para os amigos que se importam comigo

mãos amigas

..para a minha  Graça Pimentel, que tem tomado especial conta  de mim….

A lista de pessoas que denominamos amigos parece-me que deve ser muito curta. Se assim não for, ficamos desiludidos quando, nos dias de mais urgência por causa de doença ou de solidão emotiva, essas pessoas não se lembram de nós. Defini amigo pela negativa no meu ensaio de 28 de Setembro último. Até acabar na parte positiva, na frase em que digo: Os amigos são os que não nos conhecem e, no entanto se interessam por nós. Os que nos acompanham sem pedir nada em troca. Eis porque prefiro esta definição: esse que vem do latim, latim amicus: adj. s. m.

que ou quem sente amizade porque está ligado por uma afeição recíproca = companheiro ≠ inimigo. Que ou quem está em boas relações com outrem ≠ inimigo, que ou quem se interessa por algo ou é defensor de algo (ex.: amigo dos animais). Como os do Aventar, que sem nunca me terem visto nem em fotos, são capazes de enviar mensagens de ânimo para arrebitar-nos.

No entanto, podemos parecer injustos. Deve haver muitas pessoas que nos fazem bem e não o divulgam. Agem em silêncio a nosso favor, mas não divulgam o bem que nos fazem entre outras pessoas. Eu diria que agem em silêncio, apesar o nosso reclamar

de amizade e de abandono. Essa é uma injustiça. Devemos reconhecer e aceitar dois factos: o amigo é quem nos favorece sem dizer nada a ninguém, nem ao implicado; o amigo é quem deseja o nosso bem, mas não o pode manifestar por falta de tempo. O amigo é quem tudo abandona para estar connosco, sem referir a perca de tempo para os seus assuntos. O amigo é quem tem respeito e sentimentos positivos por nós e nada diz e nem se queixa se somos injustos, duvidando da nossa amizade. Para encurtar, o amigo é quem nada diz, favorece-nos e não fica zangado se nós o acusamos de distância e falta de companhia.

Vivemos num mundo de liberalismo, não apenas económico, mas também das emotividades. Infelizmente, eu sou um maldito conservador que desejo que a pessoa que amo estejam sempre ao pé de mim, o que é impossível: têm sempre coisas a fazer, deveres a cumprir e essa falta de tempo, pelo imenso trabalho que lhes cai em cima. Ou, simplesmente, fazem como nós: fecham-se em casa a reflectir e escrever os resultados das suas pesquisas, como eu próprio faço. Ignoro e depois queixo-me. Como essa mulher que amo, que os seus ciúmes não a deixam em paz e eu aceito. Como esse meu estudante que, quando em trabalho de campo, lhe pedi para me tratar por Raúl, o que não aceitou porque, e cito: parece-me que o Senhor Professor é dos que abandonam as pessoas…as esquece…. Hoje em dia sabe que não é assim, mas não sabe como estabelecer uma relação cortada sem motivos. É verdade que, anos depois, houve uma grande reciprocidade, colaborando comigo em todos os empreendimentos que apareciam na minha cabeça.

Devemos reconhecer também, que somos pessoas ansiosas no angariar de amizades, esquecendo que há hierarquias sociais que não permitem uma relação íntima. É o meu caso: por causa dos mal fadados graus académicos, dos livros que escrevo e pela orientação, a torto e a direito, de pessoas que procuram uma pós graduação, uma certa distância deve ser mantida para ter autoridade não de saber, bem como de demonstrar que se sabe e que a nossa orientação vale um peru, como diz Mozart no terceto do primeiro acto de Cossi fan tutte, a primeira ópera bufa apresentada nos palcos, em Janeiro de 1790.

Como reconhecer também que a Boaventura da nossa vida académica faz de nós pessoas que exibem os seus achados e os seus textos. Falamos de nós, pensamos em nós, centrámo-nos em nós, exibimo-nos. Se assim tenho feito, lamento e peço desculpa dentro deste texto endereçado às pessoas que se importaram comigo em dias de ansiedade e de doença, sem dizer nada. E as que estiveram comigo por pura simpatia, pensando que eu estava a falecer. A amizade é essa reciprocidade de quem faz tudo por nós e nada refere aos outros. Como a mulher que amo, o meu secretário e a senhora que trabalha em minha casa e me acompanha nos piores momentos de exames médicos.

É para todos eles este ensaio. Se fui soberbo, peço desculpa. Se choraminguei muito, lamento imenso. Apenas sei que estava – uma confissão – morto de pânico pelo mal que me sentia e pelos exames a serem feitos nos meus fragilizados corpo e espírito. Se não fosse esse calado apoio, não teria subsistido.

Amigo, em consequência, é a troca recíproca de emoções, ideias e pensamentos. Especialmente em dias como os de esta semana, em que comemoramos a República de Portugal. Se não houvesse solidariedade entre os seus organizadores, ainda estávamos numa monarquia.

A lista de amigos é curta e silenciosa. Todos os outros são colegas. Companheiro na mesma colectividadecoletividade, profissão ou funções, em especial na classe civil e eclesiástica (na classe militar emprega-se geralmente o termo camarada).

Devo informar que estou em plena recuperação com a colaboração de três pessoas que nunca me abandonaram e têm-me ensinado o que é a amizade: é dar tudo de si, sem esperar recompensa, como fazem as lindas meninas que trabalham no ISCTE-IUL, na hoje denominada secção de Recursos Humanos, e a nossa inestimável secretária, sempre preocupada comigo.

Mal recupere as forças, lá estarei outra vez.

Muito obrigado!

Comments


  1. Não o conheço, mas confesso que simpatizei com o senhor, melhor dizendo, Senhor Doutor. A aprendizagem tem sido uma constante da minha vida, que não tem sido fácil. E como sempre digo: “O que não me quebra, fortalece-me!” Sou um osso duro de roer, confesso! Estou solidária com seus pensamentos ou desafabos. Na minha curta história de vida, já percebi o verdadeiro valor da AMIZADE; e também percebi que, num ápice, dos muitos amigos, ficamos sem nenhum!
    Despeço-me, por ora, com um poema, desconheço o autor; que seja, pelo menos um consolo para a sua alma:

    AMIGOS SÃO COMO MÚSICA
    Entram na vida da gente e deixam sinais.
    Como a sonoridade do vento ao final da tarde.
    Como os ataques de guitarras e metais presentes em cada clarão da manhã.
    Amigo é a pessoa que está ao seu lado e você vai descobrir, olhando fundo, que há uma melodia brilhando no disco do olhar.
    Procure escutar.
    Amigos foram compostos para serem ouvidos, sentidos, compreendidos, interpretados.
    Para tocarem nossas vidas com a mesma força
    do instante em que foram criadas, para tocarem
    suas próprias vidas com toda essa magia de serem músicas.
    E de poderem alçar todos os voos, de poderem vibrar com todas as notas, de poderem cumprir, afinal, todo o sentido que a eles foi dado pelo Compositor.
    Amigos são músicas como VOCÊ.
    Amigo tem que fazer sucesso.
    Mesmo que não estejam nas paradas.
    Mesmo que não toquem no rádio.

    Um grande abraço e muita luz e paz em sua vida!

  2. Raul Iturra says:

    Querida Carla, obrigado pela paciência de ler meo ensaio. É assim como aprendí também a estar sempre só. O texto é uma ironía sibilante….
    Cumprimenta
    Raúl Iturra
    lautaro@netcabo.pt

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