rebobina-me, mãe

filha que foge desencontros dos pais, no melhor esconderijo, colo da mãe

Esta é uma história real Acontece sempre. Texto que tinha guardado, mas vi-me obgrigado a publicar por motivos privados. A menina era assim, antes de entender de desencontros, mas procurei esta foto inocente para defender os seus direitos.

Os senhores leitores devem estar habituados a ler o que escrevo sobre os direitos das crianças. Não apenas por eu ser membro da Amnistia Internacional e colaborador da organização Human Rights Watch. O motivo real é, fundamentalmente, porque as crianças não têm apenas direito à paz, à alegria, à calma, ao respeito por parte dos pais, mas também à capacidade de serem entendidas por eles e de receberem respostas adequadas à idade da sua epistemologia.

O direito mais importante de uma criança é o de ser entendida dentro do que é a sua experiência, dos seus conceitos, luta infatigável que tenho empreendido ao longo dos anos e que me tem levado a escrever imensos livros sobre as crianças. Tenho vivido com elas na Europa do Norte, Europa do Sul, em África e na América Latina. Em todos esses sítios aprendi que a criança vive obrigada a suportar os desafios entre adultos, que mal entende. Como Maria. Que adora a sua mãe e o seu pai, que gosta de ser aconchegada por eles, de receber palavras doces e meigas, de brincar à Tölkien com os adultos e não gosta de ser sistematicamente afastada da presença dos seus, com seu querido e pequeno discurso de amor e de procura de protecção.

Os senhores leitores leram, certamente, um outro ensaio de debate, em que defendi os pequenos de ataques sexuais. Mas, os desencontros emotivos entre os pais, não são só um ataque à sua dignidade de ser humano, ao seu saber, à sua capacidade de amar e entender a esse. Outro escolhido pela criança? Sim, a criança é social. Sim, a criança partilha a vida com outras. Sim, a criança aprende também do mundo fora do lar. Mas, mais uma vez, esse mundo de fora, não é uma guerra que temos à porta, não é um debate entre os donos do mundo? Como é que essa criança é capaz de entender tamanha realidade que paira no quotidiano, se a sua epistemologia não é embalada, acarinhada, explicada, desenvolvida pela atitude alerta dos seus pais e dos outros membros do seu lar? Direito central de entre todos eles.

Não foi em vão que Maria disse um dia à sua mãe: rebobina-me e deixa-me entrar em ti outra vez, para que tudo torne a ser como era antigamente; para estar contigo e com o pai; para estar aquecida no teu corpo, para que me oiças dia após dia, para estarmos eternamente juntas e que tu e o pai, na espera de mim, estejam contentes porque não sabem quem sou eu, não faço barulho, não estou presente no vosso caminho da vida. Rebobina-me mãe, e deixa-me esconder dentro de ti. Maria não sabia de Lynne Murray e Liz Andrews, de Melanie Klein, de Daniel Sampaio, de Alice Miller em deste escritor que vos fala. Sabia da sua dor. Da sua profunda tristeza por estar no meio de uma bagatela, não essa de Beethoven, op.35:Für Elise, mas dos pais, que não tem chave de tonalidade. Esses que nunca souberam distinguir entre serem pais e serem cônjuges, como já falei noutro texto. Sabia, sim, que precisava ser amada, ouvida, passeada, correspondida. Maria queria e quer colo. Maria queria e quer apoio. Fugiu para a sua experiente avó, capaz de a acolher, avó que não percebeu que um grito dela aos pais de Maria, incutir-lhes-ia fortes reticências, por causa da avó ser, principalmente, mãe.

Maria, será que a solução é rebobinar todas as Marias de todos os sítios do mundo? Rebobinar, conceito criado por Maria que, como Human Rightes Watch, acolhi e desenvolvi no meu livro O Caos da Criança. Maria é co-autora, tal e qual é autora de si própria. Epistemologia da criança, Direito Universal Inalienável dos mais novos que os adultos estão obrigados a entender, respeitar e aceitar.

*dados retirados do meu trabalho de campo durante o ano de 2002.

Bibliografia:

•Iturra, Raúl, 1994: Échec Scolaire ou École en Échec ? Têtes dures, têtes vides, L’Harmattan, Paris.

•Iturra, Raúl, 2002: O caos da criança. Ensaios de Antropologia da Educação, Livros Horizonte, Lisboa.

•Iturra, Raúl, 2002: “A epistemologia da Infância. Ensaio de Antropologia da Educação” in Educação, Sociedade e Culturas, Afrontamento, Porto.

•Klein, Melanie, (1961) 1994: Narrativa da análise de uma criança, Imago, Rio de Janeiro.

•Tolkien, John, 1954: The Lord of the rings, Faber, Londres.

•Miller, Alice, 1987: The drama of being a child, Virago, Londres. Há versão castelhana em Tusquets, Barcelona.

•Murray, Lynne e Andrews, Lynne, 2000: The social baby, CP Publishing, Surrey.

•Sampaio, Daniel, 2002: Lições do Abismo, Caminho, Lisboa.

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