A entrevista de José Sócrates ao JN

Quando José Sócrates entrou para o gabinete onde geralmente reune com a imprensa, já o Director do JN, José Leite Pereira, o esperava. Vestira o seu melhor fato para a ocasião, comprado de propósito na melhor loja do edifício Avis.
– Boa tarde, sr. Director – disse o primeiro-ministro.
– Muito boa tarde, sr. primeiro-ministro -José Leite Pereira levantou-se atarantado para cumprimentar o primeiro-ministro, mas logo se pôs na posição original. Atabalhoado, deitara abaixo um pass-partout com a foto de um projecto que José Sócrates acarinhava especialmente, o da moradia de Valhelhas, dos tempos em que era técnico na Câmara da Covilhã.
– Peço desculpa, sr. primeiro-ministro.
José Sócrates dirigiu-se ao seu lugar e, sem querer, calcou José Leite Pereira enquanto passava por ele.
– Peço muita desculpa, sr. primeiro-ministro.
Sem tempo para conversas de circunstância, José Sócrates foi directo ao assunto:
– Sr. Director, não sei se o nosso amigo Joaquim falou consigo…
– Falou, falou, sr. primeiro-ministro. Aquilo das perguntas que os putos da redacção andam a fazer, não é? Peço muita desculpa, sr. primeiro-ministro, mas a rapaziada nova tem sangue na guelra. São jovens, têm a mania da independência e não têm medo de ninguém. Às vezes, nem eu tenho mão neles. Mas para já está resolvido, sr. primeiro-ministro. Pu-los a fazer a cobertura da transmissão do Loto 2.
– Óptimo.
– A do Euromilhões não, que aquilo dá na TVI e nunca se sabe…
– Agradecia que não me falasse desse canal.
– Tem razão, sr. primeiro-ministro, não volta a acontecer. Peço muita desculpa. Pensei que as coisas estavam melhores, agora que está lá o Júlio. Nunca mais falaram do Freeport!
Sócrates arregalou-lhe os olhos.
– Peço muita desculpa, sr. primeiro-ministro.
– Olhe lá, não deixar publicar aquela do anúncio a pedir um blogger que me apoiasse foi um tiro no pé, não acha? Claro que aquele Ricardo Santos Pinto, esse sujeitinho ordinário, ia logo aproveitar.
– É um porco, sr. primeiro-ministro, é um porco!
– E depois publica aqueles anúncios do «relax». Não é muito coerente, pois não, isso?
– Pensei que não ia gostar do anúncio, sr. primeiro-ministro. Foi por si. Peço desculpa, sr. primeiro-ministro.
– Foi por mim, foi por mim, mas eu é que fico mal no retrato.
– Peço muita desculpa, sr. primeiro-ministro, não volto a repetir.
– Bem, vamos começar a entrevista. Onde é que está o outro jornalista, o que vai fazer as perguntas difíceis para dar sinal de imparcialidade?
– Deve estar a chegar, sr. primeiro-ministro. Seja como for, fui eu que escrevi as perguntas dele. Já as enviei ontem, sr. primeiro-ministro.
– Eu vi. Bom, vamos começar.
– Quando quiser, sr. primeiro-ministro.
– Ó homem, ao menos levante-se. Vai estar de joelhos durante toda a entrevista?

Comments


  1. Bestial, Ricardo!

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