A máquina do tempo: Pinga e Cristiano

Fotografia da equipa do FCP, campeã em 1939/40. Pinga está ao centro, com o joelho ligado devido a uma operação ao menisco.

No sábado da semana passada, à noite, estava com a família a jantar num restaurante de Portimão. Muitos espanhóis estavam por ali e, claro, os televisores estavam ligados para o Real – Almería. E vimos Cristiano jogar bem e agir mal, como quando, depois de ter falhado a marcação de uma grande penalidade, não festejou com os colegas o golo que na recarga, subsequente ao penalty falhado, Benzema marcou. As câmaras captaram o seu ar desgostoso, como se em vez de a sua equipa ter marcado, tivesse sofrido um golo.

Vimos depois como, dois minutos após, festejou exuberantemente o «seu» golo, despindo a camisola e sofrendo a amostragem de um amarelo que veio determinar a sua expulsão e a impossibilidade de jogar em Valência. Tal como sucede na selecção, Cristiano entende que a equipa é composta por ele, a vedeta, e por dez figurantes. Entre parêntesis pergunta-se: como é que se escolhe para capitão uma pessoa como Cristiano? Ricardo Carvalho, por exemplo, não terá um perfil mais adequado a essa função?

Cristiano Ronaldo é um grande jogador, tem uns pés maravilhosos, faz fintas do outro mundo – um sobredotado. Bem sabemos que as bolas de ouro, os Óscares, os prémios Nobel, valem o que valem, mas, com bola de ouro ou sem ela, Cristiano é um jogador de eleição. E a pessoa? Com é a pessoa que dá pelo nome de Cristiano Ronaldo?

A pessoa é narcisista, egocêntrica, vaidosa e, sobretudo, imatura – um ser humano com a alma apequenada pelo desfasamento entre a «inteligência» dos pés e a patetice da cabeça. Sou forçosamente levado a compará-lo com outro ídolo do futebol mundial, o Messi – um rapaz que sendo um grande jogador, não se deixa ofuscar pelo brilho da própria imagem. E lembro grandes jogadores portugueses – Eusébio, desde logo, ao qual já dediquei um texto, Peyroteo, e andando mais para trás, Pepe e Pinga. Todos eles modestos, pessoas simples. Todos eles geniais jogadores.

Dir-se-á – eram outros tempos. É verdade. Dos dois últimos nem sequer existem registos filmados (disponíveis, pelo menos) que nos permitam avaliar o virtuosismo que diziam os coevos eles terem exibido. Mas eram ídolos, e nesses anos trinta o futebol era já um desporto de massas. Num país onde se dizia nada acontecer, o campeonato de futebol, a Volta a Portugal, com o Nicolau e o Trindade digladiando-se, eram acontecimentos importantes.

Curiosamente, Artur de Sousa Pinga, de quem vou hoje falar, era madeirense como Cristiano. Já Ricardo Santos Pinto publicou aqui um texto comemorativo do seu centenário. Tentarei não repetir em demasia a informação. Nasceu no Funchal em 30 de Setembro de 1909, tendo falecido no Porto em 12 de Julho de 1963. Celebrou-se, portanto, recentemente o seu centenário. Não nasci a tempo de o ver jogar, mas lembro-me dos elogios que meu pai, benfiquista ferrenho, lhe fazia. Cândido de Oliveira, um grande democrata e uma das grandes figuras do futebol nacional, considerou-o, em artigo publicado em Abril de 1945 no jornal «A Bola» «talvez o maior talento do nosso futebol, um jogador fulgurantíssimo, verdadeiramente genial».

Estreara-se no Marítimo, vindo para o Futebol Clube do Porto na época de 1930/31. Jogava a interior esquerdo e, possuía uma característica que, nos nossos dias é ainda mais valorizada do que o era então – a polivalência – atacava e defendia, dominava a bola com mestria, fintava e, esquerdino, disparava remates de uma força e de uma pontaria letais. O chamado jogador completo.

Na «Stadium», na época de 31/32, após uma robusta vitória por 3-0 contra o Benfica, elogiava-se a sua capacidade de drible, o rigor do passe e da intercepção. Salientava-se a sua correcção, nunca cometendo violência sobre o adversário. Aliava, dizia-se nesse artigo, «a mestria técnica, à maneira mais elegante de jogar».

