A grande feira

Quando à descrença se junta a indignação, dificilmente se reserva o devido lugar, o devido espaço, à lucidez. O actual momento político e social que se vive é um claro exemplo disso.

Tem-se feito muita confusão sobre coisas distintas, a começar pelo papel e legitimidade de instituições da República e dos órgãos de comunicação social, passando pela substância política e partidária do momento.

As suspeitas que se estão a lançar sobre o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), não têm qualquer fundamento: as escutas a José Sócrates foram consideradas ilegais e bem, ao abrigo da Lei Processual Penal vigente. E, também, correcta a ordem de as destruir, pois o que é ilegal não deve produzir efeitos. Outra coisa, são todas as demais escutas, que têm vindo a ser publicadas, nomeadamente pelo semanário “Sol”, e de cuja análise se pode concluir a existência de um plano para controlo da comunicação social em benefício da governação de José Sócrates. Destas escutas, sim, deveria já o Procurador-Geral da República (PGR), no caso de concordar com tal concepção do alegado plano, agir e abrir o respectivo inquérito criminal. Se não concorda, deverá explicar porquê. Tal não cumpre ao Presidente do STJ, que fez o que deveria fazer, no estrito cumprimento da Lei. É ao PGR que cabe esclarecer quem representa, ou seja a sociedade.

Por seu turno, o semanário “Sol” depende, e muito, de capitais angolanos. Espero que tal não esteja a ser, também, um dos fundamentos desta actuação do jornal que, ao invés de pôr tudo, definitivamente, às claras, vai publicando aos poucos. E fazendo “edições extras” em que cobra o mesmo preço a que vende normalmente o jornal com “dvd” e revista. Se as “revelações” continuarem neste ritmo e nesta lógica, acho que começa a cheirar já a despudorado mercantilismo. E espero que as páginas relativas a Joaquim Oliveira sejam publicadas na próxima edição em papel do “Sol” em Angola.

Acresce que não se elege Primeiros-Ministros, elege-se deputados da Nação. De uma vez por todas respeite-se o sistema e a lógica eleitoral tal como se encontra consagrada na nossa Constituição. Entendo, pois, que pedir-se a demissão do Governo não tem sentido. A demissão deve ser, sim, do Primeiro-Ministro, do Chefe de Governo – como já defendi aqui -, cabendo ao PS a responsabilidade de governar e resolver a situação do país que ele mesmo ajudou a criar.

Mesmo porque o PSD não está em condições, nos próximos tempos, de governar. O que muito se deve agradecer à candidatura de Paulo Rangel que veio dividir ainda mais o partido e mostrar que o que se promete (no caso, seria cumprir o seu mandato no Parlamento Europeu) vale o que vale, pois pode-se sempre usar o trunfo do apelo à salvação da Pátria pelas especiais condições do país. Em questões de carácter, como tem vindo a ser posta a tónica em relação a José Sócrates, também Paulo Rangel já mostrou o seu. Principalmente a Aguiar-Branco.

Por fim, o argumento do Primeiro-Ministro mentir no Parlamento, por si só, é ridículo. Só o demagógico populismo dos interesses estritamente partidários, podem justificar semelhante representação de “dama ofendida” por banda da Oposição, que quer tirar proveitos meramente eleitorais.

Quantos já mentiram no Parlamento?

Onde está, então, o moralismo inquisidor social-democrata, quando Durão Barroso levou Portugal para a guerra do Iraque, alegando que lhe foram apresentadas provas da existência de armas de destruição massiva? Já para não falar quando depois fugiu ao compromisso feito com o país.

Já nem falo dos demais partidos da Oposição, para quem a tarefa é sempre bem mais simples: dizer mal é sempre mais fácil do que fazer bem.

De que Europa fala o PCP que votou contra a entrada de Portugal na CEE? Que combateu o despedimento colectivo, mas depois o usou quando encerrou o jornal “O Diário?

Qual é a coerência do CDS-PP, que saltita entre o Centro e a Direita, conforme as conveniências, ou cujos responsáveis trespassam escândalos que envolvem desde sobreiros a submarinos?

O que resta do Bloco de Esquerda, vazio do mediatismo de casamentos homossexuais e afins, além da persistência das lógicas de nacionalização da economia?

Nenhum partido político tem direito em falar de mentira, de embuste. Nenhum.

Não tenho dúvidas que José Sócrates não tem condições para continuar a liderar o Governo. Mas também não tenho dúvidas que o PS deve continuar a ser responsabilizado pela governação do país, e que o PSD – uma vez mais por culpa própria -, não será solução minimamente credível nos próximos meses.

O resto, é como no Carnaval: máscaras e fantasias.

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