Estórias de Abril


Após a longa invernia, o tempo cinzento de chumbo, a palidez das faces cansadas pelo frio e fustigadas pelas chuvas inclementes, temos sempre montões de cravos vermelhos, brados de vivas a Portugal!, canções patrióticas e a exaltação de heróis populares, uma parte indissociável de Abril. Há coincidências históricas neste calendário e uma delas remete-nos para os anos também conturbados e caóticos do início do século XIX.

Quando do movimento da Abrilada, os partidários de D. Miguel, os Apostólicos, eram cobertos por cravos vermelhos, uma flor desta estação e com claras conotações religiosas cristãs. A mãe do infante, a rainha D. Carlota Joaquina, comemorava o seu aniversário precisamente a 25 de Abril, altura em que ao passar em carruagem descoberta pelas ruas de Lisboa, via-se bombardeada por braçadas de cravos e sempre no meio de estrondoso vozear popular, alternando-se os ditos encomiásticos, com as canções da moda. O cravo vermelho ia-se tornando num símbolo dos adversários dos constitucionalistas e era comum os soldados serem presenteados com estas flores, procurando-se cativar a essencial simpatia de quem tinha a posse das armas.

Ansioso por se …”ver livre da pestífera cáfila de pedreiros-livres (1)“, a 25 de Abril de 1828, o Senado da Câmara Municipal de Lisboa proclamava D. Miguel como Rei e em delírio, era normal a sua carruagem ver-se desatrelada dos cavalos, sendo puxada ruas fora por populares que entoavam a plenos pulmões o “Rei Chegou!”:

“O rei chegou, o rei chegou!
e em Belém desembarcou;
na barraca (2) não entrou
e o papel (3) não assinou!
C’o papel o cu limpou!”

Tudo isto, no meio de uma chuva de cravos vermelhos atirados por raparigas da rua, senhoras burguesas e da sociedade, numa festa primaveril sem fim à vista e em antecipação aos Santos Populares.
Mais tarde, quando do cerco do Porto e posterior entrada das tropas liberais em Lisboa, a flor vencedora passou a ser a hidranja que aqui na capital se conhece pelo nome de hortênsia. Os soldados de D. Pedro desfilavam pelas ruas, tendo as espingardas decoradas com as ditas flores, invariavelmente azuis e brancas, as cores nacionais.

Estórias de outros Abris.

(1) A Maçonaria
(2) O Parlamento
(3) A Carta Constitucional

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Serviço Público, Nuno ! A mais original forma de escrever do 25 de Abril!

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