Um País Novo…

Era um país de chuva e lama, com caminhos de terra batida fustigada pelo temporal da pobreza e da miséria a fazer de rosto público dos dias, onde os homens e as mulheres levantavam a cabeça na imagem dos valores éticos de então, cansados de fome e de tristeza… Era um país onde o futuro se parecia com a reprodução de si próprio, visto a um espelho estático, contrário à vida e sossegado no reflexo a preto e branco da ausência de expectativas… Era um país sem pão e sem palavras gritadas ao vento, onde a poesia parara à porta das prisões e onde o sonho se elevava apenas sob os véus das senhoras nas igrejas ao domingo, em missas que ninguém ouvia mas que todos cumpriam por bem-parecer, expressão de uma obediência incondicional e cega, sem sentido, à ordem pôdre das coisas que poucos ousavam pensar… Era um país moribundo numa casa a cheirar a mofo, velha, abandonada e fechada sobre si mesma até que um dia “os capitães da areia” atiraram, certeiros, as pedras que lhe quebraram os vidros sujos das janelas empoeiradas… e, pela calada da noite, sobreveio essa luminosa madrugada que, em 25 de Abril de 1974, devolveu a um Povo o direito não só à existência mas, à vida, à liberdade e à esperança! Viva o 25 de Abril!

25 de Abril, Sempre!

  

Comments

  1. Carlos Fonseca says:

    Excelente texto, sobretudo pela qualidade estética e pela defesa de ideais de justiça e solidariedade sociais. De autoria de uma jovem, é prova de que o ’25 de Abril sempre!’ é uma causa intemporal

  2. isabel says:

    Tudo verdae que dizes Paula. Sem dúvida não podemos nunca menorizar, muito pelo contrário o 25 de abril , e se eu menina e moça o vivi . No entanto, não me apraz dizer que 36/48 è pouco numa sociedade e os ventos parecem-me demasiado revoltos… a fome veio, os políticos continual que sabemos, desde as chefias mais altasàs intermédias e o povo no qual me incluo está cada vez menor- amorfo , apático e são o que costumo chamar a geração «continente» que, aos fins de semana, enchem, ou enchiam , os carros de compras e centros comerciais. não estou optimista . bj

  3. Luis Moreira says:

    belíssimo, Paula! Há margem para a esperança. Quem viveu no “antes” sabe do que falo, apesar de haver muita injustiça, não há comparação entre o Portugal de Abril e o país da vergonha salazarenta.

  4. Rita SA says:

    Quando professores se encontram, inevitavelmente surgem perguntas como: -Como é que vai a tua escola?” e todo o tipo de novidades e Ahs!. A este propósito e num desses diálogos verifiquei que numa escola em Cascais e fazendo o balanço do que ouvi -porque não consigo ficar calada e os Ahs! foram enormes- passo a explicar.
    Um ano após a tomada de posse da nova Directora, um mundo novo a descobrir nas suas acções
    1ª acção – remodelação do Gabinete da Direcção – a secretária da Directora está num “aquário” a meio da sala. Entre outras, uma novidade: uma funcionária administrativa instalada na antecâmara do Gabinete. Nas portas de acesso surgem dísticos como o que reza: “Não entrar sem se fazer anunciar!”
    Este “pequeno” pormenor arquitectónico permitiu que os objectivos subliminares fossem alcançados: não se tratou apenas de criar melhores condições de trabalho para a equipa, revela-se o paradigma da hierarquização de poderes.
    A postura directiva vai-se manifestando através de atitudes marcadas pela pesporrência anti-democrática (é feita tábua rasa de decisões aprovadas em Conselho Pedagógico); pela prática de mobbing (perseguição a uma professora “diferente” e “frágil”); pelos atropelos ao Regulamento Interno (realização de apenas um CP durante o 2º Período); pela falta de respeito generalizada (os Directores de Turma tomam conhecimento da suspensão dos seus alunos através das informações que são lidas às turmas); pela política de amiguismo e favorecimento (vide horários dos professores) etc., etc., etc..
    O medo instalou-se. Na Sala dos Professores passou a ser “perigoso” manifestar opiniões. Há assuntos de que apenas se fala fora da escola e tem de se ter cuidado, espreitar por cima do ombro, pois “as paredes têm ouvidos”!
    36 anos depois de Abril, a Escola-sede do Agrupamento lembra aos mais velhos a escola salazarista, em que iniciaram as suas carreiras (nesses tempos, pelo menos, sabia-se com o que se contava!).
    As represálias são uma realidade.
    O anonimato não é uma cobardia.
    Denunciar é urgente!
    Viva a Liberdade!


  5. Bom texto, Ana Paula. Só é pena que o povo nada tenha entendido da magistral lição do 25 de Abril.


  6. Lindo texto. Poesia em prosa.
    E viva o 25 de Abril, aquele que nunca acaba, aquele que todos os dias vamos construindo.

  7. Ana Paula Fitas says:

    A todos os que comentaram este texto, o meu abraço amigo, fraterno e solidário 🙂
    Muito obrigado pelas vossas palavras que, em 25 de Abril de 2010, tornam, mais uma vez, possível, a esperança!
    Viva o 25 de Abril e todos os que dele souberam retirar a sua “magistral lição” (Adão Cruz), os que sabem que “há margem para a esperança” (Luís Moreira) mesmo quando “os ventos parecem demasiado revoltos” (Isabel) e se constata a autoridade gratuita do “paradigma da hierarquização dos poderes” (Rita Sa) … porque o 25 de Abril “é uma causa intemporal” (Carlos Fonseca), é “aquele que nunca acaba” (Nanda). Vamos continuar a construção do futuro sonhado!
    25 de Abril, Sempre!

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