um hipotético adeus

um hipotético adeus

Quarenta espingardas foram levantadas para disparar. Para disparar sobre o meu corpo. O objectivo era acabar com a minha pessoa. Para não pensar mais, para não escrever mais. Para não sublevar ou levantar o povo ferido pelos burgueses. Para não usar mais o livro Êxodo da Bíblia, atribuído a Moisés.
Livro que descreve a passagem do povo israelita pelo deserto do Sinai, na sua fuga do Egipto, onde eram escravos dos faraós. Como os trabalhadores do Chile onde havia um Salvador para os libertar e muitos de nós, a apoiar essa salvação. Quarenta espingardas se alçaram sobre o meu corpo, para eu não pensar mais ou pregar homilias com os cristãos para o socialismo, que tínhamos fundado para falar na mesma língua do povo.

Era o dia 18 de Setembro de 1973, o dia em que se comemora a liberdade do país da escravidão à coroa de Espanha. Era o 173º ano da libertação, perto da comemoração dos duzentos anos da liberdade total. O dia das denominadas glórias nacionais: a 18 de Setembro de 1810, declarava-se a liberdade do país, após grandes lutas contra os usurpadores, que o Chile, ainda reino, teve que conquistar e levantar as armas para ser soberano após oito anos de luta contra um invasor que queria tornar, mas foi corrido pelas tropas criollas, essa palavra que significa espanhol nascido na colónia, ou espanhol cruzado com a Nação Mapuche, os proprietários da terra invadida. Terra que passou a pertencer aos monarcas de Espanha e a ser governada por um Vice-Rei que morava no Peru, sede do vice-reinado, que representava aos ladrões da terra Mapuche. Esse Vice-Rei, por estranha casualidade, pai do libertador do Chile. O pai era Ambrósio O´Higins, o filho, Bernardo O´Higgins Riquelme, quem correra fora do território americano, aos usurpadores. Ganharam e foram soberanos, Argentina primeiro, Chile a seguir, e a terra do pai, Peru, junto com Bolívia e Equador. Lutas ganhas em apenas oito anos de corrida. A hoje América do Sul, ficou livre entre 1809 e 1823.

Vertiginosos eram os pensamentos, que eu rememorava, enquanto as armas me eram apontadas, a mim. Filho de espanhóis monárquicos, da Corte da Rainha de Espanha, fui a entender as ideias de Salvador e o seu materialismo histórico. Ideias baseadas na teoria de Marx, que passaram a ser minhas. Os fuzis a ameaçar, levam a pensar rapidamente e percorrer 173 anos de história dentro de escassos minutos entra a vida e a morte. O motivo era simples: calavam mais um lutador pela liberdade, como tinham feito sete dias antes com o Salvador de apelido Allende.

No dia prévio à hipotética partida e adeus às armas da liberação, mais de trinta soldados entraram na nossa casa, queimaram mais de dez mil livros armazenados após tê-los adquiridos na Grã-Bretanha, na Espanha, na cidade de Talca no Chile e em outros países. Livros para estudar, ensinar, pesquisar e dar como herança aos nossos descendentes. Consegui resgatar cinco, todos do Século XVII, escritos pelos prisioneiros Incas, os Quechua do Peru e do Equador, e do nosso paleontólogo, o Abade Molina, ainda comigo todos eles, junto aos recuperados que fazem da minha casa, um sítio de investigador, cheio de papéis recolhidos em trabalho de campo ou etnografia, textos escritos pelos camponeses que ensinámos. Tinha sido enviado a saber como era o socialismo em liberdade, pelo meu director de Cambridge, Sir Jack Goody que, em conjunto com o meu amigo recentemente falecido, o Bispo Carlos González Cruchaga, tiveram que lutar imenso para me resgatar do campo de concentração, onde estava à espera de ser fuzilado. Para me entreter, pensava estas ideias. Tinha já estado em prisão, a nossa Mãe admiradora da Rainha e que com ela almoçava, foi-me visitar, com uma mensagem do pai que leu, e que si estava ali, era pelas minhas felonias contra a República e que bem merecia ser morto. Como toda a monárquica e conservadora família. Nunca mais o vi, esse admirador do nazi alemão.

Dentro dos meus pensamentos, entrara esta ideia: por boa causa morro. Bem sabia que ia deixar uma viúva socialista, filha do General da Força Aérea do Chile, convidado do ditador alemão, uma pequena órfã inglesa, e outra no ventre da mãe.

Bem sucedidos foram os britânicos e o Bispo. Mais tarde, o PM da Grã-bretanha, Billy Calagham. Minha pequena família tinha sido proibida de sair do país, mas o PM britânico as resgatou.

As armas nunca mais disparavam, a minha paciência esgotava-se. Mas quando vi que as armas eram retiradas para disparar ao meu corpo e foram disparadas ao ar, eu fiquei pior que estragado: porém, agora… que?

Aterrei em Londres, fui feito prisioneiro e interrogado, mais uma vez, até me rebelar e bater sobre a mesa: eu não sou um fugitivo político – grande mentira, trabalho na melhor Universidade, quem me enviou e resgatou dos nazis chilenos, dessa denominada Prússia do Sul, que eu deprecio, tenho os meus graus britânicos, os membros da nossa família têm representado o Chile perante a Sua Majestade a Rainha, perguntem a ela, mas deixem-me em paz…!

A impressão dos cinco polícias do aeroporto de Heathrow, ficaram de boca aberta pela minha firmeza e deixaram-me em paz.

Os adeuses, nunca mãos houve despedidas nem encontros. Mal apareceu a minha família, começamos uma vida nova. Acabada a carnificina no Chile, 30 anos depois do pretenso fuzilamento, fui convidado pelo PR a visitar o Chile, dar conferências, condecorado duas vezes e não há ano que não tente voltar.

Apenas que a crise portuguesa tem-nos sem dinheiro, sem ordenados, não posso ir! Como ninguém pode no meu novo País, fui feito português pelos serviços prestados à nossa República lusa, onde espero bem falecer, e dar as minhas cinzas às minhas duas filhas, aos meus seis netos e, se aceitar, a minha ex- mulher, recentemente divorciada de mim, a mãe dos nossos filhos, a Avó dos nossos netos…

A República do Chile, não me matou; a de Portugal, deu-me a honra de ser luso Por quanto tempo? Mas, um Adeus, nunca mais!

Acabam assim os meus segredos da minha vida pessoal. Que o Nuno Castelo-Branco responda, ele me desafiou a escrever partes da minha memória…

Fiquemos em paz e com palavras para a escrita, o meu adorado perdão…

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