuda.

Lembro-me de uma quente noite de Agosto, há muitos anos, por volta das 3 da manhã. Pedro Abrunhosa chegou com uns amigos, nunca abandonando os seus óculos de sol, e sentou-se. Na altura, as mesas e as cadeiras da esplanada eram todas em madeira e umas pequenas velas ocupavam o centro das mesas. Se tivesse começado a cantar, teria sido o mais belo momento por mim alguma vez vivido. A magia daquele lugar supera quase tudo o que tenho visto pelo país, mesmo que hoje em dia a vulgaridade das mesas de metal e o fraco serviço tentem, sem sucesso, pôr em causa tudo o que escrevi antes.

5 meses de Aventar

Hoje o Aventar completou o quinto mês da sua existência. Cinco meses cheios, numa aventura que se está a revelar única para cada um de nós. Para trás, ficam 2163 «posts» e 7618 comentários. Fica também um vastíssimo conjunto de temas, que vai da política ao urbanismo, passando pela literatura, música e muito mais. Fica, ainda, uma amizade virtual entre mais de vinte pessoas, a maior parte das quais nem sequer se conhece pessoalmente. Com opiniões diferentes, com ideologias diferentes, mas cultivando um respeito mútuo que, aqui e ali, vai sendo pontuado por algumas picardias. Fica para trás, por fim, o velho visual e o velho logotipo que, durante todos estes meses, foi a imagem de marca do Aventar. Esperamos que tenham gostado das mudanças, que digam se gostaram e especialmente se não gostaram.
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Agora, é tempo de preparar o futuro. Acabados de entrar no top 100 do Blogómetro, já não queremos sair de lá. Pelo contrário. Subir na tabela para que mais gente ouça tudo aquilo que temos para dizer. E já não é pouco, sobretudo se tivermos em conta que a maior parte de nós é estreante neste mundo louco que é a Blogosfera.
Contamos com todos os nossos leitores – com os que nos comentam, com os que nos citam ou simplesmente com os que nos lêem em silêncio. Contamos com a fiel Maria Monteiro, com o assíduo Snail, com o incontornável Dalby, com os recém-chegados Belina, Ricardo e Bué da Fixe e com todos os outros. Aqui estaremos para todos aqueles para quem aventar já é um vício.

Cartazes das Autárquicas (Loures)

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Carlos Teixeira (actual Presidente), PS, Loures (enviado por Maria Monteiro).

Santarém, Capital do Gótico (IX)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

A decadência

Vários factores estiveram na base da perda de influência de Santarém a partir do século XV. A construção do paço de Almeirim, em 1411, foi um deles. A partir daí, mesmo que os reis continuem a visitar a vila, para fazer despachos e tratar de assuntos da Chancelaria, a sua presença vai sendo cada vez mais rara. Vêm e logo se vão, para pernoitar do outro lado do Tejo.
Um trágico acontecimento, ocorrido em 1491, pode também explicar que, em parte, Santarém tenha deixado de ser objecto de tantas atenções e tantos privilégios da coroa a partir de finais do século XV.
Naquele ano, no dia 12 de Julho, morreu junto ao rio Tejo, em Alfange, o príncipe D. Afonso, filho primogénito de D. João II e futuro rei. Acidente trágico, provocado pela queda de um cavalo, que comoveu o Portugal da época e em particular as gentes de Santarém, que assistiram de perto à tragédia.
«Com todas as ordens e clero, e com cruzes, e relíquias fez de noite uma muito solene, e devota procissão, em que todos descalços, e muito nus, com muito piedosas lágrimas, andaram por todas as igrejas, e mosteiros da vila, em que continuada e devotamente com os giolhos em terra, e com vozes que rompiam o céu, diziam todos bradando: Senhor Deus misericórdia». (Rui de Pina – Crónica d’el Rei D. João II)
Dizíamos antes que este infausto acontecimento poderá explicar, a partir daí, a desatenção que Santarém mereceu dos nossos monarcas, em especial se compararmos com os séculos anteriores.
Com D. João II, as razões desta mudança de atitude são óbvias. Santarém significava para ele memórias doridas, das quais nunca se chegou a curar. Não voltou à cidade, a não ser para o estritamente necessário, e os monarcas que se lhe seguiram também não.
Erich Lassota de Stelbovo, em 1581, terá sido o primeiro a passar para o papel razões de tão súbito alheamento real em relação a Santarém. Ao que parece, circulava um dito popular, segundo o qual todos os reis que entrassem no palácio onde costumavam pernoitar iriam ser assassinados ou morreriam de forma súbita e trágica.
Acreditassem ou não neste mito, a verdade é que a partir da morte do príncipe D. Afonso, não mais a monarquia portuguesa estacionou em Santarém por médios ou longos períodos, como era habitual fazer no passado. Passaram ainda por Santarém algumas vezes, mas na maior parte delas em trânsito para Almeirim. Foi o caso de D. Sebastião, que aqui esteve três dias em 1573. Os supersticiosos diriam que a sua morte trágica foi um sinal da profecia.
Outro rude golpe infligido no prestígio de Santarém foi o grande terramoto de 1531, que afectou Lisboa e todo o vale do Tejo, particularmente Santarém, Almeirim, Azambuja, Castanheira, Vila Franca de Xira e Benavente. «Nunca se viu nada mais temeroso: parecia que o céu com a terra se juntava e umas casas com outras se davam. (…) Santarém está tão destruída que não há onde o rei repouse, porque os seus palácios estão no solo, por terra» (Jorge Osório)
No meio disto tudo, nem sequer o Tejo ajudava. Rio que fora sempre o sustento da economia local, via-se agora a braços com problemas relacionados com a sua navegabilidade «É o grande rio mercantil do interior do reino. Há sinais de que, por 1596, o assoreamento do rio estivesse em alguns troços a dificultar a navegabilidade. Dizem barqueiros de Santarém que em tempos os caravelões chegavam até à lezíria do Marquês, por o rio ser tão alto que ali chegavam as marés. De há quarenta anos, as coisas tinham mudado.» (Joaquim Romero de Magalhães)
Quando Portugal perdeu a independência, em 1580, a população de Santarém levantou-se contra a invasão filipina e a favor de D. António Prior do Crato. «Real, real, por D. António, rei de Portugal», gritou-se então na manhã de 19 de Junho. No ano seguinte, quando Filipe I chegava a Santarém, vindo de Tomar, onde fora aclamado nas cortes, a população de Santarém recebeu-o com muito pouco entusiasmo. E alguns anos depois, em 1609, quando se preparava a visita de Filipe II, os poderes municipais recusaram a ajuda financeira para a preparação da visita. Tiveram de recuar, mais tarde, mas ficou uma tomada de posição que era também um sinal da vontade das gentes.
Na breve visita que D. Filipe III aqui fez em 2 de Junho de 1625, Lopo Fernandes de Castanheda, na sua «Oração», queixou-se exactamente da pouca atenção que a cidade recebera por parte do seu antecessor. Nessa fase, já Santarém sofria um certo «castigo», pelo facto de ter apoiado D. António, prior do Crato, nos momentos que antecederam a perda da independência. Os motins, como aqueles que aconteceram 1629, 1636 e 1637, não tardaram.
Essa vontade, esse querer, essa aversão ao invasor, explodiu no dia 2 de Dezembro de 1640, o dia seguinte à restauração da independência. Nessa altura, não foi necessário que Lisboa informasse o que quer que seja. A população, reunida na praça do Município e liderada por Fernão Teles de Meneses, 1.º conde de Unhão, aclamou de imediato D. João IV, avisada que fora por João Rebelo Cerveira, senador que assistira a tudo na capital. Mesmo assim, as guerras da Restauração que se seguiram, e que se prolongaram por mais duas décadas, tornaram evidente a necessidade de reformular e restaurar as muralhas existentes, porque há muito que Santarém deixara de ser inexpugnável. Só que, nessa altura, já não havia dinheiro para o fazer.
A decadência de Santarém, que o povo não aceitava, teve um derradeiro episódio. O terramoto de 1755 destruiu grande parte do seu património edificado, em alguns dos casos quarteirões inteiros de bairros, igrejas e conventos, bem como a ligação entre a vila e a Alcáçova. Teve de ser tudo erguido de novo, simbolizando um novo começo, o renascer de uma cidade que já fora grande e que, em breve, voltaria a sê-lo.

