O imaginário das crianças: Os silêncios da cultura oral – Capítulo IV

Capítulo IV

Vejo e não entendo, pergunto e não sabes. O processo de aprendizagem

Tu fazes, eu observo

Quando falava deste tema a um conjunto de antropólogos de outro país, um deles disse: “o professor pensa que os pequenos são como Kant, racionais; mas os pequenos, se alguma coisa os caracteriza, são serem ignorantes e terem de obedecer ao que nós, os pais, mandamos.” Calei-me. Não quis responder ao dito académico que de certeza ama o seu pequeno, mas não lhe consegue atribuir mais conhecimento e saber que o que ele tem adquirido no seu doutoramento universitário. Que o pequeno não tenha aprendido que há sociedades de direito materno e sucessão paterna com residência virilocal, não invalida o facto de o pequeno saber que há sítios da casa que ele não pode usar porque pertencem ao adulto, e que há papéis que não pode manipular, sob pena de um castigo duro por parte do pai. Será que o pai observava o filho? Como seria o filho a observar o pai? Como aquelas pequenas que nunca entravam nem batiam à porta do meu gabinete enquanto eu escrevia; essa troca, fruto da observação mútua, que elas faziam comigo, em resposta ou retribuição ao facto de eu nunca entrar nos seus quartos, instalados e organizados segundo o seu imaginário. Essa troca prolongava-se também nas horas a andar de bicicleta, nos momentos em que os seus corpos precisavam de se mexer e de se esticar por sobre a neve, os sítios comuns, onde, com a mãe, ouvíamos, durante as horas que a todos pertenciam, os poemas inventados, os instrumentos numa escala mais baixa do que a partitura indicava; e um trocar de olhares, com um sorriso aberto e silencioso, passava a ser o maior facto da aprendizagem que elas podiam fazer. Assim como debater o que se gosta e não gosta de comer, ou a questão de haver vida depois da morte, para podermos tomar sempre o chá juntos. Ou a certeza de que um ou outro progenitor ia estar à saída da escola para conduzi-las ao lanche em casa, não sem antes fazer a costumeira entrada na loja do vendedor de guloseimas onde um casal de idade avançada conhecia os rebuçados de limão que preferiam.

O Joel ficava ao pé do pai lendo em silêncio livros de aventuras, por ambos requisitados na carrinha-biblioteca da Gulbenkian, que uma vez por mês passava pela aldeia, Vila ruiva. Enquanto o Miguel empurrava o carro de mão, o sorriso e o olhar sereno do pai, assim como a falta do grito da mãe, davam-lhe a força necessária para conduzi-lo com habilidade, com a Marta (v. Genealogia 1) sentada em cima da carga, e a boa recepção da avó, em casa, que tinha o jantar pronto para reparar a fome da tarde. A Suzana (v. Genealogia 9) não conseguia entrar em casa sem ouvir o grito do pedido de silêncio do pai, e o humilde “chiu” da mãe, para não despertar ainda mais tempestades entre eles. Ou o David, que conseguiu deixar de ouvir os gritos entre pai e mãe, quando o pai reparou que a porta da casa familiar da mulher estava fechada com tranca, e teve de ir, calado, dormir a outro sítio.

O David, nessas primeiras noites, não dormia, e o Bento começou a fazer chichi na cama; ambos ficavam a saber que o novo lar para ver o pai era o café por ele frequentado. O David nunca viu o seu pai partir as pedras na pedreira, mas aprendeu do irmão materno da avó, e da irmã desta (v. Genealogia 2), a tomar conta da terra, a guiar o tractor e a regar os repolhos. O Joel pedia autorização aos pais para ir ver trabalhar os avós com os animais, enquanto ele, como relata nas suas composições, aprendia a guardar, trocar e vender, no armazém, as garrafas necessárias para o café. Se o Joel nada sabe da terra, sabe, no entanto, receber pagamento pelo consumo e fazer os trocos, virtude aprendida da mãe; a pequena Lúcia recebe o “comer” da mãe substituta, a Carla (v. Genealogia 13), enquanto a mãe pergunta o que é que foi que a pequena comeu. O que comeu é por todos comentados, como se a pequena irmã da Carla fosse o jornaleiro que alimenta o corpo para depois trabalhar ao sol ou à chuva. Cada um dos pequenos, como o Jorge de Cotas, cresceu no meio da conversa do movimento quotidiano dos corpos a cumprir as obrigações que o seu trabalho impunha. Nenhum deles trabalhou num lagar a pisar uvas para preparar vinho, porque os pequenos corpos não pesam o necessário para esmagar com eficácia, nem suportam os odores alcoólicos do processo de fermentação. Saber como se faz o vinho, isso sabem, através das brincadeiras no lagar vazio, contudo, com o perigo de haver ainda sumo que embebeda, pelo que as mulheres se encarregam de mantê-lo fechado para os pequenos não entrarem.

