nas dissertações, nós ou eu?


meditações sobrejúri de agregação de Ricardo Vieira, ISCTE, Março 2006

…para Ricardo Neve Vieira, o meu melhor discípulo….

Umberto Eco, no seu livro Como se Faz Uma Tese em Ciências Humanas? recomenda o uso do nós. Existem outros que exigem esta posição aos seus orientados e ainda outros que não se manifestam, sendo-lhes indiferente. Mas, contudo, quando a natureza dos estudos tiver uma componente etnográfica e porque o trabalho etnográfico vive do eu do investigador? (Silva, 2003, p. 71), e também porque todo o texto etnográfico deve sempre utilizar a primeira pessoa do singular? (Ball, cit. ibidem), parece-me que será mais indicado seguir este caminho. Como as características da abordagem qualitativa se confundem com as características do método etnográfico, sendo esta comparação acentuada na obra de Bogdan e Biklen (1994), de Caria (2002) e de Silva (2003), não fosse a referência à descrição profunda? (Bogdan e Biklen, 1994, p. 59) ou ao vocabulário diferente? (ibidem), onde acrescentam que actualmente os investigadores utilizam o termo etnografia quando se referem a qualquer tipo de estudo qualitativo, uma vez que ambos acentuam a vertente descritiva relativamente a conversas e pormenores com pessoas e locais, o uso do eu numa investigação predominantemente qualitativa (intensiva) tem todo o sentido. Outras das razões é a coerência descritiva, e evitar alguns contra-sensos sem qualquer lógica, como por exemplo afirmar que somos presidentes do conselho executivo na Escola. Parece-me também, que não se deve responsabilizar ou mesmo abusar do orientador, afirmando

que nós vislumbrámos, quando de facto fui eu que vislumbrei. No entanto, a demarcação de qualquer pretensiosismo que esta posição possa sugerir é essencial, pois, na verdade, não pode existir senão humildade em trabalhos com este cariz. Até porque, dados as inúmeras, evidentes e naturais indicações com constantes alertas no sentido de reencontrar o caminho e escolha dos instrumentos mais adequados por parte do orientador, os nós, nesta perspectiva, seria mais apropriado. Ou seja, dever-se-á considerar o eu como sendo um nós, como afirmou, Ricardo Vieira nas suas provas de agregação (15-Mar-2006 no ISCTE), em frente a António Nóvoa, Luísa Cortesão, Raul Iturra, entre outros.

No que se refere à abordagem extensiva (quantitativa), o infinitivo, parece ser o mais adequado, pois trata-se de constatações que todos podem facilmente verificar. Não sou eu nem somos nós, digamos que é quem se der ao trabalho de analisar essas asserções.

Se existir uma triangulação, entendida como uma combinação de metodologias no estudo dos mesmos fenómenos (Bourdieu, 1989, p. 25), entre a abordagem intensiva e a abordagem extensiva, acentuado pelo mesmo autor (ibidem) como uma forma de tornar um plano de investigação mais sólido, não deverá chocar ninguém ver os géneros correspondentes em cada uma das partes.

Referências bibliográficas:

•BOGDAN, Robert; BIRKEN, Sari: Investigação Qualitativa em Educação. Porto: Porto Editora, 1994

•BOURDIEU, Pierre: O Poder Simbólico. Lisboa: Difel, 1989

•CARIA, Telmo (org.): Experiência Etnográfica em Ciências Sociais. Porto: Afrontamento, 2002

•SILVA, Pedro: Etnografia e Educação. Reflexões a Propósito de uma Pesquisa Sociológica. Porto: Profedições, 2003

Comments

  1. Espero que não se importe, levei para o meu cantinho.

  2. Raul Iturra says:

    Importo-me. Primeiro, por não ter solicitado licença aos proprietários do texto, AVENTAR. É uma falta lesiva ao copyright. Em segundo lugar, não cita ao autor, aparece como um texto seu. O seu país fica mal com estes roubos
    Aventar é: blogueaventar@googlegroups.com. O autor sou eu, ninguém do vosso grupo, ainda menos a senhora. Eu sou: Prof. Doutor Raúl Iturra: lautaro@netcabo.pt
    Parece-me grave retirar textos sem licença nem citação do autor. Vou dar conta do problema aos meus advogados.
    Tinha a minha morada, era bem mais fácil enviar-me um texto, eu tratava de todo. Agora serão os meus advogados. O seu país fica mal. Aliás, estamos habituados que o Brasil nos retire textos da nossa autoria sem citações.

  3. Raul Iturra says:

    Cara Rosa,
    Teria o maior prazer de que o meu texto for útil para os seus leitores. Aliás, se quiser uma monografia minha, sobre Etnopsicologia da Infância, diga, envio uma cópia para a sua morada electrónica.
    Permita-me acrescentar que a minha equipa e eu ficamos maravilhados de ver a colecção de textos sobre antropologia da Educação, o meu invento trazido desde Cambridge para Portugal

  4. Ricardo Santos Pinto says:

    Claro que não nos importamos, cara RS. A blogosfera é mesmo isto: partilha de saber e de conhecimentos. O Aventar agradece.

  5. Raul Iturra says:

    .Ainda bem, Rosa e Ricardo, que as leis ficaram estabelecidas e já sabemos o das trocas. NO ENTANTO, no aceito que um texto meu apareça como escrito por outra pessoa, como estava quando reagi como os diabos. A minha SPA o não permite…
    Tudo esclarecido, já podemos ir en frente e continuo a oferecer a Rosa essa monografia prometida de etnopsicologia

  6. Ricardo Santos Pinto says:

    Não aparecia como estando escrito por outra pessoa. Tinha o link para o seu texto no Aventar, ou seja, dizia que era seu. Devia ser um orgulho que outros blogues reparassem em nós. Mas cada um tem a sua opinião.

  7. Quando um texto é colocado entre “mnvb”, julgava eu tratar-se de uma citação de alguém, pretendi com o link fazer essa citação oficial …. juro que não o farei mais, para não existirem interpretações errôneas porque “o português é muito traiçoeiro”, diz-se ….
    Obrigado pela compreensão Ricardo Santos Pinto.
    Obrigado pela sua atenção Prof. Doutor Raul Iturra.

  8. Ricardo Santos Pinto says:

    Claro. Aliás, aqui no Aventar só tivemos conhecimento porque teve a amabilidade de colocar o link para nós. muito obrigado.

  9. Origada, Luis Moreira.
    Mais uma vez, obrigada Ricardo Santos Pinto.

Trackbacks

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