Nos dezasseis anos em que jogou, Pinga foi o indiscutível «patrão» da equipa. Quando no Natal de 1933, o Porto venceu a selecção de Budapeste por 7-4 e, oito dias depois, ganhou ao First de Viena por 3-0, a Europa do futebol não poupou elogios à equipa portista, onde Pinga brilhava como um diamante. Com Valdemar Mota e com Acácio Mesquita, Pinga, o maestro, fez tal exibição, que o trio ficou conhecido como os «três diabos do meio-dia» (meio-dia porque o jogo se realizou a essa hora).

Foi campeão de Portugal, sempre pelo FCP, nos anos de 1934/35, 1938/39 e 1939/40. Na época de 1935/36, foi o melhor marcador do campeonato. Em 1937 ganhava 1500 escudos mensais – um ordenado considerado fabuloso para a época – mas que não era nada, quando comparado com os milhões que hoje os ídolos recebem.

Em Julho de 1946, no Estádio do Lima, realizou-se a sua festa de despedida. Grandes jogadores do Benfica, do Sporting, do Belenenses – Azevedo, Cardoso e Feliciano; Amaro, Francisco Ferreira e Serafim; Espírito Santo, Alberto Gomes, Peyroteo, José Pedro e João Cruz, associaram-se à homenagem, constituindo uma selecção dos «melhores de Portugal» que defrontou o Porto (não sei o resultado, mas neste caso é irrelevante). A emoção foi enorme, entre o público, entre os colegas de equipa, entre os adversários. Um grande jogador e um cavalheiro que, ao abandonar a modalidade, deixava mais pobre o futebol português.

Pinga seria um bom exemplo para Cristiano Ronaldo, se Cristiano tivesse a consciência de que precisava de exemplos. O facto de os tempos serem outros e a intensa perseguição e exposição mediáticas sofridas pelos ídolos, não desculpam tudo, pois continua a haver grandes jogadores que mantêm uma postura de contenção e modéstia. Grandes jogadores e cavalheiros. Cristiano é «só» um grande jogador.

Esta é a homenagem que presto a Artur de Sousa Pinga, um dos ídolos de meu pai que (tendo nascido em 1915), por diversas vezes, o viu jogar. É a homenagem sincera de um mouro a uma figura lendária do Futebol Clube do Porto e do futebol português e dedico o texto ao amigo Fernando Moreira de Sá, um puro ariano que, sobretudo quando não fala de futebol, escreve coisas tão interessantes (lembro só o recente e brilhante texto sobre as vítimas da violência doméstica). Torno a dedicatória extensiva a todos os muitos portistas do Aventar.

Um abraço, amigo Fernando.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    É verdade o que dizes, mas olha que com a importância que todos lhe damos é dificil permanecer equilibrado…

  2. Carlos Loures says:

    Foi o que tentei transmitir no texto – outros grandes jogadores, como os que referi, ídolos das multidões, mantiveram um comportamento diferente; actualmente – o Messi, o Drogba, etc., também. A juventude não desculpa tudo. O Cristiano é um bom jogador, mas, com o seu narcisismo e patetice, não é muito útil à selecção.


  3. … Pois, meus Caros, na minha modesta opinião, já que tive a possibilidade de ver, de facto, alguns dos maiores jogadores de futebol do Mundo, devo dizer que Ronaldo não entra nesse grupo. Aliás, mesmo como Português, o melhor jogador da actualidade -na minha modesta opinião, repito- é o João Moutinho, porque, para mim, os melhores jogadores do Mundo têm que ser cerebrais. E quando se quis comparar o Ronaldo ao Eusébio, essa hipótese de comparação nem chega a ser ridícula, por ser alimentada por quem nunca viu jogar o Eusébio…

    Sabe-se que o marketing transforma tudo ou quase tudo no que quiser; sem o marketing, sem os investimentos pelo BES, por exemplo, o Ronaldo não valeria dois terços do que vale… Refiro-me ao jogador, naturalmente. Quanto à pessoa ou ao seu modelo de comportamento, não foi Blatter quem esteve mal, o homem limitou-se a uma caricatura inócua de um indivíduo que corre riscos de acabar envolvido em anedotas, se não conseguir ou não o ajudarem a conseguir pôr travão aos seus comportamentos de parolo.

    Se é deste tipo de figuras que Portugal depende para aparecer no mapa… rasgue-se o mapa e esconda-se o País…
    RC

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