Agora para coisas realmente importantes


Disseram-me que saiu uma nova biografia do Felipe II escrita pelo Geoffrey Parker. É verdade? É? É que me disseram que tem 1000 páginas.

Geoffrey Parker e Henry Kamen são dois historiadores ingleses, educados em Oxford, mas que conseguem fugir àquele lugar comum da historiografia inglesa, personificada por David Loades e Starkey (para citar os mais conhecidos): tudo o que vem de Espanha, ou é mau, ou é cruel, ou queima pessoas. Neste contexto, Felipe de Espanha é um monstro, constantemente metido em Igrejas, e quando não está a rezar pela morte de todos os protestantes à face da terra, está a dar largas à sua perversidade numa qualquer cama desse mundo. Libertino, assassino de mulheres e filhos para David Loades, esse então, ainda não saiu da fase “Guilherme de Orange” e continua acreditar palavra por palavra na “apologia”. Historiadores que não conseguem ver para além do canal e que acham que o império que Inglaterra vai vir a ter tem o seu começo com Elizabeth a tal que corajosamente bateu a Armada, uma empresa mal organizada e condenada à partida. Mas muitos continuam sem perceber, ou recusam-se a tal, que a Inglaterra do século XVI nada tinha a ver com a Inglaterra de meados de XVII e XVIII.  A Elizabeth, brilhante e inteligente como era, cabia-lhe a sobrevivência do Reino e não a expansão. A verdade é que os Tudors, corajosos, loucos, astutos como foram, personificaram apenas a independência do Reino em relação ao Papado e um isolamento que mais tarde lhes vem a ser útil. A Inglaterra Tudor era, a bem ou a mal, uma potência média.

Por isso, admiro Kamen e Parker. A visão mais equilibrada de Felipe já tinha nascido em Espanha há alguns anos mas Kamen e Parker foram dos primeiros historiadores ingleses, daquela gama de historiadores cujo os livros figuram nas prateleiras das livrarias, a aceitar que Felipe de Espanha é, provavelmente, um dos reis e homens mais complexos que o mundo já conheceu. Foram também eles os responsáveis por dar a conhecer ao mundo “leigo” estes novos ponto de vista.

A Historiografia inglesa mais recente que se debruça sobre o século XVI é louvável em muitos aspectos, com nomes como John Guy, G.R. Elton, G. Mattingly (americano de facto mas um génio, na minha opinião). Por outro lado, outros nomes aqui já referidos continuam com dificuldade para ver “além do canal” e continuam a alimentar preconceitos que nasceram há séculos atrás e que, hoje em dia, sabe-se já não terem qualquer fundamento.

É uma pena pois é a única grande flaw numa historiografia e em historiadores verdadeiramente brilhantes.

Por último, e enquanto espero pela confirmação da existência da nova biografia, deixo-vos aqui um excerto da “Grand Strategy of Philip II” de Parker:

“At the beginning of the reign, when he promoted a man of humble birth to be primate of all Spain, the wife of a courtier irreverently commented: `These are the miracles that the king now wishes to perform, and they seem very like those of Christ, who made men out of clay’; by its end, however, many of his servants and subjects genuinely saw him as the incarnation of God on earth, believed he had been a saint, and attributed miracles to him. Philip himself made no such claims — on one occasion he wrote `I don’t know if [people] think I’m made of iron or stone. The truth is, they need to see that I am mortal, like everyone else’ — but he seldom had qualms about exercising his absolute power over life and death. On the one hand, in 1571 he pardoned numerous prisoners in Spain and the Indies to celebrate the birth of a son and heir, and in 1580 as he entered his new kingdom of Portugal in triumph he freed prisoners along his route. On the other hand, during the decade 1566-76 he had over 1,200 of his Low Countries’ subjects executed by a special legal tribunal because they disagreed with his views on religion and politics.”

Despite at least seven assassination attempts, for most of his reign Philip travelled unarmed through crowded streets and deserted fields; he drank cups of water proffered by ordinary people along the way; he ate the fresh catch offered by local fishermen; when he visited a university town he attended public lectures along with the students; and when a religious procession passed him as he walked in the streets, he fell to his knees among the crowd in shared reverence. Philip always worked with his study door open, and ministers would sometimes panic when they saw him `enter the patio of this building entirely alone’, unprotected against attack. He, like Elizabeth, could proudly boast: `Let tyrants fear: I have always so behaved myself, that under God I have placed my chiefest strength and safeguard in the loyal hearts and goodwill of my subjects’. (discurso feito pela Rainha Elizabeth ás forças inglesas em Tilbury aquando a chegada da Armada) 

 On most occasions Philip dressed simply — indeed to some the king’s modest attire made him look `just like a physician’ or even `just like the citizens’. Although he was fastidious about personal cleanliness, he remained conservative in taste: he had a new suit of clothes made every month, but the design and the colour — black — remained the same, a perfect example of the `dignity through understatement’ advocated in Castiglione’s influential Book of the Courtier. That is how he appears at the height of his power in the Alonso Sanchez Coello’s portrait of 1587 (Plate 4)

 Nevertheless, Philip instilled instant respect in all who met him. When she entered his presence one day in the 1570s, Teresa of Avila `began to speak to him totally agitated because he fixed his penetrating gaze on me and seemed to see into my soul … I told him what I wanted as quickly as I could.

‘ When Venetian ambassador Leonardo Dona had an audience, he spent hours beforehand `reading and re-reading more than ten times’ the letters and instructions that he had received in case Philip should ask him a question. One of the king’s earliest biographers confirmed that `Brave men who had withstood a thousand dangers trembled in his presence, and no one looked on him without emotion.’ Everyone also remarked on his remarkable self-control: the same Dona, when obliged in 1573 to tell the king in a public audience that Venice had defected without warning from its Spanish alliance and made a separate peace with the Turks, noted in amazement that he listened to the terms of the treaty impassively — except that `his mouth made a very small, ironic movement, smiling thinly

Comments

  1. Paulo Pinto says:

    Não tenho conhecimento. Há uma biografia, sim, mas de 2002, creio, e está longe de ter 1000 páginas. Geoffrey Parker é muito bom (nomeadamente nos estudos sobre a “Spanish Road”), mas em abordagens mais globais que envolvam o império dos Habsburgos nas suas vertentes ultramarinas falha em vários aspetos, como seria, aliás, de esperar. Do Henry Kamen gosto sobretudo do “Empire”, com ideias muito interessantes (é detestado em Espanha por uma série de “heresias” que comete, estou-me a lembrar de uma recensão crítica do Perez-Reverte). Obrigado pelo seu post, sempre me sinto menos lunático quando me meto a discorrer sobre coisas destas.

    • Daniela Major says:

      É curioso que diga isso Paulo Pinto. Todas as críticas que li sobre o livro do Kamen sobre o Felipe, as críticas negativas vêm quase todas por parte de historiadores americanos ou ingleses e as críticas positivas por parte de espanhóis. Tinha aliás a impressão de que a academia espanhola tinha mais apreço por ele do que a inglesa. E não se preocupe. Não é o único a debater-se como estas questões 😀

      A informação sobre o livro do Parker foi-me dada por uma homóloga espanhola e ela disse-me que saiu este ano por isso ainda não sei o quão divulgada está, a exisitr.

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  1. […] por este meio divulgar que a informação que me foi fornecida e que mencionei neste post, estava certa. Há uma nova biografia do Felipe, e é do Geoffrey Parker. E tem 1500 páginas. E […]