Heterogeneidade de sentimentos

Dois problemas agitam a nossa sociedade, ou a nossa cultura. Nós Antropólogos denominamos cultura as formas de pensar, fazer e sentir, ai onde os sociólogos denominam sociedade a um conjunto de pessoas que partilham a mesma língua, ideias constitucionais e tradição histórica. Sociedade é partilhar a mesma memória e configurar um mesmo futuro. Cultura é conhecer essa memória, respeitar a sua normatividade ou manipula-la.

mãe a falar com filho

mãe a falar com filho

Afirmo no título que nas várias sociedades do mundo e dentro dos seus segmentos, palavra criada como conceito por Durkheim em 1894, Les règles de la méthode sociologique , que pode ser lido em http://classiques.uqac.ca/classiques/Durkheim_emile/regles_methode/regles_methode.html existe uma variedade de sentimentos.

Nós, ocidentais, estamos habituados as formas de relação social, onde é a pessoa masculina a que manda, orienta, e perfilha aos filhos do casal. Esses descendentes, levam o seu nome, como está definido no Código Civil que nos governa, Livro IV, Direito de Família, artigo 1576 e seguintes, especialmente Título III, Da Filiação, artigos 1798 e seguintes, texto que permite a adopção e a comunhão de bens. Ideias todas retiradas da cultura à qual estamos habituados, desde que a nossa República nasceu como Monarquia, em 1806. Monarquia cristã, que submete aos filhos aos seus pais – antigamente apenas ao denominado cabeça de casal, o homem de casa, hoje em dia aos dois por igual, pai e mãe. Tão habituados estamos, que a lei não é respeitada e mulher e filhos são subordinados ao adulto masculino denominado pai. É a nossa cultura…

Não entanto, para entender, precisamos comparar com outras sociedades, especialmente as que analisamos em Antropologia. Segmentos de grupos da nossa própria sociedade têm o comportamento do antigamente: manda o pai; outros, manda a mãe e o elemento masculino nada diz. No entanto, fora dos nossos limites, existem seres humanos que nos denominaríamos primitivos, apesar de terem um direito elaborado e estritamente cumprido, uma forma de exprimir sentimentos como as nossas e mais heterogéneas, onde quem organiza o comportamento dos seres humanos é a mãe dos filhos. O elemento masculino que colaborou a sua gestação. Nada tem a dizer. Como acontece, ainda hoje em dia, entre os seres humanos de povos da América Latina e na Papua Nove Guiné.

Os grupos sociais como os Massim, do arquipélago da Kiriwina, ou os Dobu da Melanésia, e outros que analiso no livro acabado por mim hoje, o cientista suíço Johan Jacob Bachofen, fez uma descoberta que revolucionara ao mundo, descoberta na que ninguém quer acreditar. Digo no meu livro recente: Os Grupos Domésticos ou a Construção Conjuntural da Reprodução, especial, estas palavras: Entre os Massim, os Dobu, os Mailú, os Amphlette, Morata, Moratu, Yela, Duba, ao predominar o Direito Materno, a classificação dos bens e às suas pertenças são bem mais complexas. Quer direitos sobre as pessoas, quer sobre os bens, são cuidadosamente definidos. A propriedade em ocidente é definida como posse de bens aos que se tem acesso por lei. O mesmo não acontece na Melanésia toda. Impera o denominado direito materno, essa descoberta do jurista e investigador Suíço, Johann Jakob Bachofen, analisada antes em outro sítio de este livro, esse autor que em 1861 publicara em Stuttgart o seu texto O Matriarcado. Esta descoberta serviu de base, até o dia de hoje, para distinguir as formas de governar às famílias pelo direito materno, sem se ter pensado antes que havia sítios no mundo em que as mulheres eram da maior hierarquia que os homens, porque eram capazes de dar a vida. O Direito Materno ou Das Mutterecht, a partir da pesquisa de Johann Jakob Bachofen foi útil para todos os que estudavam a estrutura social em terreno.

Tipo de organização social em que a mulher é a base da família e detém a autoridade sobre a tribo ou grupo. Em sociologia, termo empregado por Bachofen para definir um regime de família que teria existido na origem dos tempos e que ainda persiste em alguns povos primitivos; regime que confia à Mãe o governo da família e a iniciativa da sua constituição, via de regra, com a escolha de vários maridos. Apesar da ausência de provas que confirmem a existência desse regime em tempos de antanho,

