Fósforos no vento

Uma das minhas crenças é a de que parte do que somos se encontra perdido por aí e uma das tarefas que devemos honrar no tempo que venha a tocar-nos neste mundo (porque o outro, quem sabe se viremos a tê-lo ou não?) é encontrar cada um desses fragmentos.

Poderá ser um livro, ou apenas certa passagem, ou talvez até uma única frase; poderá ser o jardim interior de uma casa em ruínas, onde se descobre uma fachada de azulejos que resistiu à devastação do tempo; poderá ser a luminosa tonalidade de azul de um quadro com que nos cruzamos nesse museu de província onde entramos para escapar à chuva; poderá ser uma frase melódica, que começa a acompanhar-nos desde que a ouvimos pela primeira vez. Cada um de nós, estou em crer, possui esse mapa de fragmentos a recolher pela vida e poucas coisas me parecem mais tristes do que a ideia de que essa vida se esgote sem que nos tenhamos deparado com pelo menos um deles.

Há anos descobri que um desses fragmentos era, para mim, certo andamento de um concerto de Ravel, e particularmente o momento em que ao longo monólogo do piano se vem juntar o oboé. Por uma sucessão de historietas que tenho vergonha de contar, comecei a associar a aparição dessa música a um prenúncio de boas novas. Teria de ser, isso sim, uma aparição verdadeiramente digna desse nome, não poderia ser eu a buscá-la, teria de ser ela a descobrir-me em algum momento inesperado, quando a sua melodia estivesse longe dos meus pensamentos, e eu nada esperasse. E se, num momento assim, ao entrar num certo local, ou ao ligar o rádio no exacto instante, ela me aparecesse sem se anunciar, então boas notícias estariam a caminho.

Dito assim, sem os floreados que a nossa imaginação é capaz de pôr à volta de tudo o que não foi ainda expressado em palavras, é bastante ridículo, reconheço-o. Mas leva longos anos esta superstição e prevejo que já pouco a poderá afastar, a não ser talvez a repetida e comprovada falta de eficácia.

Há quem guarde o seu particular objecto, acarinhado por muitos anos, quem evite um local ou talvez a repetição de uma frase, ou vista a mesma peça de roupa interior nos dias importantes, ou faça figas com a mão escondida no bolso.

Nem todo o racionalismo deste mundo conseguiu expurgar a necessidade da superstição, a crença mais ou menos envergonhada na possibilidade de que o maravilhoso irrompa pelas nossas vidas e produza uma pequena iluminação, um fósforo riscado no vento, capaz de iluminar a noite mais escura.

Não será por isso, contudo, que iremos cruzar os braços, ou remeter-nos à credulidade pouco exigente, ou desistir daquilo que queremos, esperando mansamente que no-lo entreguem à porta. Apenas aceitamos a possibilidade do inesperado, do acaso feliz, do encontro inspirador. E esperamos ter a sorte (será essa a palavra adequada?) de que um pequeno desvio, operado por mãos invisíveis no momento certo, nos recoloque no trilho.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Não há razão para vergonha. Eu andei a vida toda a somar toda a série de nuḿeros que me aparecia a ver se dava nove (9) (noves fora =nada!) Grande dia, esse em que encontrava esses números. E verificar mentalmente se eram “números primos”? Nem dava pelo tempo…

  2. maria monteiro says:

    eu quando era miúda contava os carros vermelhos no percurso casa/escola… se fosse par era sinal que o dia ia correr às mil maravilhas… bom nem sempre funcionava e então quando era dia de testes era ver a protecção a fugir de mim

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