Como essa única bebedeira que a minha irmã apanhou, ainda, pequenita. Ficou curiosa com uma pinga que saía de um imenso barril armazenado na adega da casa. Bebedeira que deixou a pequena dama a dormir na palha fresca e confortável que cobria os tijolos do chão, perante o bom tino da mãe de não a acordar. Assim, aprendeu a lição pela dor de cabeça que teve depois. Pode assim o leitor ver mais um caso em que uma relação específica entre os pequenos e os seus pais é uma lição que ensina comportamentos e o valor dos elementos. É o que eu gosto de denominar aprendizagem pragmática.

Pode também o leitor ver como os pequenos manipulam livremente o mundo que conhece e, cautelosamente, o mundo da descoberta que, pouco a pouco, fazem da vida. Ainda sei do silêncio do Miguel quando entrou na escola no primeiro dia, a conversa alegre e desconfiada do Joel e do David quando chegaram a casa dos professores, amigos dos pais, e a surpresa de todos eles quando tiveram de formar fila, escolher secretária e companheiro de banco para todo o ano, e ter de começar a responder formalmente em pé, com as mãos atrás do corpo, às questões colocadas, perante uma massa crítica de ouvintes: os colegas. Surpresa para corpos habituados a estar sempre a mexer, a falar, a criticar, a bater. Massa dividida em dois: a que bate e ameaça e a que denuncia aos professores as injustiças de que se sente vítima. Injustiças aceites ou não, conforme seja quem fala – se o filho do jornaleiro, se o filho do informático. Como já tenho dito (Iturra, 1990 e 1994) e se pode inferir dos dados (v. Genealogias 14, 16 e 18), quem vai à escola é a genealogia, não o indivíduo. E é essa própria genealogia que um dia não é capaz de responder ao imaginário que começa a formar uma nova inteligência na pequenada que entra na escola. Os Miguéis, os Joéis, os Davides, vivem no mundo do processo – quer dizer, das relações que estimulam respostas espontâneas quer a outros quer a situações perante a natureza. A instituição é o mundo da estrutura, da reiteração do que se faz sem se saber porquê, do que se ouve sem explicação dos antecedentes; é uma experiência que se vive fora do mundo habitual, vivida numa época em que a noção do tempo está a ser formada.

Não vejo, não entendo

Um dia, os pequenos descobrem que os adultos nem tudo sabem, e o grupo social fica dividido, heterogeneamente, entre aqueles em quem se pode confiar para algumas matérias, e os outros que, para esses efeitos, é melhor ignorar. O que o imaginário do pequeno não entende é a mágoa entre adultos, como a primeira classificação que deles se faz: mágoa entre os seus, mágoa entre os de bairros diferentes. Porque um dia descobre que o seu sítio não é uma unidade nem uma distribuição familiar das terras. Há os sítios dos que têm mais terra, dos que têm menos, dos que arrendam, dos que trabalham fora. Nenhum destes factos acarreta surpresa, mas amplifica o entendimento do imaginário em formação. Proprietários e empregados – ou jornaleiros, como gostamos de chamar a quem trabalha por dia e recebe uma quantidade de dinheiro, estimada de acordo com o valor do seu trabalho: eis o princípio discriminatório da igualdade entre adultos, que passam a ser heterogéneos e não fiáveis em todos os aspectos. O Joel diz claramente: “o meu pai, de agricultura, nada sabe”, e fica de braços cruzados como qualquer outro cujos pais talvez saibam; porque o do Miguel é pedreiro, o do David também, o da Eunice é rendeiro, o da Carla empregado da CP.

