as minhas memórias-15-tu e eu e depois todos nós

estudantes de todo o mundo trabalham para desnvolver o si país

Decorriam as férias de verão, éramos estudantes, supostamente a descansar durante um período de três meses, divididos em dois grupos participávamos nos trabalhos do campo com os camponeses da Cordilheira dos Andes e, paralelamente, um grupo alfabetizava, enquanto o outro, preparava as matérias das cadeiras deixadas para exames. Eram raros os que aprovavam. Muitos os que alfabetizavam. O dormir em tendas de campanha no chão, comer o fornecido pela população rural, receber ajuda da Cáritas, Amnistia, ou Governo, ou, ainda das nossas famílias, era uma surpreesa para todos nós. Assim íamos construindo escolas e abrindo caminhos, enquanto retirávamos ideias das actividades observadas e as devolvíamos definidas, desenvolvidas, com palavras e ideias novas. Não era apenas ensinar a ler e a escrever, mas sim, a entender, como Paulo Freire nos ensinara. Tínhamos entre 18 e 22 anos. Éramos arquitectos,

antropólogos, sociólogos, enfermeiros, professores, médicos, advogados, etc., ou ainda o seríamos um dia.

As nossas famílias pensavam que éramos tontos; irmos no frio da noite e no calor do dia; sermos amigos de pessoas que não conseguiam entender as nossas formas de vida. Perfumados e penteados durante o ano académico, de “jeans” e cobertos de pó durante o Verão. Os mais sedutores, pensavam que era uma época para namorar, mas nem havia tempo: trabalhava-se no duro, com ferramentas para semear e tomar conta do gado, desde o amanhecer até à hora da choca (ao entardecer preparavam-se os textos), altura em que começava a alfabetização, quer a dos iletrados, quer a nossa: mal conhecíamos as formas de trabalho da vida rural ou das aldeias. Mas, com persistência e ao longo do tempo, a prática da alfabetização fez de nós pessoas revolucionárias, irrequietas, em busca da democracia. Em grupo, começamos a entender o populismo, a igualdade, as ideias de Babeuf do Século XVIII, esse que mudou a vida económica na passagem da servidão para a procura de igualdade, fraternidade e liberdade. Três princípios que, ainda hoje, são desconhecidos em muitas latitudes, nomeadamente entre parte do operariado europeu, a vida rural e os lugares em que trabalhámos na América Latina durante a nossa curta juventude, que acabava sempre com o começo de uma nova família.

Foi assim que a vi: éramos 299 e entre nós encontrava-se uma convidada que queria entender a vida fora da Europa, das cidades e das salas de vida facilitada pelas viagens, as Embaixadas, a música clássica. Mal a vi, virei-me para o amigo que me tinha pedido para a convidar (eu era o líder daquela vida que combinava estudos e aprendizagem alfabetizada), e sem hesitar um segundo, afirmei: esta vai ser a minha mulher. Assim aconteceu. Criámos filhos, tratámos de netos e aprendemos a ser pais. Como a alfabetizar na Cordilheira dos Andes. E a saber conviver o convívio entre nós, enquanto passava o tempo.

Até que o tempo passou, toda a gente cresceu e cada um de nós começou a entender a vida para ensinar novas crianças que apareciam. O fim do estrelado aconteceu, passou a ser a vida autónoma e a imitação da vida, aprendida na nossa própria alfabetização. O que aos vinte anos ensinávamos, hoje, aos 60, devemos aceitar como comportamento que deve ser corrigido, fruto da nova era. Por isso, Tu, Eu e a seguir todos nós, em solidariedade, damos as mãos, especialmente no Natal.

Esses trabalhos de verão, na Cordilheira, traziam o frio da noite e o insuportável calor do dia para colaborar no desenvolvimento do país, e os namoros que acabavam em matrimónio enganoso como diria Dom Bartolo no 2º acto da ópera da Verdi O Barbeiro de Sevilha, Ária que arrancava aplausos ao dizer: a calúnia é um venticello…

Assim foram os matrimónios resultantes dos trabalhos de verão: guardávamos a ilusão das escolas construídas, das pontes feitas, dos cantos à noite: uma fantasia que, a seguir, acabava em divórcio, como aconteceu com tantos de nós. A ilusão ia morrendo. Eu continuei sempre, mas a minha família parou.

