Avatar, um filme de cowboys

Habitualmente chego tarde a tudo o que está na moda. Quando já não é novidade para ninguém, quando já é notícia requentada, chego eu. Aconteceu justamente isso com o “Avatar”, de James Cameron, que só agora fui ver.

E fiquei muito surpreendida ao descobrir que, afinal, o “Avatar” é um western. Um western altamente sofisticado, visualmente estonteante, um western no qual os cavalos são pterodáctilos e tudo vem por cima de nós, mas um western.

Daqueles tocados pela veia sensível, em que os índios são seres humanos e os cowboys bons se juntam a eles para derrotar os cowboys maus, e apesar de se saber que os terrenos escondem petróleo, não se viola o cemitério sagrado para os nativos.

Tão western que, no momento mais difícil da batalha, quando tudo parece perdido, eis que irrompe, milagrosamente, a cavalaria, sendo que, neste caso, a cavalaria consiste em criaturas aparentadas com as que existiram no nosso planeta algures no Jurássico.

Mais uma vez o herói – e que americano é este herói – é retratado como os americanos tantas vezes se auto-retrataram: desajeitados, desconhecedores das subtilezas de uma cultura estranha à sua, mas destemidos e de bom coração. Crianças grandes, cujos únicos defeitos são a ingenuidade e o desconhecimento, mas destinadas a repor a justiça e o bem.

Não deixa de ser curioso ver como os americanos vão fabricando essa gigantesca incongruência de ter uma indústria do entretenimento que é a primeira a apontar as iniquidades do aparelho militar e dos interesses mais ou menos ocultos do poder financeiro do seu país.

Colocando-se falsamente contra um sistema do qual é uma parte fulcral, a indústria do entretenimento tornou-se a frente avançada da propaganda que vai vendendo a imagem idealizada do marine ingénuo e de coração puro, que anda pelo mundo a pisotear com botarras o solo sagrado dos povos nativos.

Mas saiba um nativo – ou uma bela nativa – falar-lhe ao coração e raios nos partam se não havemos de defender esta terra com unhas e dentes!

À parte essa agenda habitual, parece-me que vale bem a pena ver o filme. Os efeitos são deslumbrantes, a técnica do 3D já avançou muito desde o monstro da lagoa negra, e fiquei ainda com mais vontade de ver a “Alice” do mago Burton.

Comments

  1. maria monteiro says:

    Ainda não estou convencida o qb para ir ver o Avatar

  2. Iscas says:

    Há aqui uma cowgirl que não entendeu bem o movie…

  3. Luis Moreira says:

    Eu vou quando vier das estranjas…

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