WC, um filme arrasquinha

A segunda curta-metragem de António Ferreira, realizada na Alemanha em 1997.

FutAventar – F.C. Porto #5 – A Batalha Naval:

MundoFCP

Por questões de agenda apenas ontem pude festejar o 1º de Maio, o internacionalmente conhecido como dia do Trabalhador.

E assim foi, com algum trabalho, enorme dedicação e a força internacional que todos reconhecem, “O Porto cresce e o Falcão voa” como afirmou esse exemplo de jornalismo isento que é, unanimemente reconhecido, “O Jogo”.

Ficou vingada a desfeita do ano transacto e com direito a brinde: o Porto apenas sofre golos marcados pelos seus defesas. Aliás, a veia goleadora dos nossos jogadores está a marcar este início de época.

Foi limpinho. Uma batalha naval de grande nível.

HOJE É A VEZ DO CDS/PP

PROGAMA A3, A4 OU A5?
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Hoje o CDS vai, ao fim da tarde, apresentar o seu programa eleitoral.
Não se sabe se o vai fazer numa folha A4, como o outro, ou se será em folhas A3 ou A5.
De qualquer forma, se pensarmos na contenção a que o CDS/PP nos tem habituado nos últimos tempos, por certo que o programa irá ser apresentado numa folha A5 e em papel reciclado.
O crescimento da economia, a política fiscal, o reforço da segurança e da autoridade do estado, os apoios sociais e às pequenas e médias empresas, assim como a educação, serão os pontos principais do programa,para a próxima legislatura.
Paulo Portas diz-se a lutar por uma votação superior à do BE e à da CDU, e, talvez o consiga.

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CASA ROUBADA, TRANCAS À PORTA

AGORA É SEMPRE A ABRIR

ARRIBAS, ARRIBAS E MAIS ARRIBAS EM RISCO DE DERROCADA.
UMAS ATRÁS DAS OUTRAS, AGORA, DIA SIM, DIA SIM, ELAS APARECEM.
ATÉ AGORA NINGUÉM TINHA REPARADO, NINGUÉM SABIA E AS AUTORIDADES DO MEU PAÍS, ESTAVAM A LESTE DISTO TUDO.
JÁ NÃO É SÓ NO ALGARVE, ONDE JÁ HÁ MORTES A LAMENTAR, AGORA A FÚRIA DOS VISTORIADORES ALARGA-SE POR TODO O CONTINENTE E ILHAS.
QUE, AO MENOS, SIRVA DE ALGUMA COISA, O MARTELAR ENQUANTO O FERRO ESTÁ QUENTE.

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AS MOSCAS JÁ NEM MUDAM

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PINA MOURA EM REGISTO DIFERENTE
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Não sei bem como classificar a postura de Pina Moura.
O ex-ministro das Finanças de Guterres, vem a terreiro defender o programa do PSD, chamando-o de mais duro e mais focado. Porquê? A que propósito? Com que propósitos? Teve ordens para adoçar a boca aos sociais-democratas, com vista num desaire eleitoral e numa possível aliança governativa? Ou/e está-se a fazer a um lugar no próximo governo de coligação? O homem é inteligente, será que também é esperto? É tão somente um mutante político, ele que começou bem mais pela esquerda?
Realmente, nada muda em política, às vezes nem as moscas. E, a credibilidade política não está por certo na ética, lá defende o sr Rangel.

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Segundo informação cedida pelas três estações de televisão ficou assente a seguinte grelha, na sequência de uma reunião entre as partes envolvidas:

02 Setembro: José Sócrates – Paulo Portas (TVI)

03 Setembro: Francisco Louçã – Jerónimo de Sousa (SIC)

05 Setembro: José Sócrates – Jerónimo de Sousa (RTP)

06 Setembro: Francisco Louçã – Ferreira Leite (TVI)

07 Setembro: Paulo Portas – Jerónimo de Sousa (SIC)

08 Setembro: José Sócrates – Francisco Louçã (RTP)

09 Setembro: Ferreira Leite – Jerónimo de Sousa (TVI)

10 Setembro: Paulo Portas – Ferreira Leite (RTP)

11 Setembro: Paulo Portas – Francisco Louçã (RTP)

12 Setembro: José Sócrates – Manuela Ferreira Leite (SIC)

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AS PATRANHAS DE SEMPRE

AS PATRANHAS DE SEMPRE
Nesta época de eleições não basta os políticos e a igreja dizerem que a solidariedade é um factor fundamental e o princípio mais importante do nosso século. Não basta dizerem que continua a haver países mais ricos e outros mais pobres e, dentro dos mais ricos, cada vez maior diferença entre ricos e pobres. Não basta dizerem que a pobreza e a exclusão geram guerras intermináveis. Tudo isto é sabido, e não é cantarolando esta folclórica cantiga eleitoral, que os partidos da máscara e da crença, de mão dada com os senhores da guerra e do dinheiro, levam o povo a qualquer porto seguro. Eles sabem, aliás, que se algum dia o povo chegasse a porto seguro, lá se ia a segurança dos que olham a humanidade sentados lá no alto das suas pilhas de massa.
Todos sabemos ou deveríamos saber que a miséria social nasce, cresce e se acentua quando se desenvolvem políticas monetaristas doentias, destinadas prioritariamente a reforçar o poder do capital, através de maquiavélicas engenharias económicas, que de progresso e desenvolvimento só têm a aparência, através da falácia das privatizações que mais não são do que o roubo dos bens do povo, através de absurdos super-lucros e mais-valias, através do escandaloso caminho aberto para o desvio do nosso dinheiro pelos assaltantes encartados, das obscenas reformas e prémios de ninhadas de parasitas, do institucionalizado cancro do compadrio e nepotismo, do esmagamento calculado e programado da qualidade de vida dos cidadãos. Circulam no mundo mais de quatro triliões de dólares avidamente à procura do sítio onde se lucra mais, nem que esse sítio seja o imenso cemitério para onde resvalam milhões de vítimas.

A ARTE (9)

A ARTE (9)

Perante uma obra de Arte, suporte de meditação, meio de fixação da atenção e de excitação mental, o espectador sente-se obrigado a um exame de consciência e a uma necessidade de rotura com os seus velhos conceitos. A Arte é uma fonte de conhecimento e é tanto mais nova quanto mais novas forem as ideias que usa na concepção da realidade, quanto maior for o abalo que produz nas formas caducas de ver o mundo e a realidade. Como já se disse atrás, a Arte é impacto, desconcerto de espírito e agente de mudança das formas de pensar. Quando o público se identifica serenamente com a obra e mostra coerência com determinadas formas artísticas, é de temer que essas formas já tenham perdido a sua capacidade revolutiva. Assim se entende que não é a Arte que deve descer à compreensão do povo, mas é o povo que tem de ascender aos patamares da natureza revolucionária da Arte. Uma política cultural, isto é, o ensino de uma autêntica cultura formativa e digna, está longe da estafada ideia de que convém dar ao povo o que o povo pede. É escandaloso ouvir dizer que se deve servir o povo com coisas que lhe dêem prazer e não com intelectualices! Esta luta é uma luta de todos, um verdadeiro e poderoso sentir da necessidade desta ascensão como uma das prioridades da estruturação humana. Uma luta travada pelo saber de todos os tempos, uma luta perpétua contra a ignorância dos que não sabem, dos que julgam que sabem tudo e dos que não sabem aquilo que não sabem. (Continua).

