O mistério de um inocente convite

O mistério de um inocente convite (suspense 6)

 Uma outra esposa, que até aqui só tem estado a ouvir, de dentes cerrados e com a raiva a escorrer-lhe até muito abaixo do umbigo, comenta:

 -A única frase meio filosófica que tenho ouvido ao meu homem nos últimos tempos é, quando ele vai mijar, pela manhã e diz sistematicamente: O que a gente era e o que a gente é! Fico lixada!

 -Imaginem que quando o interroguei sobre o inusitado encontro, só entre gajos, ainda para mais, velhos e incapazes de sobreviveram sozinhos para além de um raio de dois quilómetros, ele me respondeu com ar meio freudiano, que se tratava, possivelmente, de uma espécie de simpósio, em que se faria o levantamento do velho conceito, já gasto, e se tentaria a sua penetração dentro do paradigma da modernidade, muito mais interessante do ponto de vista, digamos, sensorial e estético, do que o paradigma dos nossos tempos.

 -Estão a topar?… O levantamento…a penetração…no paradigma…muito mais interessante…só lhe faltou dizer, a esse filho da puta, muito mais depiladinho!

 Confessa a décima terceira das esposas, admiradora de Valentim, pelo que dela se conhece nas conversas do café , mais pragmática, mais calculista, mais tudo aquilo que a gente conhece dos seus correligionários:

 -Eu até já fui ao bruxo da Aguieira, a fim de ele me dar uma antevisão panorâmica da situação, mas ele disse-me que não se movimentava muito bem nesta área, até porque quem lhe costuma fornecer todas as informações secretas é o Michael Moore, e ele tem andado muito despistado e muito atarefado depois do sucesso de Farenheit.

 -Pensei rezar para ver se Deus deitava mão a esta tragédia, mas estes pedidos parece que não são lá muito bem aceites pelos serviços celestiais, demasiado atarefados em dar a volta aos milhares de coisadas e poucas vergonhas dos ministros de deus na terra.

 -Olhe! Ó senhora reclusa, do mal o menos! Antes com gajas do que…imagine a nossa aflição se nessa maldita reunião se encontrasse algum desses que andam para aí à solta, do género daqueles políticos meios pífios do bem te avias ou daqueles gajos da televisão que a gente vê logo que nem cá nem lá, com jeitos de julieta do bolhão ou de nequinhas da ponte! (Continua)

Comments

  1. Carlos Loures says:

    Continuo a seguir a blogonovela com atenção.