A crise em "letras"

Com 2,5 milhões de euros (uma pechinca comparando com as astronómicas verbas que já se falaram nesta crise) é já possível criar um simulador de crises. Óptimo! Isto quer dizer que não haverá mais crises. Tecnicamente, e prevendo o modo como os mercados vão evoluir, as crises podem ser debeladas mesmo antes de acontecerem, acabando assim com estes “incómodos” para os mercados financeiros.

Portanto, vou aproveitar esta “última” oportunidade para opinar sobre a crise, que muitos dizem até já acabou…

Resumindo esta crise: toda a sociedade vivia distraída num consumismo desenfreado e de cartão de crédito furiosamente em riste, fruto das políticas (ainda vigentes) de propaganda optimista e da lógica do “quanto mais se compra, melhor nos sentimos“. De repente, sem que ninguém o previsse (salvo um ou outro pessimista, o vulgar “profeta da desgraça”), a crise apareceu e abanou violentamente as cabeças de quem só pensa “economiquês”, trazendo-os para a simples e dura realidade do “é preciso ter dinheiro para o gastar“.

Depois da bofetada, logo veio a !!!!!!!!. Depois vieram as ?????????. O dinheiro, motor da economia e principal distração da humanidade, é cada vez ———. Um complexo sistema social que apenas funciona quando o dinheiro é cada vez ++++++++, deixa de funcionar abruptamente perante as engenharias acrobáticas de criação artificial de dinheiro.

Como sempre, passado o choque normal da novidade, as pessoas continuam as suas vidas da melhor forma possível, os governantes continuam a governar, os gatunos continuam a gatunar e os analistas continuam a analisar. Alguns dos analistas que não viram nenhum problema no funcionamento do “anterior” sistema, debruçam-se agora (provavelmente a título de passatempo) a tentar encontrar a letra correcta para definir a actual crise.

Como não se pode admitir que estamos numa crise do tipo “I”, ou seja, sempre a descer (isso seria muito mau para os negócios), uns defendem que estamos numa crise tipo “L”, ou seja, depois do barco bater no fundo, ao invés de parar, vai continuar a navegar, mas desta vez debaixo de água. Outros, mais optimistas, acham que esta é uma crise do tipo “U”, que é como quem diz que depois da queda vertiginosa, preparem-se porque a subida vai ser igualmente repentina e, calma!, rapidamente vamos voltar ao estado maravilhoso de coisas que estávamos antes da “bolha imobiliária” rebentar. É claro que existem diferentes perspectivas e diferentes análises à situação. Nem sequer há um consenso quanto à tal “queda vertiginosa”. Alguns economistas mais ponderados e calmos analisam a situação e defendem que esta é uma crise em “V”, com uma queda suave que, em breve, suavemente, voltará a dissipar-se com uma cómoda mas ponderada subida. Existe ainda uma outra variante, menos optimista a longo prazo, que é a crise em “W”, com uma economia aos solavancos com constantes quedas e subidas.

Perante todas estas definições e análises eu pergunto: face às conhecidas injecções megalómanas de capital público nos grandes grupos económicos, face ao constante apelo a um consumismo desenfreado apenas pelo “prazer de consumir” com graves consequências sociais e ambientais, face à continuidade de um sistema económico que obviamente falha, face à criação artificial de dinheiro através do crédito, sobrepondo o poder das instituções financeiras privadas aos próprios Estados e entidades competentes, face à passividade dos Estados e dos organismos para detectar estes problemas e em penalizar quem obviamente criou esta crise, face a uma crescente e cada vez mais insultuosa diferença entre quem tudo tem e quem não tem nada, face a todas estas evidências gritantes de uma badalhoquice económica, sem moral, decência ou qualquer intuito social não estaremos é perante uma crise do tipo “XXX”?

Comments

  1. maria monteiro says:

    tipo “X politica X de X direita”

  2. Luis Moreira says:

    Claro Isac, isto é tipo compressor e se um gajo não se desvia vai tambem…

  3. Carla Romualdo says:

    O sistema já ruiu. Tudo aquilo a que estamos a assistir é uma tentativa despudorada de manter uma ruína de pé, à custa do sacrifício dos de sempre.
    A imagem dos clientes do BPN a quem o banco roubou à porta do hotel de 5 estrelas onde os administradores se reuniram para uma festa é exemplar.

  4. isac says:

    exactamente. Isto para mim é um autêntica pornografia económica.


  5. Cara C.Romualdo
    O sistema não ruiu, nem vai ruir por ele próprio, só o proletariado organizado, fazendo a Revolução o pode fazer ruir. Caso contrário, mesmo moribundo pode permanecer a flutuar na sua agonia durante mesmo muito tempo.
    Consulte a “Achispavermelha.blogspot.com” ou “classecontraclasse.blogspot.com” e dê-nos a sua opinião ou mesmo colaboração, sobre as nossas propostas de luta contra o capitalismo.
    “A CHISPA!”