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POEMAS DO LUSCO-FUSCO

Não é fácil ser gente
entre o clamor de vozes que nada dizem
e o troante silêncio
das bocas que não têm voz.

QUADRA DO DIA

Por isso erguem aos céus
Suas preces lacrimosas
Não é dinheiro o que roubam
Ó meu S. João são rosas.

Um filme de Hayao Miyazaki é sempre um acontecimento

Um filme de Hayao Miyazaki é sempre um acontecimento. Enfim, é um filme de Hayao Miyazaki. Ponto. Bastava ter sido o génio criador do fantástico "Conan, o rapaz do futuro” para merecer um lugar especial na história do cinema animado. Mas Miyazaki fez mais, muito mais.

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Às salas nacionais chegou a sua, até agora, última produção: “Ponyo à Beira-Mar”.

Realizado por processos tradicionais de animação e inspirado em “A Pequena Sereia”, este é mais um exemplo do estilo de Miyazaki. Conta-nos uma história fantástica através de desenhos elaborados à mão, muitos dos quais feitos pelo mestre, apesar dos seus mais de 70 anos. Foi o responsável pelo mar e as ondas neste filme.

Miyazaki é o autor de A Princesa Mononoke, do brilhante A Viagem de Chihiro e de O Castelo Andante. Voltou a deixar de lado os efeitos de computador e faz tudo à sua velha maneira.  responsável pelo mar e as ondas.

Co-produzido por John Lasseter, da Pixar/Disney, e por Frank Marshall e Kathleen Kennedy, habituais produtores de Spielberg, “Ponyo à Beira-Mar” continua repleto da magia da arte de contar histórias.

Como está bom de ver, um destes dias vou parar ao escurinho do cinema.

QUE PAÍS É ESTE?

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PARTIDOS GASTAM MAIS DE NOVENTA MILHÕES
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Que País é este, que aceita sem se revoltar, que os partidos políticos gastem em ano de crise, mais de noventa milhões de euros numa campanha eleitoral?
Afinal que mais valias para o País, trazem estes gastos? Mais emprego? Mais investimento? Melhores condições de vida? Menos fome? Melhor distribuição da riqueza? O quê?
Os partidos estão-se marimbando para o bem estar dos Portugueses. Os partidos que nos (des)governam só se interessam por si mesmos, pelos “tachos” que vão conseguir para eles e para os seus amigos, pelo dinheiro que vão conseguir ganhar durante os anos que os mandatos que conseguirem, durarem.
E nós, o povinho lusitano, aceitamos, como uma fatalidade, tudo isto. Não olhamos nem sabemos olhar para os que se diferenciam pela positiva, restringindo gastos nas campanhas, embora em abono da verdade, em todos os restantes campos, não sejam em nada diferentes dos outros. Todos, mas mesmo todos, sem qualquer excepção, querem votos para atingirem os objectivos a que se propuseram. Ganhar, para ganharem mais do que possuem.
Que contas prestam estes partidos, ao povo português?

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Eleições e Educação – as respostas dos partidos

Às perguntas da FENPROF no jornal deste mês (página 12 e em formato pdf)

Santarém, Capital do Gótico (VIII)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