Contudo, ai ficaram os sindicatos rurais que passaram a legais nos anos 60, as escolas feitas de tijolos, que nem os piores terramotos conseguiram derrubar, feitas e desenhadas por arquitectos e construtores, ou estudantes prestes a adquirir esse grau, a literacia espalhada pelos nossos pedagogos, e os primeiros auxílios que os estudantes de medicina ensinavam aos que se feriam e nada podiam fazer, não sabiam, ou iam ao centro de primeiros auxílios, sítios que era tudo o que o Estado podia proporcionar. Outros estudantes ensinavam como manipular os aparelhos para curar, ou ensinavam mesmo a tratar as feridas adquiridas no trabalho, melhorar pneumonias, ou, simplesmente, ensinavam os projectos de leis sindicais, trabalho que era o nosso, de advogado.

Toda a actividade era dupla: por causa do trabalho nos campos, durante o dia, os trabalhadores não podiam aparecer. O ensino era à noite, durante duas horas por causa dos jornaleiros e das suas mulheres estarem muito cansados. Acordavam de madrugada para as regas de hortaliça, que se processavam por turnos pelo único canal a qual tinham direito a usar: era terra de sequeiro, e os proprietários das terras dos latifúndios retiravam toda a água possível para os seus quintais e para os banhos de banheira ou de piscina. O Chile é um país classista e altamente hierarquizado: os grandes proprietários manipulavam as vendas dos seus produtos no estrangeiro, e tinham pessoas no Congresso, para promulgar leis da sua conveniência, se não fossem eles próprios os políticos do poder legislativo. Quem nunca era eleito, eram os sem terra, que nem sabiam ler nem escrever, que trabalhavam à borla, em troca de um pedaço de terra cultivada pela família. Eram e são proletários rurais.

Era no calor do dia, quando os jornaleiros não estavam, que construíamos escolas, casas, pontes e o centro médico. Eram férias bem passadas, no sentido de serem dias positivos, em que aprendíamos nos debates as matérias em que haviamos falido. Quem mais soubesse, ensinava aos outros e como as leis existiam em todas as profissões, tive a oportunidade de ensiná-las aos meus colegas de outras profissões e, reciprocamente, aprendi com eles as suas áreas. Famoso foi o caso desse dia em que os construtores me ordenaram pregar o teto de uma escola: será o chefe, saberá muito, mas também tem que aprender a trabalhar com as mãos. Contente e feliz, comecei a martelar. Toro feliz, dizia eu: é tão fácil! Em meia hora preguei toda uma meia água de um teto. Nem reparei, de tão feliz com a minha nova aprendizagem, que toda a minha equipa estava parada em frente de mim e a rir. Perguntei: o quê? Hoje não se trabalha? Rindo, ajudaram-me a descer do teto e mostraram-me a minha brilhante obra: a parte do teto que eu pregava, chamada meia-água, estava a cair, apenas segura pelos imensos pregos que, alegre e a cantar, pensava ter pregado nas traves que suportavam o teto e as paredes de um a outro extremo da sala. O único senão, como nunca tinha feito esse trabalho, foi ter feito mal a tarefa, e os pregos deslocados, seguravam essa parte do teto… e a mim! Nem caí nem fiquei ferido…excepto na alma. Disseram-me de imediato que eu era muito inteligente, sabia muito, mas para pedreiro não prestava… Deram-me a ideia de ir de casa em casa, para falar e instruir as pessoas e organizar romarias com o povo. Foi assim que o povo, católico, foi perdendo o medo de nós e da imensa casa onde vivíamos, passando a enchê-la, aos fins-de-semana, para saber mais.

Durante mais de cinco anos presidi aos estudantes, tratado com respeito, namorava, mas esse Tu, e Eu e depois todos nós, acabou em menos tempo do que o canto do galo. A minha namorada detestava esses trabalhos, mas eu ia e ela ficava só. Era razoável que se cansasse de mim….

Foi nessas aldeias de Los Andes, que descobri a minha vocação, acabei com as Ciências Sociais e do Direito e tornei-me Antropólogo nas Universidades de Edimburgo e Cambridge (Grã-Bretanha) e continuei os meus trabalhos de campo, como devia ser, com a especialidade doutoral em Etnopsicologia da Infância.

Continua…

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