O que não se vê não se entende, porque não há quem explique. O real onde os adultos empregam as suas funções acaba por ficar longe do sítio onde a pequenada mora. A mente cultural tem, pois, uma terceira via, separada da via dos adultos que é de forma diferente daquela que os intelectuais apresentam. Até aos anos 40 do século XX, a maior parte dos bairros e aldeias, mas especialmente as aldeias, era um sítio fechado, com poucos proprietários e muitos jornaleiros que ou viviam do trabalho diário ou tinham terras alugadas a troco de dinheiro (poucos) ou bens (a maioria). A partir dessa época, e por acordos multinacionais, os vizinhos começam a sair para terras estrangeiras, onde cada moeda ganha, triplica, quintuplica ou aumenta mais ainda a unidade portuguesa, o escudo. Com um sistema a desagregar-se, o proprietário senhorial precisa de vender terras para manter a sua posição hierárquica, as terras são colocadas no mercado, os direitos transferidos, o senhorio distanciado e os que trabalham para os senhores que ficam, fazem destes últimos padrinhos dos seus filhos, para poderem manter alianças. No caso de Vila ruiva, Cotas, Vales, albergaria, Vilatuxe e, provavelmente, outros sítios, a antiga unidade monolítica que existia abre-se a todos os países do mundo, através das multinacionais, a emigração, o Tratado de roma de 1958, e a recente União europeia. Abre-se, enfim, à moeda, à livre circulação de pessoas, à aliança reprodutiva entre sociedades secularmente afastadas. Em consequência, o que a criança vê é cada vez menos perceptível; porque o que vê, como diz Caroline Brettel (1986), são as viúvas que ficam. Não só em Portugal, claro. No mundo inteiro, os fluxos de população vão-se deslocando de um sítio para outro. Aos Estados Unidos chega, em massa, a carne reprodutora; sistemas inteiros transformam-se, como o italiano. As movimentações de pessoas levadas de um sítio para outro, para assegurar a produção em nome de salvar a vida, acabam por concentrar população proveniente de sítios diversos num mesmo país. A África guardou, como colónias minoritárias internas e dominadas, parte de seus antigos governantes invasores que aí ficaram a residir; a América Latina importou labregos da Europa Central e da Prússia, no século XIX; só as aldeias de partes da Europa, como a denominada do sul, parecem manter as raízes intactas, mesmo depois das invasões de Napoleão feitas para expandir a ideia liberal.

Há população que permanece para assegurar a continuidade de pessoas que devem ser criadas para serem um dia adultos que também criam, e a população da diáspora que sai por longos períodos de tempo para ganhar dinheiro. O pequeno não entende que o que existe não é apenas a emigração para economias com moeda mais forte, bem como para sítios onde há postos de trabalho, pagos em dinheiro. Ir para outro país – o imaginário da criança não sabe –, é sair do sistema hierárquico que define e baliza a troca e a converte em dádiva.

A maior parte dos antigos jornaleiros tem o privilégio de pretender passar a ser igual aos seus antigos senhores – como a lei define –, através do ritual do baptizado, onde o antigo empregado entrega parte do seu tempo e força do seu corpo – horas compensadas com prestígio, tratamento igualitário de “comadre-compadre”, acesso livre à casa e às pessoas; enquanto o antigo senhor faz o donativo ou a doação da sua pessoa, da sua estirpe, da formosura da sua mobília, da discrição do seu trato, do silêncio com que trata as pessoas, do conselho que sabe dar. Nas ideias que formam o real, transformado em representações que se sentem, pensam e agem, isto é, na representação das emotividades, forma-se uma comunicação de sentimentos, ideias, palavras, agires, que colocam lado a lado dois tipos diferentes de seres humanos: o frágil, que por séculos só andou a gerir, estudar, pensar, mandar, fazer contas, organizar a etiqueta da inter-relação;  o forte, que estava e ficava ao ar livre, no trabalho, no frio, no calor, na capacidade de transformar a natureza em bens.

