Redes demasiado sociais

O conceito de redes sociais, tão badalado nos dias que correm, baseia-se em grande parte na ideia de que todos podemos ser amigos, amigos dos nossos amigos, amigos dos amigos dos nossos amigos e por aí adiante…

Como acontece na vida off-line, qualquer um é livre de escolher os seus amigos (e até inimigos), ou não fosse a Internet o expoente máximo da liberdade individual.

Ora esta teoria, como qualquer outra, encontra frequentemente na prática obstáculos da mais diversa natureza. Neste caso, o obstáculo foi criado pelo Comité de Ética do Supremo Tribunal de Justiça da Flórida, que entendeu que isto de escolher os amigos é muito bonito, mas dentro de determinados limites. E quem define esses limites? O dito Comité, claro está!

O que aconteceu é que esta digníssima entidade apresentou um parecer formal, onde afirma que juízes não devem ter “amigos” advogados nos seus perfis em redes sociais (Facebook, LinkedIn, etc.). Segundo esta entidade, o contrário também é verdade: os juízes não devem aceitar que advogados os adicionem como “amigos”.

À primeira vista, pode até entender-se o objectivo e alcance desta recomendação: por exemplo, para tentar evitar situações embaraçosas em que um juiz e um advogado “amigos” no Facebook se vejam confrontados numa sala de tribunal. Poderá também pretender evitar conflitos de interesses, numa espécie de “lei das incompatibilidades” para redes sociais.

O problema é que este tipo de regulamentação (para usar um eufemismo) não acontece nas relações de amizade off-line, e ainda bem! Que eu saiba, não existe nenhuma lei que dite quem é que pode ser nosso amigo e quem é que não pode ser, com base nas respectivas categorias profissionais.

Da última vez que verifiquei, esta coisa de “regras sociais” que sugerem que pessoas de dois grupos (profissionais, religiosos, económicos, raciais, sexuais, etc.) não se devem relacionar, tinha um nome: discriminação.

Se as redes sociais na Internet não são mais do que a simples extensão das redes sociais do “mundo real”, com todas as vantagens daquele meio (facilidade de comunicação, maior proximidade, entre outras), parece-me ilógico e até perigoso que uma qualquer entidade queira regular as relações de amizade entre as pessoas.

Até poderão dizer que é apenas uma “recomendação” e que só se destina a evitar promiscuidades. O problema é que, se a moda pega, já estou a ver que outras “recomendações” poderão vir a aparecer quanto a grupos que não deverão aceitar como “amigos” membros de outros grupos: dirigentes desportivos e árbitros, autarcas e construtores civis, políticos e jornalistas, professores e encarregados de educação e até padres e meninos de coro.

Comments


  1. A mania de regular tudo tem destas coisas. Quer-se regular o que não tem necessidade disso. A proibição apresentada é desnecessária e até ridícula. A menos que se proíba a existência de relações de amizade reais, além das virtuais. Além disso é como dizer que, por serem amigos, os advogados e os juízes serão menos profissionais.