O vício da actualidade

Da comunicação social às conversas de família, da blogoesfera às redes sociais, a actualidade domina. E o seu domínio, ao ritmo avassalador a que se tem acesso à informação, mal permite reflectir.

Até hoje não fui capaz, em consciência, de escrever sobre o PEC por uma razão muito simples: não o li.

Obviamente que o facto de não se conhecer algo de forma directa não é, hoje em dia, impeditivo de se ter opinião. Mais: de se expressar opinião. Lemos algo aqui, algo ali, algo acolá, e pronto: segundo linhas escritas por diversos punhos, aí estamos, também, nós a escrever umas linhas sobre a matéria. Não importa qual.

Com tanta informação com que somos bombardeados dia-a-dia, hora-a-hora, acabamos por começar a ficar como que imunes, a apesar das tragédias, das catástrofes, dos escândalos. Ora carpimos mágoas ora vociferamos. Tal como aquele que insulta repetidamente um árbitro durante um jogo de futebol porque não pode fazer o mesmo ao patrão ou a um qualquer político. Porque na prática, a saturação de informação leva à banalização da opinião e, pior, das razões. Protesta-se, denuncia-se e acusa-se, mas o que resta é o sabor desconcertante de que nada muda. E ninguém pode dizer que é por falta de informação. Pois não é.

Já há algum tempo que tenho vindo a afastar a minha escrita da actualidade. Pelo menos daquela que é tão efémera quando as circunstâncias ou as conjunturas que a produz.

A actualidade vicia, ao ponto de não passarmos sem ela. Duvido seriamente se boa parte da blogoesfera fosse capaz de escrever sem ler, de publicar sem se “actualizar”. Duvido.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    No geral estou de acordo com o que aqui escreves, mas não quanto ao PEC. O PEC resulta de políticas conhecidas a longo prazo,de medidas tomadas e das não tomadas, situação de diversas variáveis economico-financeiras nacionais que exigem este tratamento ou outros, tambem conhecidos, e que resultam em coisa diferente, conforme a opção. Infelizmente, o resultado actual não é surpresa para ninguem e o que vem aí tambem não. Se lhe acrescermos a situação internacional, bem conhecida desde há pelo menos 5 anos, não há margem para surpresa nenhuma.

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