Não entendo, mas faço

Não entendo que a riqueza que chega ao meu país seja extraída de bens que, em países africanos, são produzidos por etnias que vivem pobremente. No texto de geografia (1994, 9.º ano), fala de “contraste de crescimento” (p. 84) e explica-se à pequenada (com a qual convivo faz já nove anos), que a interdependência é cada vez maior entre países, centrando a ideia no denominado crescimento económico, definido como “a economia de cada país depende mais do que se passa em todo o mundo” (p. 84). No mesmo texto, ficam meninos e meninas a saber que a explosão demográfica e a urbanização criam problemas ambientais de difícil solução. Nenhum dos conceitos aparece definido para essa idade pré-púbere, que é capaz de entender distâncias, separações, troca de dinheiro, valor de moeda, vagas de trabalho. Em texto nenhum se fala do conceito de propriedade dos meios de produção e de apropriação do resultado do trabalho. Fala-se de que as reservas se esgotam, e definem-se as mesmas como reservas energéticas, minerais e alimentares; o plano da política económica proposta é o de racionar bens de consumo, explicando ainda, com maior ênfase, em vários outros textos, que não há crescimento sem poupança. Esta última frase é até difícil de acreditar, mesmo de entender, para seres humanos cujo objectivo de vida é a poupança que traz o crescimento das suas próprias famílias e individualidades. A interdependência dos países é feita através da circulação dos produtores, em idade de gastar o seu corpo no trabalho. Por que há vagas para portugueses em trabalhos com bons salários? Não se entende, mas faz-se. Ninguém se pensa como um peão de indústrias apropriadas ou como propriedade dos mais privilegiados. Alemanha, Suíça, Luxemburgo, França e Inglaterra são, para todos, países de encantar, de maravilha, onde, ainda que não se entenda a língua, parece haver um mistério no governo e nas políticas educativas, económicas, que rendem. O que rende é para ser investido no pequeno país com o qual a pessoa se identifica, o seu bairro, a sua terra, o seu lar, dentro da sua aldeia. Isto é uma mercantilização das relações que aparecem desde os anos 30, quando o estado novo português inventa e cria um sistema que vende os seus cidadãos, da mesma forma que compra indivíduos das etnias das quais etnocentricamente se apoderara já no século XVII. Amílcar Cabral, em 1972, dizia já: “onze milhões de africanos estão submetidos à dominação colonial portuguesa… apesar da presença de grandes riquezas naturais, algumas das quais são exploradas pelos colonialistas, os africanos têm um nível de vida inferior ao mínimo vital. A sua situação é de servos no seu próprio país… 99,7% da população em Angola, Guiné, Moçambique é considerada ‘não civilizada’.”

Esta ideia fica até ao dia de hoje entre a população democrática portuguesa, que constitui mais uma província ao pé das chamadas ultramarinas. Quais as províncias? Cabo Verde, guiné, são Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Macau, Timor, goa, Damão e Diu. A base desta existência foi a expansão da fé e a comunicação da civilização, ideia que se manteve até à retirada das tropas em 1974 e o começo de uma colaboração para o desenvolvimento dos denominados PALOP, países que em nada são comparados aos da Europa do norte. É só agora, hoje, e a pouco e pouco, que em Portugal se começa a entender que cada uma das ex-províncias está formada por etnias com reis próprios – os régulos –, religião animista, islâmica ou outras formas de crença e de governo que estão longe do estado central à europeia que ficou nas capitais. Nada disto é entendido ou conhecido pelos pequenos, que entendem que a África é um país de preguiçosos, em guerra, onde é melhor não ir. Aliás, a aprendizagem que a criançada faz sobre isto é realizada no santuário mais próximo, de Santa Eufémia, cujas salas de museu estão cheias de fotografias de vizinhos e parentes que, durante 14 anos, foram enviados à guerra denominada colonial e que ou voltaram bem ou voltaram inválidos ou lá ficaram. Os poucos adultos que estiveram na África nesses tempos lembram com heroísmo o que lá fizeram. A aprendizagem do contexto histórico que os explica é, para a criançada, ou muito distante no tempo ou fazendo parte de uma história que é narrada pelos adultos como factos ultrapassados com valentia. Com tudo, Santa Eufémia é o texto que ensina aos pequenos aquilo que acabam por não aprender em sítios tão distantes e remotos como as suas aldeias. No quotidiano não se fala do assunto; dedica-se mais tempo a pensar na Europa do norte e nos lugares onde o dinheiro é obtido. Aliás, a perda de África, como conjunto de colónias, tem passado a ser um luto, como diria Ana Sotto-Maior (1994), que ainda não foi feito. A África é, para algumas pessoas, um continente de lembrança triste e ruptura. Mas, no seu conjunto, para as crianças, é uma história que não tem nenhum significado. A história que se aprende é a do Portugal denominado continental, ao qual os eruditos das Ciências da educação têm dedicado maioritariamente o seu interesse; excepto no caso dos ciganos e dos cabo-verdianos, ultimamente estudados, quer por grupos de investigadores sociais quer por parte da equipa que oriento em Moçambique, Bissau e Luanda.

