Agrupamentos Escolares

quem sabe é quem decide e não um pombo

Continuação do meu artigo intitulado Senhor Primeiro-Ministro publicado em 23 de Junho último.

Transferir-se de um país para outro, nem simples nem fácil. Sim Senhor, bem sei que falta o verbo dentro da frase anterior, mas está escrito propositadamente. É uma frase de final de decisão. Na Grã-Bretanha não tinha mais nada a fazer, excepto educar as minhas catraias, que estavam já educadas. E caso fosse necessário, bastava apenas apanhar um avião e resolver os problemas, como fiz, ou traze-las para Portugal, como também fiz. A vida debruçava-se entre dois pontos. Dois pontos diferentes entre si. Como tenho reiteradamente dito, no Reino Unido estava tudo feito na vida escolar e académica, em Portugal tudo estava para ser feito. Pareceu-me que era o meu destino, ficar em Portugal. O que acabou por acontecer até ao dia de hoje.

Nenhuma decisão deve ser tomada de forma precipitada e sem dados. Percorri o país todo antes de optar e encontrei a minha tarefa: a educação. Folheei livros, falei com especialistas, andei nos arquivos, pernoitei em aldeias e, nestas andanças, reparei que havia sítios em que a escola era uma casa pequena, apenas com uma pessoa a ensinar e quatro ou cincos discentes a aprender, todos de diferentes cursos. A docente (eram sempre senhoras) que encontrava em sítios tão afastados e solitários, a adrenalina, típica dos Senhores, não lhe permitia andar entre poucos estudantes, mas, o docente, precisava sempre de uma claque que o apoiasse e lhe dissesse que era o maior, que era quem mais sabia, especialmente fácil de entender e que sabia tanto de bola, como de geografia. O que esses meninos e meninas não sabiam, era que ele lia os livros de ensino antes deles, ou liam juntos o que ele não sabia e os discentes, também não. Escolas todas que ficavam fora da aldeia, no meio de um mato húmido, que nos servia de base para passearmos enquanto aprendíamos a botânica conhecida pelos mais novos. Esses novos que não sabiam os títulos que os livros de ciência, escolhidos pela burocracia do Ministério, mandavam estudar.

Visitei os sítios mais isolados do país, tal como escolas da Grande Lisboa, do Alentejo e do Algarve rural; aceitei, também, convites especiais de escolas secundárias. Desiludido  pelas palavras comuns, por mim usadas para cativar a audição dos estudantes. Pedia-lhes, a título de exemplo, que me explicassem o que era a poda de uma videira, de uma oliveira ou de uma alfarrobeira, quais as diferenças no tratamento dos animais e, perto do fim, fazia uma lista com as palavras-chaves que o Ministério mandava aprender. Para, depois, irem para a Universidade ou para o desemprego, ou voltarem à terra para nela trabalharem, como intitulo um dos meus livros dos anos 90, do século passado.

Visitei os sítios que os meus orientados de teses de pós graduação, trabalhavam com os estudantes, a quem transmitiam, com palavras simples e no local, o que era preciso fazer com a natureza, como se construíam as casas, a classificação das plantas e, simultaneamente, tomavam notas das palavras usadas por eles para entenderem esse entendimento do real por meio de palavras vulgares. Como Amélia Frazão Moreira fez em Cotas, aldeia de Vila Real, na qual morava, recorrendo ao nosso método de observação participante. Quem mais aprendeu, foi ela. Como Berta Nunes em Os Vales, Alfândega da Fé. Como muitos de nós, na escola de Vila Ruiva. Excepto Humberto Telmo Lapa Caria que, com santa paciência, ao longo de um ano, observou como os professores ensinavam numa escola C +S.

Em todas elas deparei-me com o mesmo quadro. Era desolador. A inexistência de interacção com estudantes da cidade ou de outras escolas da mesma vila. O que fizemos foi levar os nossos estudantes, com o prévio acordo de docentes de escolas da cidade, para assistirem às suas aulas. Mas a timidez dos nossos era tão grande, que o ensaio foi suspenso. Era necessário entrar pela porta grande de uma matrícula, residir perto da escola, visitar as casas de amigos e parentes, andar nas ruas cheias de carros e aprender a forma citadina de designar as coisas e os seus elementos.

O Senhor Bispo de Lamego está preocupado com esse encerramento de escolas com poucos estudantes. O Senhor Bispo não repara que a interacção com meninos/as de outros sítios, abre as portas ao entendimento e não retira o amor aos pais, que continuam a ser os mesmos, abrindo, sim, as portas a outro tipo de sentimentos. Porque a vida de vila, aldeia e cidade, é diferente. A concorrência em «concentrações escolares» cria uma procura pelo mais alto valor da nota, orienta as crianças de fora a entenderem formas novas de falar e de se pensarem e verem dentro da sua família: não separa, junta e ensina entre pares. O mais duro pode ser esse envergonhamento que aparece ao comparar pais rústicos, com pais com carro e fatos.

Mas, não é isso o que a educação procura, uma corrida ao lucro e à mais-valia, que as escolas pequenas não podem ensinar e os residentes da aldeia, por serem jornaleiros, não entendem?

O Senhor Bispo de Lamego devia ouvir Ratzinger, como ler Wojtila e entender que, embora seja pecaminosa, a corrida ao capitalismo é o objectivo infeliz da nossa sociedade. Ratzinger louva Marx no seu livro de 2007: Jesus de Nazaré, por ter sido o único cientista a entender a alienação que causa o capital, mas nenhum dos dois Papas entendem que o socialismo é o que pode ensinar a igualdade e a solidariedade, sem punição nem pecado, como dizem os seus textos, chamados catecismos. Acabam por condenar o capitalismo pelo lucro, e o socialismo, por ateu.

Até onde eu entenda, nem um nem outro se pronuncia sobre os conteúdos ideológicos. Bem ao contrário, temos um socialismo solidário pelas causas dos trabalhadores, e um capitalismo, como dizem Marx e Ratzinger, que aliena. Como é essa alienação de viver sempre encerrado numa aldeia, sem colegas para debater o que se estuda.

Confio no que fazem os nossos órgãos de soberania: sabem os seus objectivos, e, em curto prazo, querem fazer de Portugal uma Holanda e uma Galiza rural urbana.

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