A MAIS FREMOSA DE QUANTAS VEJO / EN SANTAREN, E QUE MAIS DESEJO

Na Idade Média, Santarém foi um dos principais centros da poesia galaico-portuguesa e provençal. Um género literário que se desenvolveu e germinou muito por obra e graça do lirismo islâmico, que teve na cidade muitos dos seus representantes. A sua posição geográfica facilitava o intercâmbio de culturas e aumentou com a chegada dos cruzados franceses, no contexto das guerras da Reconquista.
As cantigas de amigo eram uma forma de «fazer falar» as mulheres. Dos seus sentimentos – alegrias, tristezas, amor e ciúme. Os trovadores escreviam-nas como se fossem as mulheres a fazê-lo.
Constituindo a variedade mais importante e original da nossa produção lírica da Idade Média, estas composições enquadram-se na poesia trovadoresca, mas incluem a particularidade de conferirem estatuto de enunciação à mulher, embora sejam sujeitos masculinos a compô-las.
«As «cantigas de amigo» de forma mais simples apresentam-nos, em geral, a mulher integrada no ambiente rural: na fonte ou na romaria, lugares de namoro, sob as flores do pinheiro ou de avelaneira; o rio, onde lava a roupa e os cabelos, ou se desnuda para tomar banho; na praia, onde aguarda a regresso das barcos. Inspira-se em geral uma desenvoltura inocente de ar livre e fala nelas uma voz impessoal que apela para os sentimentos mais básicos e constantes da emotividade humana. Uma curiosa fraternidade com os bichos, as flores e as ondas deixa adivinhar uma mentalidade animista, mal tocada pela influência cristã. Este grupo de cantigas pertence certamente a um fundo muito primitivo, que se esconde sob as águas do tempo. Noutras cantigas, é mais denso o ambiente doméstico. A moça canta enquanto torce o fio do linho; sucedem-se as discussões com a mãe, que recebe o namorado e autoriza o namoro. Neste segundo grupo, menos primitivo, o ambiente é mais caracterizadamente burguês. A uma terceira camada, enfim, pertencem as cantigas de estrutura rítmica mais complexa, embora baseadas no esquema paralelístico aqui encontramos uma verdadeira dialéctica dos sentimentos, uma gama que vai desde o ciúme à «coquetterie». Dispostas ordenadamente, os monólogos e diálogos em que se desenvolvem as situações comporiam um verdadeiro romance sentimental, antecipando Menina e Moça de Bernardim Ribeiro.» (António José Saraiva)
Um tipo peculiar de cantigas de amigo é o das paralelísticas, que aliam uma simplicidade de motivos e recursos semânticos ao elaborado arranjo da sua expressão. O esquema de repetitividade enriquece o sentido pela sugestão encantatória que cria, muitas vezes magoada, perplexa ou interrogativa. Típicas da poesia galaico-portuguesa, encontram-se também nas cantigas de amor e noutras variedades poéticas medievais, persistindo até muito tarde na literatura medieval.
«A cantiga de amigo tem espontaneidade, graça, ingenuidade, alegria franca. Em imitação da verdadeira poesia popular, o trovador usa do artifício de falar como menina namorada, do povo, que se dirige ao amigo e amado, que fala dele à própria mãe, às irmãs, às companheiras ou ao santo da sua devoção, ao pé da fonte, à beira-mar, no terreiro das bailias, a caminho da santuário, no pinheiral, sempre em íntimo contacto com a natureza. Muita vez nas festas primaveris de Maio. Sempre de refrão, essas cantigas femininas compõem-se de quadras, de tríadas ou de dísticos. Esta última espécie consta muita vez de duas redacções paralelas, distintas apenas pela rima, entoadas alternativamente por dois coros nas evoluções da dança.» (Carolina Michaëlis de Vasconcelos)
As cantigas de amor, por seu lado, um outro género poético da lírica galego-portuguesa, distinguem-se das cantigas de amigo principalmente por nela ser o trovador quem fala, dirigindo-se à sua senhora, que elogia e cujas qualidades exalta. Trata-se, aqui, da expressão do chamado amor cortês, em que o trovador se sujeita a uma relação de vassalagem perante a senhora amada. Deve dominar o seu amor, para não desagradar à dama, e guardar em segredo a identidade desta, que é, muitas vezes, ao contrário do que sucede nas cantigas de amigo, uma mulher casada. O trovador expressa o seu sofrimento amoroso por não poder atingir o objecto do seu amor. A expressão desse amor é feita de acordo com as convenções – espiritualizando o sentimento amoroso, considerando a mulher como uma deusa inacessível à qual só em sonhos se tem acesso.
É o caso da canção que se segue e que tem Santarém como pano de fundo, como cenário de um amor impossível:
«A mais fremosa de quantas vejo
en Santaren, e que mais desejo,
e en que sempre cuidando seio,
non ch’a direi, mais direi – ch’amigo:
Ay Sentirigo! Ay Sentirigo!
Al é Alfanx e al Seserigo.»
Nesta balada, o poeta revela que em Santarém se encontra a mais bela de quantas mulheres já viu. Suspira por ela, suspira por Santarém.
«Amigos, des que me parti
de mia senhor e a non vi,
nunca fui ledo, nem dormi,
nem me paguei de nulha ren.
Tod’este mall soffr e soffri
Des que vin de Santaren.»
Nesta balada, o troveiro exprime as saudades que sente desde que deixou Santarém e a sua senhora, que tanto amava. Nunca mais foi feliz desde então.
As cantigas de amor tiveram origem nas cortes senhoriais da Provença (sul de França), estendendo-se ao território galego-português e a outras regiões da Europa pela vinda de jograis provençais. Esta lírica provençal tornou-se depois modelo para os trovadores galego-portugueses, que adoptaram alguns dos seus processos técnicos, mantendo outros mais próximos dos que já conheciam e utilizavam nas cantigas de amigo (como a repetição de versos, de acordo com regras específicas).
«A nota característica da cantiga áulica de amor; em estrofe de mestria, sempre dedicada a uma senhora (=senhora solteira) da alta-roda, venerada ou cortejada pelo trovador; é a mesura. A moderação como ideal daqueles rudes tempos, bárbaros em muitos sentidos, levou os amantes a artificialmente evitarem todas as notas fortes. Restringiram-se a uma terminologia muito seleccionada. Sem serem frios, são por isso enervantes de convencionalismo e monotonia. Falhos de plasticidade, simbolismo, imagens, e mesmo de sensualismo, já deixam todavia transparecer o sentimentalismo fundamental da saudosa alma portuguesa que morre de amor. (Carolina Michaëlis de Vasconcelos)
Desde que chegaram da Provença, trazidas pelos jograis, tais músicas, de amigo e de amor, tornaram-se inseparáveis companhias de reis (dos quais D. Dinis é o melhor exemplo), nobres, clérigos e povo. «Foram dados os primeiros passos na rua, ao som das cantigas insertas nos primitivos cancioneiros, quando a dança era ainda plebeia, com D. Pedro I, o grande louco do amor, que usava despertar altas horas da noite quantos dormiam no paço (nas proximidades da igreja de Alcáçova), para percorrer as ruas da vila de Santarém, de mistura com a arraia-miúda que pasmava ao vê-lo dançar!» (Bertino C. Martins)
Os mais importantes poetas e trovadores medievais escolheram Santarém para sua morada e para sua musa inspiradora. Alguns eram de cá, outros por cá ficaram. Rui Fernandes, João Aires, João Soares Coelho, Requeixo, João Zorro, João Peres de Aboim ou Aires Pires Vuitorum foram apenas alguns deles.
Foi entre os reinados de D. Sancho I e de D. Dinis, principalmente, que este género literário, sempre associado à nobreza cortesã, atingiu o seu período de maior brilhantismo em Santarém. De resto, D. Dinis, o mais letrado dos monarcas portugueses da primeira dinastia, foi ele próprio autor de muitas canções de amor e de amigo. Quando D. Afonso IV foi coroado, em Janeiro de 1325, segréis e trovadores deliciaram a assistência com as suas cantigas, de amor, de escárni
o
e de maldizer.
Havia ainda as cantigas de escárnio e maldizer, um género musical que também fazia parte da poesia trovadoresca galaico-portuguesa. A sua temática incide sobre pessoas, mas também sobre alguns problemas da época — por exemplo a decadência da nobreza rural, através de meios como os trocadilhos, a ironia ou a sátira. A cantiga de escárnio distingue-se da cantiga de maldizer pelo facto de nunca referir a pessoa que está no centro da canção. Quanto à cantiga de maldizer, não esconde o nome do visado e chega a ser grosseira.
As primeiras cantigas foram interpretadas na rua. De popular, a dança vai passar a ser também aristocrática na corte da inglesa Filipa de Lencastre, mulher de D. João I. Mas nunca deixou de ser popular e nunca o povo deixou de cantar e dançar.
Por esta altura, já Santarém tinha escolas e mestres de música. A aprendizagem e a divulgação da música era mesmo incentivada por decisões reais, ao contrário do que viria a acontecer mais tarde. De 1442 é uma carta régia a isentar do pagamento das dízimas «aqueles que trouxessem harpas, aludes e guitarras.»

De Maria Moura: Small is beautiful

Desde o micro-crédito até às pequenas e médias empresas, tudo isso alimenta as comunidades próximas. E dá vida às vilas e aldeias, que actualmente estão a ficar desertas.

Desertas de vida, desertas de actividade económica e desertas de esperança e emoção positiva.

Estaremos perigosamente a enveredar por um caminho sem saída? O do capitalismo desenfreado e selvagem?

Para mim, selvagens, só as praias desertas…mas infelizmente tambem estão desertos os sentimentos, as emoções, o que faz do homem um ser solidário mas que se transformou num ser profundamente egoísta.

Há cada vez mais um retorno às coisas simples da vida, ao tempo de “deixar passar o tempo”, à medida que nos apercebemos que estamos a ficar escravos das necessidade que nós próprios criamos.
Lembro-me do episódio com Sócrates, o filósofo, que estaria a apanhar sol, quando dele se aproximou o Imperador que muito o admirava. Pede-me tudo o que desejas ! E Sócrates, não me tires o que não me podes dar, que era o sol que a sombra do  cavalo do Imperador lhe tirava.
Dependemos de tudo, desde o esquentador, ao carro, do cimbalino, ao telemóvel, até do Aventar…

Recebido da nossa leitora Maria Moura

Santarém, Capital do Gótico (VII)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