Mas a aprendizagem dos meninos e das meninas é também feita a partir das práticas quotidianas que se desenvolvem entre os vizinhos. É este o último parágrafo que desejo dedicar a esta minha preocupação pelo processo educativo. Porque o processo educativo é ensino e é aprendizagem. Mas, da mesma forma que falei no processo de ensino, quero agora passar a referir-me à procura de entendimento que os pequenos provocam entre pais tão heterogéneos; pais dos quais a pequenada hoje em dia nem sabe onde trabalham nem o que é que fazem – para além dos seus papéis de resolver os problemas quotidianos que eles apresentam. O imaginário nasce de ver, comprovar, experimentar e integrar o que se sabe, a partir de textos, com o que se aprende no agir cultural. É a integração da mente cultural e do saber do oficial.

Eu faço e aprendo

O processo de aprendizagem não decorre só e apenas do que os outros fazem, dizem, entendem, desenvolvem, debatem, comemoram, inauguram, lucram e apresentam. Decorre, certamente, da combinação de ideais com que o real é representado no imaginário das crianças – é aí que aprendem e é aí que se sabe o que aprendem.

A Carla e a Lúcia têm uma avó que, quando tinha 5 anos, aprendeu um verso, do qual não só nunca se esqueceu como o ensinou a essas suas duas netas e aos outros netos, especialmente à sua Anabela, hoje professora primária por vocação e por persistência do pai (v. Genealogia 13). Ensinou-me também a mim, quando comecei, depois de estudar crianças, a interessar-me pelo que elas sabiam:

“São João foi dizer missa, em grande solidão. Vieram doze apóstolos, à sua mesa lhe deram pão. Venham cá os meus filhos, que o meu sangue é água real. Quem esta oração disser, três almas se hão-de perdoar: do seu pai, da sua mãe, a sua em primeiro lugar. Nem que tenha tantos pecados como de areias há no mar. Três almas há-de se perdoar.”

A oração que, em conjunto com um pai-nosso e uma Ave-maria, era muito recitada quando o sítio era um lugar fechado, é ainda hoje conhecida. Mais do que uma oração, é uma síntese que o povo vai repetindo e reproduzindo. Faz uma síntese de como imaginam, pelo que se tem dito de uma para outra geração, a interacção, a troca, a dádiva, essa reciprocidade dentro da qual se vive, ainda que às vezes com zanga e grito. A primeira ideia é a de que o ser humano vive em estado alternativo de bem e de mal. Assunto que se aprende desde muito novo, quando a introspecção é ensinada. Um bem e um mal que é feito do que pode agradar ou desagradar aos outros. É claro que não é em si um valor absoluto, isolado, bem como de pessoas que estão a conviver. E o são João está só, porque, embora a senhora Conceição não o saiba, é o homem que precede o movimento ao qual Cristo, que na época era Jesus, adere, pedindo para ser limpo e começar assim, igual e semelhante aos outros, a sua obra. Como todo e qualquer homem após santo agostinho (século IV) que venha a ser rei, tem, como diz Bourdieu (1988), dois corpos: o eterno de príncipe, o mortal de ser humano. É o celebrante quem dá pão, mas na grande solidão em que ele está; são os Doze apóstolos, esses companheiros da divindade que comanda, quem o alimenta e lhe dá, apenas, pão. O celebrante, santo como ele é, quer ouvir as fraquezas dos apóstolos e, da mesma forma que lhes é dito o que devem fazer, são João quer ouvi-los em confissão. Os apóstolos nada tinham para dizer, mas há uma hierarquia de quem tem o poder de transmutar e que comanda e diz que quer ouvir os seus pecados, suposta e sabiamente existentes, até entre os que vivem com Deus. A hierarquia é mutável, enquanto para comemorar o ritual da lembrança a autoridade passa outra vez para o oficiante.