estágio normal na evolução da família, o termo matriarcado impôs-se, sobretudo na crítica feminista, e hoje é empregado para exprimir o regime dominante em certos povos de civilização primária e de pequena colheita, onde a mulher tem maior importância económica e, em consequência, predomina a linhagem matrilinear, segundo a qual o nome dos filhos e a sua situação social provém da mãe e não do pai. Na África (os bijazoses da Guiné, por exemplo), predomina o matriarcado e um costume (“couvade”) que era comum entre os índios do Brasil: durante a gravidez e o parto da mulher, o homem permanece em casa de resguardo, enquanto ela trabalha. Entre estas várias alternativas do direito materno, cama a minha atenção esse hábito dos índios do Brasil ou parto por simpatia. Por outras palavras, as pesquisas feitas a partir da publicação do livro facto do Das Mutterrecht de Bachofen, foram-se encontrando instituições que tinham a ver com simpatia com as mulheres e os seus direitos, O próprio Malinowski, no seu livro Uma teoria científica da cultura de 1944, já referido, debruça-se sobre os hábitos de gravidez e parto por simpatia da parte do homem para com a mulher: enquanto esta a procriar outro ser humano, trabalha as terras e o pai da criança fica na cama ou ao cuidado doa sua família ou seus amigos. É entendido que não é um abuso de direito paterno contra o materno: enquanto a mulher trabalha, os seus músculos esticam e ajudam ao parto. Mas quem frita e tem dores é o homem, e a mulher só, da a luz, leva o bebé para a cama do homem, que trata da criança, excepto nas goras de amamentar. São costumes de culturas diferentes à nossa. No entanto, com a minha discípula médica Berta Milheiro Nunes de Lopes, descobrimos no seu trabalho de campo nos Vales, em Alfândega da Fé, o facto da mulher dar a luz de cócoras, método que ajudava a distensão da vagina e do aparelho corporal para o bebé nascer com facilidade. Após doutoramento bem sucedido, foi nomeada Directora do Hospital de Alfândega da Fé e mandou por em pratica este dar a luz, como ela estuda no seu livro de 1992: O saber médico do povo, Fim de Século, Lisboa. Foi assim também que descobrimos, como outros antes já sabiam, que a couvade não está relacionado à gestação no corpo da mulher nem aos seus direitos. É o resultado da influência de essa nada fazer do pai enquanto o corpo da mãe esta activo na sua gravidez. A Síndrome de Couvade, não é uma doença, mas um conjunto de sintomas que podem aparecer nos homens durante a gestação. O pai se exprime psicologicamente ao assumir a gravidez apresentando sensações semelhantes aos da companheira grávida. Os futuros pais podem engordar, sofrer com enjoos, desejos, crises de choro ou mesmo depressão.

Os sintomas também demonstram a necessidade que muitos homens têm de se tornarem pais. A ansiedade, aliada a uma forte ligação afectiva e emocional com a mulher, acaba por transferir para o marido uma série de sensações que costumam se manifestar somente na figura feminina.

Pesquisas indicam que a metade da população de futuros pais (54%) desenvolve alguns sintomas relativos à gravidez durante o curso da gestação.

Mulher Chefe Direito Matriarcal

Mulher Chefe Direito Matriarcal

Facto que me fazem lembrar dois casos: um motorista da nossa casa , ao conduzir um carro nosso, vomitava, e, enquanto conduzia, tinhas dores nas costas, não pelo facto de conduzir, mas sim por sentir as dores da sua mulher que, conforme pensava, ele tinha engravidado, o que viria um dia a causar dores na Elsa, a sua mulher… Não acreditei no que Juanito costumava dizer, até chegar o dia da minha mulher ficar grávida e eu, com depressão e ansiedade que nem me permitiam dar aulas. Foi preciso ir ao psicanalista e chegar a conclusão de que o problema era a minha inanição em relação a gravidez da minha mulher. Foi preciso lembrar, nas cinco sessões que tive nos meus vinte e poucos anos, que o meu dever era proteger a minha família e ganhar o sustento para todos. Foi assim que começou a minha aventura pelas avenidas da psicanálise de pais e crianças. De facto, pretendia estudar a eles, mas estava a tentar me encontrar a mim próprio. Dai, a minha criação da Etnopsicologia da Infância, com Georges Devereux no Collège de France, nos anos 70 do Século passado. Foi como comecei a entender que o pai tem ciúmes da mulher que dedica sua atenção ao bebé e não ao marido!

Os sentimentos são heterogéneos e existem desde que saímos do Paraíso…

Escândalo faz-se hoje em dia por se querer passar a lei, uma hipótese matrimonial alternativa à que estamos habituados. A lei deve ser aprovada. Os nossos soberanos senhores que nos mandam, sabem bem que a paixão é uma força da natureza que não tem travões. Como escrevi ontem, o Isso, ou o Id de Freud, no aspecto paixão, entregara a sua alma ao criador…

Não posso deixar de comentar que, ainda estes estudos sejam importantes e a lei é esperada, a outra preocupação que o nosso Presidente da República nos lembrara: “Façam como entendam com o matrimónio das pessoas do mesmo sexo, mas pensam primeiro e entendam antes, que atravessamos uma grave crises económica, que o governo desvia para atender antes aos sentimentos…” ou assim.

Escrevia eu no Semanário da Guarda: Portugal tem dois problemas: o matrimónio homossexual e a crises económica… Se a segunda não é resolvida, para que lutar pela primeira, especialmente se quem tem o mando do lar é a mulher? Mando temido e temível. Perguntem aos Juanitos da nossa terra…A paixão acaba em divórcio…

Eis a minha ideia da heterogeneidade de sentimentos nas nossa sociedades e como a cultura a não permite mudar.

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