Entre os séculos XII e XVI, Santarém assumiu-se como uma das mais importantes cidades do país, ao lado de Lisboa, Coimbra e Évora. Pode-se mesmo dizer que estes foram séculos de ouro para Santarém.
Em 1186-87 e em 1198, D. Sancho I concede novos forais a Santarém, renovando os privilégios anteriormente concedidos. Em 1204, estes são ampliados com novas concessões. Os últimos meses da sua vida, passou-os D. Sancho I em Santarém. Atormentado pela doença, procurava nos médicos da cidade o alívio para o seu sofrimento.
D. Afonso II, em 1214 e 1217, e mais tarde D. Afonso III, confirmam tudo o que antes fora fixado. A autonomia municipal ia-se afirmando a cada dia que passava, muito por acção dos procuradores e outros oficiais do concelho, que assim a reivindicavam.
Ainda em relação a D. Afonso II, a trágica história da sua vida está indelevelmente ligada a Santarém, cidade que visitou frequentemente desde 1217 e onde passou a viver em 1221 e até à data da sua morte, dois anos depois. Através dos documentos, é possível saber o nome de seis médicos que trataram da sua doença, a lepra: dois cónegos de Lamego, dois mestres de Évora, um de Lisboa e outro do Porto.
Em Santarém se reuniram as cortes por treze vezes, entre 1273 (D. Afonso III) e 1477 (D. Afonso V). Pelo meio, as de 1331, 1334 e 1340 (D. Afonso IV), 1383 (D. Fernando), 1396, 1406, 1413 e 1418 (D. João I), 1433 (D. Duarte), 1451 e 1468 (D. Afonso V). Tão grande número de cortes demonstra que Santarém rivalizava com Évora no título de segunda cidade do país.
A presença da família real em Santarém, durante longas temporadas, contribuiu largamente para o prestígio que a cidade adquiriu. Várias razões justificam que assim tenha acontecido com Santarém e não com qualquer outra cidade: a localização geográfica, a importância estratégica, a riqueza agrícola e cinegética, a organização administrativa, as condições de alojamento e o contacto com a religião.
Em relação à localização geográfica, a proximidade de Lisboa e a posição de charneira entre litoral/interior e norte/sul contribuiu de forma decisiva para as escolhas reais.
A importância estratégica de Santarém há séculos que era conhecida. Não foi por acaso que os primeiros povos a escolheram para viver. Quanto aos nossos reis, começaram por reforçar a sua vertente simbólica e defensiva, fazendo obras nos paços da porta de Leiria e declarando-a sua sede política.
A riqueza agrícola e cinegética ajudou a que Santarém se tornasse naquilo que foi. Terra da abundância, de fácil acesso por terra ou por rio, proporcionava aos monarcas e à sua extensa plêiade os intensos prazeres da caça de montaria.
Para além de tudo, Santarém era uma vila muito bem organizada do ponto de vista administrativo, ao ponto de os reis utilizarem frequentemente os seus escrivães, tabeliães e notários.
Tinha palácios reais, nobres e burgueses e o serviço de aposentadoria, pelo que dispunha de todas as condições para receber, com frequência, tão numerosa comitiva.
A forte presença clerical na cidade ajudava, evidentemente, ao forte sentimento de ligação entre o poder espiritual e o poder real, que nunca os reis deixaram de utilizar em seu proveito. Obviamente, a Igreja Católica beneficiava também desta situação através de privilégios, fundação de mosteiros e conventos, instituição de capelas reais, apresentação de clérigos ou utilização de espaços religiosos para usos palatinos.
«Outra razão da expansão da cidade medieval foi a presença real, configurada no eixo governativo do reino de Portugal, basilado entre Coimbra-Santarém-Lisboa e depois, já no século XV, Santarém-Lisboa-Évora. A presença do rei, da corte e a reunião de cortes na vila atraem vagas de missionários, pregadores cristãos e das ordens monásticas para vincularem as populações locais – de formação e herança moçárabe – aos princípios religiosos do cristianismo europeu. A luta contra as heresias, fossem quais fossem, transforma Santarém num dos mais importantes centros religiosos do país no século XIII-XIV. (…)
As procissões, associadas não apenas aos cultos prestigiados, mas também aos «milagres» sabiamente explorados pelas novas ordens, tornam as ruas e os adros das igrejas locais de acontecimentos, onde a vida social e cultural se extroverte em manifestações públicas. A quantidade de procissões realizadas no espaço urbano de Santarém faz da vila uma urbe de grande dinamismo e mobilidade social, talvez em correspondência com a actividade comercial e portuária e a realização de feiras, uma das quais se constitui em feira franca» (José Augusto Rodrigues)
Em finais de 1273, D. Afonso III reúne a primeira das muitas cortes que se realizaram em Santarém, cortes essas que se prolongaram até meados de 1274. Aqui se tomaram medidas importantes sobre a administração do reino e sobre os domínios da igreja.
Data do seu reinado a primeira referência aos novos paços reais, construídos junto à porta de Leiria e que tiveram como função substituir os velhos paços da Alcáçova. Um dos principais objectivos era construir um novo complexo defensivo que pudesse garantir a segurança da parte norte da vila.
Por esta época, já Santarém se assumira como um dos mais importantes centros religiosos de Portugal e da Europa medieval. A razão, encontramo-la na chegada de pregadores dominicanos e franciscanos mas também no Santíssimo Milagre da Hóstia, de 1266, que pareceu confirmar as expressões utilizada na Idade Média para designar a cidade. «Paraíso deleitoso» chamaram-lhe no tempo de D. Afonso Henriques, «paraíso de Portugal» no de D. Dinis. Clérigos, frades e teólogos scalabitanos ascenderam então à categoria de santos e bispos, no nosso país e no estrangeiro. S. Frei Gil de Santarém, Bernardo de Morlans e Santo António de Santarém chegaram mesmo a atingir projecção internacional. O primeiro destes viu a sua vida descrita em romances históricos da autoria de João Grave e Teófilo Braga.
Para além de tudo o mais, fundaram-se ao longo da centúria nada menos de cinco instituições religiosas: o convento da Trindade em 1208; o convento de S. Domingos cerca de 1220; o mosteiro das Donas em 1240; a casa dos Franciscanos dois anos depois; e o mosteiro de Santa Clara em 1259.
Nos inícios do século XIII, eram sete as paróquias constituídas em Santarém, sete na parte alta da cidade e cinco na parte baixa. Duas delas unir-se-iam em breve, Santa Iria a Velha e Santa Maria de Palhais, para dar origem a Santa Iria a Nova. Mas logo surgiriam outras quatro: S. Bartolomeu de Alfange, Santa Cruz da Ribeira, S. Mateus da Ribeira e S. Lourenço.
Cada uma das zonas em que o burgo se divida na Idade Média desempenhava o seu papel específico. Alcáçova fora o gérmen da cidade cristã e era agora o centro da fixação aristocrática; Marvila era sede de cavaleiros e mercadores, com o aljube, o açougue velho e as estalagens; S. Martinho era zona de mesteirais e comerciantes, incluindo a judiaria; S. Nicolau era zona de feira e também de prostituição. A seguir a Lisboa, Santarém assumia-se como a mais importante e mais monumental cidade do reino.
Desde que Santarém fora definitivamente tomada aos mouros, uma outra instituição católica vai assumir importância crescente: a colegiada de Santa Maria da Alcáçova. Um símbolo dos novos tempos, um símbolo do cristianismo que a partir daí dominou toda a região. Mandada construir em 1154 por D. Hugo, a igreja de Santa Maria destinava-se aos Templários, pela sua valiosa participação nas acções de Reconquista.
Os membros do Templo acabaram por se transferir para o castelo de Ceras, pelo que a igreja foi transformada em capela real. Foi a partir deste momento que se começou a formar o amplo co
nj
unto patrimonial da instituição. Um património que, ao longo dos séculos, foi possível reunir graças às habituais doações feitas pelos fiéis, que dessa forma se procuravam livrar da ameaça do inferno, mas também através da presúria e da compra.
Essas doações patrimoniais atravessavam transversalmente toda a sociedade portuguesa, da mais humilde população anónima ao próprio rei. Aliás, muitos dos monarcas, sobretudo da primeira dinastia, agraciaram a instituição em troca da celebração dos seus aniversários e dos dos seus antepassados. D. Sancho I, por exemplo, doou em 1209 mil morabitinos para a compra de herdades. Curiosamente, a lei de 1211 que proíbe a futura aquisição, por parte das corporações religiosas, de propriedades fundiárias, deixa de lado aquelas que têm como contrapartida os tais aniversários reais anteriormente referidos.
Naturalmente, a primeira situação ocorreu em maior número, como seria de esperar. Quanto à presúria, foi feita sobretudo à custa das terras conquistadas aos mouros. A compra, por seu lado, ocorreu poucas vezes na história de Santa Maria de Alcáçova, mas ainda assim, representou cerca de 7,5% do total de terrenos adquiridos até aos inícios do século XIV. Quanto à natureza destas compras, dir-se-á que desde os anos de duzentos que os cónegos de Santa Maria de Alcáçova se preocupavam sobretudo com a aquisição de património urbano. Muito mais do que com as vinhas ou com qualquer outro bem rural.
Qualquer que tenha sido a forma de aquisição patrimonial, o certo é que, em pleno século XIII, já a circunscrição da colegiada abrangia toda a região periférica de Santarém, de norte a sul e de oeste a leste. Incluíam-se nos seus bens, entre outros, a ermida de Santa Maria do Monte, o padroado de Santa Iria e Santa Cruz, um moinho no Alviela e casais em Alpiarça e em Trava. Já no século XIV, vem juntar-se àquele património a quinta do Lavradio, rendimentos sobre bens nas aldeias de Cerveira e Marmeleira, domínios em Almada, Lavradio do Ribatejo, Cortes, Seteais e Lisboa.
Dado o notável conjunto de terras de sua propriedade, a colegiada de Santa Maria de Alcáçova tinha a possibilidade de diversificar as suas culturas. Ainda assim, a vinha e a oliveira predominavam, aquela com grande implantação na zona de Alvisquer, esta em Manteigas. Quanto aos cereais, acompanhavam o curso do rio Tejo, desde Valada a Alpiarça e Traça.
As rendas dos locatários dos domínios da colegiada eram pagas através de um contrato de arrendamento, aforamento ou emprazamento. O pagamento podia ser fixo (em dinheiro ou em géneros) ou variável (percentagem das colheitas). Dezembro era o mês eleito para a maior parte das cobranças.
A partir de 1394, em virtude de uma disposição papal, o padroado da igreja passou para a Ordem de Avis. Foi nesta altura que começaram a surgir conflitos relativamente à titularidade dos bens da colegiada. A solução para resolvê-los foi clarificar os limites entre os bens que pertenciam aos cónegos, os que eram do prior e ainda os que deviam ser divididos entre as duas partes.
Mas voltemos ao século XIII. Se D. Afonso III dirigiu as suas atenções para Santarém, D. Dinis não o fez menos. Como forma de substituir a Ordem dos Templários e a sua influência no país, D. Dinis tentou junto do papa que, com os bens dos Templários, se constituísse uma nova milícia, exclusivamente portuguesa, à qual seria doada a vila fronteiriça de Castro Marim, no Algarve.
O objectivo era o de evitar que os extraordinários bens da extinta ordem fossem agora parar a mãos estrangeiras. E assim foi conseguido, em especial graças aos enviados de D. Dinis a Roma. Perante o Vaticano, conseguiram provar que a anexação dos bens dos Templários pelos cavaleiros da ordem do Hospital, como Clemente V transitoriamente fizera, seria prejudicial ao país, pelo que esses bens deviam ser incorporados numa nova ordem totalmente portuguesa.
João XXIII, em Março de 1319, autoriza, pela bula Ad ea ex quibus, passada em Avignon, a criação da ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, que D. Dinis já formara em 14 de Agosto do ano anterior. O monarca estava em Santarém quando, a 5 de Maio, chegou o documento pontifício, de imediato ratificado.
A insígnia dos cavaleiros de Cristo era uma cruz vermelha, de braços quase iguais, fendida no meio com outra branca. Em 1789, as insígnias de grã-cruz e comendador foi aumentada com um coração, em memória do monumento ao Santíssimo Coração de Jesus, culto que a soberana pretendia restabelecer. Viria a ser extinta em 15 de Outubro de 1910, poucos dias depois da instauração da República, e restaurada, com alterações, em 1 de Dezembro de 1918. A sua sede inicial foi Castro Marim, conforme prometido por D. Dinis, mas em 1356 voltaria para Tomar.
O «rei lavrador» já não chegaria a assistir a essa transferência de sede, pois a sua missão ficara cumprida muito antes. Morreu a 7 de Janeiro de 1325 em Santarém. O seu sucessor, D. Afonso IV, era aclamado dois dias depois, ainda e sempre em Santarém. De resto, ambos travaram lutas violentas na cidade, que chegaram a incluir a vinda de um emissário de Santiago de Compostela, vindo pelo papa, para apaziguar os ânimos e celebrar, com a sua presença, a ansiada paz.
Em 18 de Abril de 1331, D. Afonso IV vai tomar a iniciativa de transcrever integralmente o articulado do foral de 1179 e os Costumes Subsequentes. Erradamente conhecido como o Foral de D. Fernando, foi uma decisão que patenteia a ocorrência de agravamentos, por parte do rei e dos seus funcionários, às liberdades vicinais.
De resto, também D. Constança, mulher de D. Pedro I, viria a morrer na cidade em 1345; o seu filho, o rei D. Fernando, que recusou o panteão do pai em Alcobaça, viria a fazer-lhe companhia, em 1383, no seu sarcófago do convento de S. Francisco. Para tal, mandara construir alguns anos antes um coro-alto a meio da nave central, que segundo Mário Tavares Chicó é «a mais bela manifestação de arte gótica do país antes da construção do mosteiro da Batalha».
Em 18 de Janeiro de 1359, catorze anos depois da morte da esposa, D. Pedro I manda executar em Santarém Pero Coelho e Álvaro Gonçalves, conselheiros de seu pai D. Afonso IV e assassinos de Inês de Castro, o grande amor da sua vida.
D. Fernando vai assinalar de diversas formas a sua predilecção por Santarém. O chamado tratado de Santarém, de 19 de Março de 1373, foi assinado na vila e representou mais uma das muitas derrotas fernandinas face a Castela, sendo que neste caso o opositor era Henrique II, que chegou a deslocar-se a Santarém, em episódio assaz humilhante, para exigir o cumprimento do clausulado. Dois anos depois, em 1375, estava o «rei formoso» em Santarém no momento em que foi publicada a lei das Sesmarias. Finalmente, fez questão de se sepultar ao lado de sua mãe no coro-alto do convento de S. Francisco, como já se disse.
Quando o rei morre, D. Leonor Telles, a viúva, manda gritar pela cidade «Real pela rainha D. Beatriz de Portugal, nossa Senhora!», no que é apoiada pelas classes sociais superiores, interessadas nos cargos políticos e nos títulos que daí podem advir. O rei de Castela chegou a eleger Santarém sede da causa castelhana e a cunhar aqui uma nova moeda, o real de D. Beatriz, mas D. João I de Portugal viria a conquistar a cidade depois de Aljubarrota.
Para além de D. Beatriz, filha do rei D. Fernando, que era menor de idade e casada com o rei de Castela, tinham ambições os infantes D. João e D. Dinis, filhos de D. Pedro e Inês de Castro. A alta nobreza e a maior parte do clero apoiava o infante D. João ou, se este não o pudesse ser, o infante D. Dinis – argumentavam que Pedro e Inês casaram em clandestinidade, logo os filhos eram legítimos.
Quanto aos representantes dos concelhos e da baixa nobreza, apoiavam o Mestre de Avis. Durante as cortes convocadas para resolver o delicado problema, João das Regras defende que D. Beatriz era ilegítima, porque Leon

