Pai natal do prego

Na minha rua há uma casa de penhores. O prego, como lhe chamam. Vem muita gente pôr os bens que lhe sobram no prego, mas nunca aparecem com sacos ou maletas, e por isso suponho que só trazem coisas pequenas: um relógio, o cordão de ouro da avó, a aliança de casamento.

Á porta do prego está um polícia que se aborrece a ver o entra e sai desta gente, e se entretém a seguir com os olhos as mamas da filha da dona do café, que passeia saltitante pela rua acima e abaixo.

Muitos dos que vêm ao prego chegam de carro e deixam-no estacionado em cima do passeio. Cruzam a rua a correr, com uma mão metida no bolso, para que não se escape o tesouro que aí levam, embrulhado num saco de plástico, e saem também a correr e sem olhar para os lados.

Também há os que chegam num táxi, que fica a esperá-los à porta, e que parecem querer mostrar que lá porque estão numa fase de pouca liquidez nem por isso perderam os hábitos burgueses.

E há outros, uns poucos, que chegam a pé e partem a pé, e que raramente vêm sozinhos. Chegam em silêncio e partem a falar alto, quando não a discutir uns com os outros. O dinheiro com que saem não os reconforta, sentem-se enganados. E sabem que o que levaram já não o recuperam mais.

No edifício do prego, pendurado ao longo da parede, está um pai natal, desses que trepam por uma corda e que estão pendurados por tudo o que é varanda e janela. O velhote agarra-se a uma corda escanzelada e lá vai subindo pela parede. Tem as calças largas e quase se lhe vêem as ceroulas.

Na janela do primeiro andar, que também pertence ao prego, está a imagem de um outro pai natal, sorridente, a olhar para baixo, e a rir sem pudor do outro, que nunca mais chega lá em cima e está quase a perder as calças. E o pai natal dependurado lá vai subindo, tão devagar que parece estar parado, e vai rosnando entre dentes: anda, cabrão, ri-te, ri-te, que amanhã choras.

Indiferente ao diálogo sumido dos pais natais, o polícia limpa as unhas da mão esquerda com a ponta da chave e boceja de frio e de tédio.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    E o cívico, com este frio, não se decide?

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