Sermos Avós

metáfora de sermos avós queridos e simpáticos

…para os meus netos Tomas e Maira Rose filhos de Cristan Van Emdem e Paula (née Iturra) e May Malen e Bem and forthcoming kids, filhos de Felis Isley e Camila (née Iturra)…

Foi um telefonema longínquo. Da nossa filha mais velha. Disse-me: – nasceu! Era o dia em que eu apresentava mais um livro sobre crianças, na Cidade da Guarda, com Daniel Sampaio. Fiquei sem palavras. Como era evidente, tinha estudado crianças ao longo de dezenas de anos. Com amor e paciência, em silêncio e com orgulho paternal. Como me era habitual, tinha solicitado aos mais novos, desde o primeiro dia, detalhes sobre a sua genealogia. Fomos construindo esse precioso documento entre os

Picunche da Cordilheira dos Andes, as crianças da Freguesia de Vila Ruiva, na Beira Alta, e, ao longo de vários períodos de tempo, normalmente um ou dois anos de cada vez, na Paróquia de Vilatuxe, na Galiza. Sítios diferentes e distantes. Em todos eles, as crianças vinham ter comigo no dia seguinte com o diagrama da composição do lar. Perguntava-lhes: – Quem te contou tudo isto? A resposta habitual era: Eu só, conheço a minha família. Retorquia eu: – mas é assim tão pequena? A mais esclarecida das crianças sabia dizer que não, que havia mais familiares noutros locais da terra. O meu pedido habitual era para trazer um grande lençol de papel com a família toda. Lá iam as crianças e dia após dia, o lençol ia sendo acrescentado. À medida que os acréscimos iam aumentando o «lençol» e perante e mesma pergunta: Quem foi que te contou tudo isto? A resposta de todas essas crianças, de países diferentes, distantes e de línguas diferentes – luso português, luso galaico, mapudungum (1) e castelhano pré cordilheira, era unívoca: eram sempre os avós que guardavam a memória da família. Não por escrito, mas ficava para sempre ao fazermos esse grande lençol. Lençóis de papel que guardo comigo, de tantos sítios visitados, transferidos para os meus livros.

Mas, uma coisa é essa alegria de sermos pais, outra, completamente diferente, é subir na hierarquia das relações de família. Sermos pais, é o cuidado de amamentar, acarinhar, vestir, ensinar, passear, ter a atenção concentrada nos trabalhos dos nossos descendentes e tomar conta dos amigos que venham a ter, se ou não convenientes e adequados. Como relato na minha Monografia de 2008, em formato de e-book, Mis Camélias – Recuerdos de padres interesados (2). Esse trabalho dura até ao dia em que a nossa descendência cresce e apenas consulta a nossa memória de como é criar os filhos. Para nós, pais interessados, respondemos com cuidado e sem receitas: nós fizemos isto, quanto a ti, deves saber como correm os tempos, diferentes do dia em que eras criança.

É o papel do laku e da chuchu ou kudé papai entre o clã picunche da Nação Mapuche da Cordilheira dos Andes, que estudei ao longo de dezenas de anos. É esse ver, ouvir e calar, esse dia que é apenas para os avós estarem com os filhos dos filhos e contarem histórias do capuchinho vermelho ou de como era a infância dos seus pais. A infância inteligente e paciente, não essa infância dos berros e do não estudo, essa é a memória que deve ser guardada até os nossos próprios filhos a narrarem E, se for preciso, desenhar caras paterno/materna, levar para a casa um neto se os nossos filhos precisarem, mas educar como eles fariam se estivessem presentes. Para não cortar laços, para guardar a memória do carinho desse pai/mãe necessariamente ausentes. Ser laku é um papel muito sério, não é para brincar nem para, às escondidas dos nossos filhos, corrompermos o comportamento dos nossos netos.

No dia que fomos laku e kudé papai, a minha mulher e eu passámos a ter esse imenso cuidado de não falar para corrigir, se os pais estão presentes; se ausentes, fazê-lo à moda dos pais. No dia sagrado dos avós, uma vez por semana, como Daniel Sampaio me tem confidenciado e relata num dos seus livros, toda e qualquer tarefa fica de parte, como nós fazemos com Tomas e Maira van Emden, e com May Malen I Isley, ou teríamos feito com Bem I Ilsley, se não tivesse entrado na eternidade uma hora após o seu nascimento. Os nossos filhos passaram a ser crianças durante um tempo. A kudé papai foi a mais importante, como mãe da mãe frustrada.

Naquele dia na Guarda, desse ano de 2000, ao saber que era laku, não parei de escrever livros para os nossos mais novos saberem como eram os seus pais quando tinham a sua idade. E para eles saberem como são as outras crianças. Passei a ser um pai distante e um avô sempre disponível conforme os cânones dos nossos descendentes. É assim que penso, é assim que faço, porque os adoro profundamente.

1 Abuela paterna y sus nietos: kuku / Abuela materna. Sus nietos y nietas: chuchu / Abuelita: kudé papai (dicen así los niños). Abuelo paterno y sus nietos: laku / Abuelo materno y los nietos del mismo: cheche.

2 Iturra, Raúl, 2008: Titulo : Mis camélias

URL: http://www.monografias.com/trabajos917/camelias-etnopsicologia-infancia/camelias-etnopsicologia-infancia.shtml.

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