or Telles casara com D. Fernando quando ainda era casada com outro homem. Os infantes D. João e D. Dinis também eram ilegítimos, porque nunca houvera casamento entre D. Pedro I e Inês de Castro – e mesmo que tivesse havido, esse enlace era considerado nulo.
Por vir da linhagem real de D. Pedro e pelos serviços que prestara desde 1383 como Regedor, período no qual se incluiu o Cerco de Lisboa, o Mestre de Avis conseguiu obter a concordância dos presentes nas cortes e tornou-se, em 6 de Abril, depois de mais de um mês de discussão, o primeiro rei da segunda dinastia.
Numa das cortes, as de 1433, D. Duarte, que acabava de iniciar o seu reinado, fez publicar a Lei Mental. Tratou-se de uma medida de centralização régia, que tinha como objectivo defender o património da coroa e até aumentá-lo. Aliás, em virtude da publicação desta lei, muitos bens de privados foram revertidos a favor do Estado. Uma medida que fora idealizada no reinado do seu pai, D. João I, por conselho de João das Regras. Na prática, impedia-se o acesso à sucessão dos bens das esposas, dos ascendentes e dos colaterais. Apenas os filhos primogénitos e legítimos teriam acesso àquela prerrogativa. Uma forma de enriquecer a coroa, como se disse, ainda uma forma de «pôr em respeito» as classes privilegiadas, de lhe cortar as unhas e encolher os braços», no dizer de Alexandre Herculano.
Em 1449, foi de Santarém que D. Afonso V partiu para combater o infante D. Pedro, num recontro que teria lugar em Alfarrobeira e que culminaria com a morte de um dos membros da Ínclita Geração.
A 10 de Novembro de 1477, o príncipe D. João é aclamado rei em Santarém, depois da abdicação de Afonso V, que decidira dedicar-se à religião, mas só virá a suceder-lhe verdadeiramente em 1481, por morte do monarca.
Finalmente, é D. Manuel I que vai conceder foral a Santarém, em 1 de Fevereiro de 1506. Numa política de centralização da política régia, que se estendeu a todo o país, o foral foi adaptado à lei geral em vigor no país. Esta reforma, que se estendeu a todo o país, era há muito reivindicada, pelo menos desde o reinado de D. Afonso V, pelos vários concelhos do reino, que se sentiam pressionados e oprimidos por disposições muito antigas.
As preocupações centralizadoras modernas estão bem presentes no texto do foral, mas as tabelas tributárias arcaicas, aproveitadas de um passado distante, mantêm-se. É dado grande destaque à portagem, imposto pago ao rei pela entrada e saída de mercadorias da vila. Estavam isentos do seu pagamento ermitães, clérigos das ordens sacras, frades, freiras e beneficiados das várias igrejas. Para além disso, produtos como pão cozido, bolos, biscoito, queijadas, folares, farelos, cal, cinza, bagaço de azeitona, ovos, leite, nata, queijos frescos, requeijões, manteiga crua, gado e outros animais, uvas, figos verdes, favas verdes, hortaliças, carqueja, tojo, palha, vassouras e outros também estavam isentos.
Em termos judiciais, o assalto à residência alheia, o homicídio e a violação eram os crimes considerados mais graves. A pena podia variar, consoante o crime fosse cometido dentro ou fora da cidade. Mulheres e indivíduos com menos de doze anos não poderiam ser castigados em nenhuma circunstância.