Há campos de acção da reciprocidade, onde há uma autoridade excludente, como Godelier (1995) se lembra de dizer; e outros, em que se fica subordinado. A oração reconhece que o homem tem poder porque transmuta. Transmuta produtos em corpo, e o seu próprio poder transmuta o mal em bem, desde que exista penitência, análise e arrependimento, persistência em não tornar a fazer o que se fez mal. Um poder de transmutação central no imaginário ocidental, que Dalí (1959) e Picasso (1937) tão bem representaram no campo político do poder: a Descoberta de América, o primeiro, Guernica, o segundo. Mutação que atinge o limite de aplicar o que se faz nesta Terra ao que acontece no além: porque, como humanamente é possível, há tanto mal como areia há no mar – essa metáfora, que na nossa mente define o infinito, representa o incontável. O que se diz por metáforas é representado pela materialidade da existência humana, onde o mar, sempre em movimento e infinito, guarda tantas possibilidades que a sabedoria humana criou, no século XIII, a Confissão. Não para proibir, mas para disciplinar um grupo que, por causa de viver como Boccaccio no Decameron parece indicar, não respeita as hierarquias. É  por isso que os pequenos sabem sempre a história que define o dar para receber e trocar. Não são só Durkheim (1898), Mauss (1924), Malinowski (1944) – judeus praticantes os dois primeiros, um fogoso católico paciente o terceiro – que transferem o tema central da mutação para a análise do comportamento humano. É o conjunto dos seres humanos que vivem em interacção que entende que hoje estamos bem, amanhã, mal, e que temos um imaginário que nos faz pensar simbolicamente naquilo que nos salva enquanto estamos vivos. E que cuida daquela crença fundamental para a retribuição quotidiana, para a paz connosco, que permite a calma e a alegria com os demais: a alma. É este o conjunto de ideias que faz o imaginário das crianças e que permite que a cultura oral o reproduza, mesmo no meio dos silêncios. A prática muda da concentração num quotidiano fechado em limites como o mapa diz, para outros contextos. É essa mesma prática de saltos na memória e no saber, ao longo da história dos diversos indivíduos, que, em ciclos diversos da sua existência, convivem e se lembram quando retomam o tema. Como essa noite de São João, quando ajudávamos crianças a saltar a fogueira, onde os velhos cantavam e os jovens púberes apareceram para salientar a sua presença, cantando, aos berros, canções pop sem palavras – como Mendelssohn faz para a sua irmã Fanny (1839), em plena época romântica. Como nessa outra noite de são João, dois anos mais tarde, quando fizemos o filme que mostra toda a aldeia a dançar e a cantar em torno da fogueira mais forte que até agora fui capaz de produzir. Com a colaboração e investigação de todos os pequenos e pequenas do sítio. Que muito perguntaram aos pais como é que tinha sido, mas eles, na diáspora económica dos anos 40 em diante, tudo tinham esquecido. Excepto a frase cultural que o corpo diz à mente, e a mente não consegue transmitir ao saber erudito que se pensa ser todo o processo de ensino – não apenas uma parte dos textos que agora usam nas escolas onde eu aprendi o que tenho dito. Essa frase, “são João por ir as moças, faz uma ponte de prata; passam por aí as velhas, são João tudo se mata”. Que nunca ficou no silêncio da cultura oral, atiçando o fogo com o forte imaginário dos ainda não praticantes da mente infantil

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