Para acabar de vez com o Natal

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Há uns anos atrás, Woody Allen escrevia um divertido “Para acabar de vez com a cultura” (tradução muito livre de “Getting Even”). Tivesse eu artes de escrita ao nível do cineasta, e idêntica capacidade cómica, e avançava já com um belo libelo: “Para acabar de vez com o Natal!”.

Há quem advogue que esta é mais linda, animada, ternurenta, espiritual e solidária época do ano, repleta de paz e amor. Por mim, sempre a considero a mais hipócrita, irresponsável, favorecedora do instinto consumista e stressante. São menos estas definições negativas do sentimento natalício que as positivas, é certo, mas são mais que suficientes para caracterizar uma época em que uma parte da população age de modo particularmente imbecil.

Por exemplo. A ideia de ajudar os mais pobres nesta temporada, ‘porque é Natal’, soa, em absoluto, ridícula. Os pobres e desfavorecidos não precisam de apoio ou ajuda no resto do ano? Para a maior parte, pelos vistos, não. Durante 360 dias, vá lá, que se safem como podem, esses malandros que não querem trabalhar mas viver de subsídios às nossas custas e uma parte gasta tudo em vinho. Nos restantes cinco dias, temos de ser solidários e ajuda-los, coitados, a vida está dura para todos e eles não têm tido sorte. E um copo de vez em quando não faz mal.

Mais coisas? Ora continue a ler.

Haja ou não crise, há sempre uns trocos para prendas. O 13º mês, para quem o tem, fez-se para se gastar numa quantidade enorme de objectos que uma parte significativa dos recebedores nem sequer aprecia ou quer. Há excepções, claro. Meias e cuecas fazem sempre falta. Não há dinheiro para nada, nem sequer para aquela obra necessária lá em casa, mas para a ‘lembrança’ do costume, há sempre.

Tudo comprado no meio de uma correria infernal, com filas de automóveis por tudo o que é sítio, com o relógio sempre a tinir, horas e paciência esgotadas em espaços a abarrotar de pessoas, tão pouco sorridentes, tão apressadas. Não saberão que é Natal? Não é esta a época mais alegre e animada? Há mesmo quem não tenha espírito natalício…

E chegamos à questão central da festa. Se calhar, a maior parte das pessoas não sabe ou não se lembra mas o Natal tem um fundamento espiritual e, acima de tudo, religioso. É verdade, acreditem. É por isso que nem todo o mundo festeja o Natal. Largos milhões de pessoas não são seguidores da fé Cristã, daí não fazerem parte da coisa.

A festa pretende assinalar o nascimento de Jesus Cristo (já lá irei) mas são poucos, muito poucos, os celebrantes que efectivamente o fazem. A religião surge como algo lateral ao Natal, como se fossem coisas tão díspares que caírem as duas na mesma data não passou de uma pura coincidência. Para os Cristãos, praticantes, porque só os há praticantes (quem não pratica não pode dizer que é Cristão, é como o fulano que diz ser jogador de futebol mas nunca sai do sofá), a festividade tem o efeito espiritual que se impõe. Mas, convenhamos, a maioria passa muito ao lado desta questão. O que interessa é comer, beber e receber prendas. Quem vai à Missa do Galo que coloque o dedo no ar? Quem ouve a mensagem do Cardeal que coloque outro dedo? Bem me parecia….

Ora quanto ao nascimento de Jesus Cristo, vamos à dura realidade: Jesus Cristo, de quem se festeja o aniversário, não nasceu a 25 de Dezembro (sobre isto regressem aqui amanhã que eu explico).

Em muitos casos há o incómodo de ter de partilhar umas horas com alguns daqueles familiares parvos de quem não gostamos nada. Mas, como é Natal, vamos ser bonzinhos, aturar aquela besta e tentar evitar discussões. Se as houver, a culpa não é nossa. Foi ele que começou. E para o ano, juro, não volto a estar à mesma mesa que aquele anormal. Até que no ano a seguir tudo está esquecido. Em nome do espírito de Natal.

Uma amiga da minha mulher, pouco dada a estas festividades, como eu, decidiu criar o MANEPA – Movimento anti-Natal E Passagem de Ano. Eu já aderi. De resto, as inscrições estão abertas. Se partilhar destes ideais, venha daí, junte-se a nós.

Agora, se me dão licença, vou-me embora. O tempo aperta e ainda tenho de contribuir para uma instituição de solidariedade, comprar o bacalhau e umas prendinhas que deixei para a última hora. Adeus e feliz Natal.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Eu compreendo que o Natal se tenha tornado numa espécie de mercado, mas que mal faz as pessoas oferecerem prendas umas às outras? Eu adoro o Natal, gosto da noite cheia de luz, da árvore de Natal, da fogueira nos adros da Igrejas …

  2. maria monteiro says:

    Pois eu gosto do Natal, de comprar pequenas lembranças, gosto de passear nas ruas e ver o brilho das luzes, gosto de ir com o meu filho à missa do galo (sempre à meia-noite), no final distribuição beijinhos e abraços, regressar a casa, beber um chocolate quente, depois ficar a ouvir musica ou ler. Em cada Natal é sempre um fazer memória dos que já partiram e agradecer por aqueles que ainda estão connosco…

  3. Carla Romualdo says:

    Ah, Zé Freitas, aposto que até és daqueles que se vestem de Pai Natal e tudo!


  4. Carla Romualdo :
    Ah, Zé Freitas, aposto que até és daqueles que se vestem de Pai Natal e tudo!

    Não, até não. Cada um tem a liberdade de festejar cada festa à sua maneira. Lamento, mas não sou mesmo grande adepto de festanças deste género. Mas, como todos os humanos, também entro em contradição comigo próprio e lá faço algumas concessões. Sou um fraco.


  5. Como me posso inscrever no “MANEPA”?
    Está quase a chegar ao fim da época em que “todos” querem mostrar que são Felizes.

    Ah!! Não quer partilhar o seu texto na http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/.
    Desejo-lhe um ano “verde”.
    anA


  6. ah, mas como eu lamento só agora ter lido esta belíssima reflexão sobre esta quadra do ano! Ainda assim parabéns e voltarei a esta bolg com certeza! Estou com o MANEPA, embora não me associe… sou avessa a associações, só manifesto simpatias pelos movimentos!


  7. Estou completamente de acordo com o que aqui li. Aliás o meu contributo para a fábrica foi nesse sentido.

  8. Ricardo Santos Pinto says:

    Ana, nao leves a serio isso do MANEPA. Amigo Freitas, iria jurar que te tinha visto aqui ha uns dias numa troca de…, bem, tu sabes.
    E passagem de ano, tambem es contra? lol

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