Santarém e os Descobrimentos

Santarém participou activamente na grande gesta dos Descobrimentos. Não foi daqui que partiram as caravelas, mas foi aqui que se tomaram muitas das mais importantes decisões políticas e estratégicas; e foi aqui que se reuniram muitos dos meios materiais e humanos necessários à consecução dos objectivos propostos e das directrizes traçadas.
É possível, dentro da cidade, fazer a rota do norte de África, do Oriente ou do Brasil, como propõem alguns roteiros, evocando figuras que nasceram ou viveram em Santarém, obras de arte oriundas daquelas regiões, túmulos de descobridores, conquistadores e governadores. Não é por acaso que no Brasil há cidades com os nomes de Santarém (do Pará) e Almeirim.
Foi uma das povoações que mais gente forneceu para a expansão marítima. É visível esta realidade no número de escudeiros scalabitanos que estava na casa do infante D. Henrique e no número de famílias nobres daqui naturais que se envolveram nas guerras de África, das quais o melhor exemplo é o caso de D. Duarte de Meneses na batalha de Alcácer-Quibir.
Três governadores de Ceuta, dois capitães de Tânger, um capitão de Alcácer-Ceguer, um governador da Mina e vários vice-reis e governadores da Índia nasceram em Santarém. Foi em Santarém que, em Maio de 1487, D. João II organizou parte da viagem que no ano seguinte culminaria com a chegada à Índia de Vasco da Gama. Naquela data, o monarca incumbia Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva de irem à Índia por terra para recolherem informações sobre as rotas das especiarias e o poder militar dos reinos orientais. Em Santarém viveu e morreu, em 1520, Pedro Álvares Cabral. Fernão Lopes de Castanheda, o mais importante historiador dos Descobrimentos, era também natural de Santarém.
De Santarém partiam manufacturas (panos, linho e curtumes), minérios (metálicos ou não) e produtos agrícolas e silvícolas (madeiras, vinhos, cereais, azeite, mel e cera). Partiam inicialmente para Lisboa, mas o destino final era os territórios ultramarinos.
Foi no concelho de Santarém que, a partir do século XVI, se procedeu às primeiras plantações de pinhais, para acorrer às necessidades da construção naval e de madeira e lenha para Lisboa.
De todos os territórios ultramarinos, foi com a Mina que Santarém estabeleceu laços mais fortes. Dali vinha o ouro, os escravos e a pimenta de rabo. Os dois navegadores que a descobriram, em 1471, estavam ligados à vila. João Afonso de Santarém era daqui natural, Pero Escobar tinha ligações familiares. Fernão Lourenço da Mina, tesoureiro da feitoria em meados do século XVI, tinha propriedades em Santarém.
Com a Índia, Santarém estabeleceu também um contacto estreito. Daqui partiram por terra, rumo à Índia e à Abissínia, em Maio de 1487, Pero da Covilhã e Afonso de Paiva. Naturais de Santarém eram muitos dos portugueses que viveram na Índia, entre 1500 e 1530, como capitães (Rui de Brito, Vasco de Lima, Tristão de Paiva e Lopo de Sousa Coutinho), pilotos (João Leite, Fernando de Lima), escrivães de naus (Garcia Mendes, João Fernandes de Sau e Gonçalo Gil Barbosa, escrivão da armada da Pedro Álvares Cabral) e soldados (António de Sá, Rui de Melo, João Guedes, Jorge de Mascarenhas), muitos deles com vasto património na vila. Os Bobadilhas, os Saldanhas, os Anaias, os Patalins, os Cabrais e os Noronhas, todos com ligações à vila, andaram pela Índia. A própria toponímia é o reflexo desta realidade. Nomes como Paul do Arroz não existiam antes do século XVI.
Alguns missionários naturais de Santarém encontram-se entre os ocidentais que se fixaram no Japão, como Gabriel de Maria, autor das Cartas do Japão (1603-1614) e da Relação da perseguição que teve a cristandade do Japão desde Maio de 1612 até Novembro de 1614, livro impresso em Lisboa em 1618.
Quanto ao Brasil, a ligação é reforçada pela toponímia e pela genealogia. Daqui eram naturais Francisco Pereira Coutinho, primeiro donatário da capitania de Salvador da Baía, Estácio de Sá, fundador da cidade do Rio de Janeiro, e D. Diogo de Meneses, governador do Brasil.
A vida quotidiana de Santarém foi muito influenciada pela expansão e em especial pela Mina. Era necessário abastecer o comércio com aquela feitoria, sobretudo através da produção de tecidos listados, os alambéis, que iam servir para as trocas comerciais com os africanos. O maior centro de produção de alambéis em Portugal era a Ribeira de Santarém, sendo que a cidade tinha o monopólio da sua venda para a Mina.
A actividade era tão importante que o foral de 1506 refere-se expressamente aos alambéis, como um dos panos a pagar portagem, a exemplo da restante «roupa

