A mim não guiará a igreja.

A propósito do post de A. Pedro Correia, e aludindo ao comentário de “Odisseia” eu diria que a mim não guiará a igreja, em nada. Quanto à responsabilidade da igreja e do papa nos abomináveis crimes de pedofilia, venha quem vier e diga o que disser para aligeirar as coisas, que isso não passa de uma tentativa de atirar areia aos olhos de quem vê.

Em primeiro lugar, a carta do papa tenta focalizar, intencionalmente, esses sórdidos actos na igreja da Irlanda, como se de  uma situação endémica se tratasse, quando todos sabemos que eles invadem como uma epidemia quase todos os países e continentes.

As vítimas e muitas outras pessoas ficaram indignadas, porque as palavras do papa não são de molde a criar em nós um sentimento de credibilidade na sua sinceridade e naquilo que ele diz e sente. E compreende-se essa incredulidade dado ter sido este papa, quando cardeal Ratzinger,  um dos que mais se empenharam no encobrimento destes crimes, criando, nomeadamente, por escrito, há já alguns anos, normas, regras e directrizes, tácticas e estratégias, ministráveis aos membros do clero, no sentido de os ensinar a encontrar a melhor forma de esconder, escamotear e evitar o conhecimento e as denúncias de tais casos. 

Em segundo lugar, se a sociedade civil tem sectores profundamente porcos e abjectos, e tem grande responsabilidade em crimes deste teor e tem de pagar por isso, a igreja tem uma responsbilidade cem vezes maior, porque isto é a negação da essência de toda a sua doutrina e a antítese da santidade, da pureza e de tudo o que ela prega.

Ao comportamento imoral da sociedade em geral, não pode atribuir-se o mesmo grau de culpa moral que se atribui ao comportamento imoral de uma igreja que se quer santa e pura e tudo faz para expandir, através da mais despudorada hipocrisia, este princípio da santidade. Uma coisa é o abuso e a perversão sexual com crianças, patricados por um quaquer anormal ou qualquer indivíduo da mais baixa formação cíviva, humana e moral, outra coisa é esse crime ser praticado por um padre ou um bispo da igreja católica, e outra coisa ainda bem pior é o facto desses odiosos crimes serem praticados por milhares de membros do clero em todo o mundo.

Uma coisa é o monstro austríaco, outra coisa é um monstro, padre, com centenas de horas de registo pornográfico com crianças e bébés, ou um padre que abusou de 200 crianças surdas. Segundo o “The New York Times”, este foi apenas um dos milhares de casos que os bispos fizeram chegar ao Vaticano e à Congregação para a Doutrina da Fé, presidida pelo cardeal Ratzinger. Mas, em situações destas, não é difícil aceitar que o que nós sabemos é apenas o que saltou da panela com o levantar do testo.

Portanto, a todos os que, de uma maneira ou de outra, procuram desculpar a igreja, tapando o sol com uma peneira e abafando o mau cheiro com todos os expedientes, dos quais o mais comum é “são calúnias”, eu digo, deixemo-nos de cócegas e perguntemo-nos se será mesmo este o representante de Deus (?!).

Lembrem-se que as vítimas foram filhos e netos confiados à igreja, a maior parte meninos desvalidos e desamparados, e podem vir a ser ainda mais filhos e mais netos, sobretudo os mais infelizes e carenciados, mas também podem vir a ser os nossos filhos ou os nossos netos.

Esses criminosos têm de ser entregues à justiça, e o papa tem de mudar ou substituir com toda a frontalidade e não com perdões e desculpas, as torneiras que vertem essa água pestilenta e não andar a tentar tapar os buracos com betume ou papel mastigado, os quais estão constantemente a rebentar. O papa tem de cortar a parte podre da igreja, se ela quiser sobreviver com alguma dignidade. De outra forma, a igreja arrisca-se a perder toda a credibilidade, pelo menos aos olhos de quem é lúcido, sério e inteligente.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Não há desculpas!

  2. Fui ler o comentário de “Odisseia”…
    Uma pessoa moralmente decente (por muito que lhe custe) não pode atacar para defender “os seus”…
    É lastimável que alguns Católicos se comportem como claques de futebol…
    Deviam isso sim, serem os primeiros a apontar o dedo e a exigir o castigo!

  3. Talvez... says:

    Não precisa que ninguém o guie. Faz muito bem nesse aspecto.

    Deixo, contudo, sem tentar defender nada nem ninguém, uma ligação para um artigo (?) que talvez ache interessante (ou não), mas que é diferente daquilo que se costuma ler.
    Um artigo (?) que se poderia referir a propósito deste post

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