mourisca». Em 1537, estão registados em Santarém vinte e um empresários que se dedicavam à produção dos alambéis. Sob a jurisdição daqueles, trabalhavam certamente muitos tecelões e tintureiros. Para os fabricantes de alambéis, os privilégios concedidos por D. Manuel I eram grandes, desde que vivessem em Santarém.
Outra das importantes consequências da expansão em Santarém foi a acumulação de capital. O dinheiro era usado para comprar objectos de luxo ou que, pelo menos, reflectissem um nível de vida que os seus proprietários não tinham: castiçais, copos, colheres, taças, anéis e relicários, tudo em ouro e prata.
O enriquecimento de igrejas e conventos vai ser uma das consequências imediatas destas vastas riquezas que, muitas das vezes, lhes eram deixadas em testamento. Foi o caso de D. Margarida de Aragão, viúva de Pêro Vaz Soares, que em 1506 deixou um cálice de prata à igreja do Salvador, entre outras doações.
Ao mesmo tempo, à medida que a agricultura ia empobrecendo, as terras iam-se tornando mais baratas. E as instituições religiosas aproveitavam para investir, aumentando dessa forma o seu património imobiliário.
«Mas são muito mais impressionantes os objectos que afluem dos novos mundos: pentes, espelhos e colheres de marfim; peças de brocado, esteiras e catres da Índia, mesas de cedro, panos da Índia, alcatifas de Cambaia, vasquinhas de Cataio, bandejinhas da Índia, porcelanas, grãos de aljôfar, especiarias e tantas outras sugestões exóticas que povoavam as imaginações de fascínio e abarrotavam de gente as naus da Índia.» (Maria Ângela Beirante)
Desse período de grandeza da história de Portugal, Santarém guarda inúmeros vestígios. Os seus monumentos, que adiante descreveremos em capítulo próprio, são o testemunho vivo dos séculos de ouro da cidade.
Com esses monumentos, é possível seguir uma verdadeira rota dos Descobrimentos. Também lhe poderíamos chamar rota da Memória, porque é disso mesmo que se trata, de recordar em conjunto a memória de um povo e de uma nação que foi grande e que hoje se ufana, porque mais nada lhe resta para se orgulhar, das suas recordações.
Podem-se estabelecer três itinerários nesta rota dos Descobrimentos: o itinerário de África, o itinerário do Oriente e o itinerário do Brasil e Novo Mundo. São três etapas que, no fundo, simbolizam um único momento, o momento expansionista português.
O itinerário africano inclui a igreja de Santa Maria da Graça (onde se encontra sepultado, entre outros, o primeiro capitão de Ceuta, D. Pedro de Meneses), a igreja de S. João do Alporão (túmulo do capital-general Duarte de Meneses), a igreja de Santa Cruz da Ribeira e o convento de S. Francisco (vários túmulos de figuras ligadas à exploração e conquista do norte de África).
O itinerário oriental é composto pela igreja do Santíssimo Milagre (arte), pela igreja da Misericórdia (túmulo de um vice-rei da Índia), pela igreja da Nossa Senhora da Graça, pelo convento de S. Francisco e pela ermida da Senhora do Monte (vários túmulos).
O itinerário do Brasil e do Novo Mundo, por fim. A presença de Pedro Álvares Cabral, em Santarém para morrer, será o facto mais significativo da ligação entre Santarém e as terras de Vera Cruz. Neste itinerário, pode ver-se a igreja de Santa Maria da Graça, com o túmulo do descobridor, e logo ao lado a Casa do Brasil, centro cultural de apoio à divulgação da epopeia de Pedro Álvares Cabral e das relações luso-brasileiras que ocupa o espaço eventualmente habitado pelo navegador. Num dos lados da praça, a estátua daquele, da autoria de Soares Branco (1971). Visite-se ainda a igreja do convento da ordem terceira de S. Francisco (lápide de D. Joana Coelho, filha do capitão de Cabo Verde Jerónimo Coelho); a igreja do colégio da Companhia de Jesus de Santarém (várias pinturas relativas à expansão, entre as quais a de um ameríndio do Brasil); a ermida da Senhora do Monte (renovada por Lopo de Sousa Coutinho, militar do primeiro cerco de Diu e capitão de S. Jorge da Mina, conserva a sepultura de Duarte Sodré, um ascendente de Vasco da Gama).

A ARTE (8)

A ARTE (8).

Para que serve a Arte?
Para quem cria, a obra é um processo de aprendizagem permanente. A criação espevita a nossa reflexão, desenvolve todo o processo de humanização, cria uma singular afinidade com a consciência, aproxima-nos de todos os mecanismos de identificação da verdade, afina as emoções e os sentimentos, apura o sentido da beleza, da ética, da estética e até da justiça, dado que esta se pode considerar fruto da harmonia e do equilíbrio, as grandes traves da Arte e da verdadeira vida.
A Arte é uma relação de vida. A montante e a jusante da Arte existem as emoções e os sentimentos. A montante prevalecem as emoções e os sentimentos do autor da obra, a jusante predominam as emoções e os sentimentos daqueles que contemplam a obra criada. Pode dizer-se que a Arte é uma espécie de degrau entre este desnível do mundo interior e do mundo exterior, uma espécie de portal entre duas dimensões, o principal factor na equação que um dia poderá resolver o problema da paz individual e colectiva.
Quando alguém produz uma chamada obra de Arte, neste caso uma pintura, introduz na tela toda a sua vida, ainda que inconscientemente, todas as suas vivências, todas as suas memorizações, todas as suas aprendizagens, todas as suas emoções, todos os seus sentimentos, paixões e devaneios, todas as suas frustrações, todas as suas potencialidades reflexivas, toda a sua cultura, toda a sua visão do mundo e das coisas. Quem contempla essa obra não vai ver a obra do autor mas a sua própria obra, a obra de quem a vê, dado que vai contemplá-la através das suas próprias vivências, através da sua cultura, das suas emoções, dos seus sentimentos, da sua visão do mundo e das coisas, que podem não ter nada a ver com os elementos da estrutura mental do criador da obra. A contemplação de um quadro não exige forçosamente uma análise intelectiva. É muito mais importante o impacto que a obra produz no espectador. Ela actua sobre o seu sentir e não só sobre a sua inteligência. Claro que um espectador pouco inteligente, sem imaginação, sem sentimento artístico, vazio de ideias e de ideais, não verá nada. A obra funciona de estímulo, mais ou menos poderoso e profundo, capaz de desencadear toda uma cascata de sentimentos no observador, por vezes muito mais intensos do que os do criador, podendo ter a força requerida para desnudar o seu íntimo e arrancar-lhe emoções muitas vezes desconhecidas, apagadas ou esquecidas no mais recôndito dos seus arquivos mentais. (Continua).

                     (adão cruz)

(adão cruz)