Serões da província.

Arriscando-me a ser crucificado pela opinião internauta, claramente anticlerical, gostaria de comentar um caso que se passou em Valpaços e que a comunicação social, ávida por escândalo, noticiou recentemente.
Ao que parece, o pároco local recusou a comunhão a uma menina (com 16 anos) que trazia um generoso decote. Seguiu-se uma ofensiva à tia da decotada, que viu negada a pretensão de ver celebrada uma missa pela memória de um parente. A tia queixou-se e acha que o padre é retrógrado.
Os comentários à notícia, repartidos por vários órgãos de comunicação social, são bestiais. Os do costume apedrejam o padre, atirando-lhe com a pedofilia, a homossexualidade, a impotência, a Idade Média, tudo conceitos e razões válidas para se discutir um assunto como este.
Esta gente razoável, não frequenta a missa e grande parte assume mesmo o seu ateísmo. E, claro, como não são religiosos, nem católicos, nem frequentam a missa, são os que estão mais aptos para opinar. O seu julgamento é sempre com base num facto muito simples: tudo é mau no catolicismo (embora existam milhares de religiões e seitas no mundo) e que dentro desta maldade existem sempre umas coisas piores e imensamente más, como o facto da pobrezinha não poder conter os seios dentro do top e ir assim tomar a comunhão. Segundo alguns, os direitos dos seios deviam ser tidos em conta.
I dont give a shit for atheísm. Da mesma maneira que os ateus deviam preocupar-se com o catolicismo. Dar importância é favorecer, lembram-se? Não conhecem a célebre máxima de Óscar Wilde?
Os meus amigos ateus têm todo o direito de o ser e não sou eu que vou tentar evangelizá-los. E eu tenho todo o direito de ser católico e, sobretudo, não ser julgado por sê-lo (e acreditem que o sou, cada vez mais). Mas dado que sou católico, que conheço a liturgia, que faço por professar o melhor que sei e posso a religião em que creio, também sei que não devo ir de chinelos de praia para uma igreja, de calções ou manga cava. Que a exposição do Santíssimo Sacramento me inibe de certos actos. Quem não sabe isto, não é católico. Deve integrar aquele grupo de pessoas que se diz “não praticante”.
Ora, o que eu digo é o seguinte: qualquer um pode falar do que lhe apetecer. Aliás, o que mais se vê, na internet, é gente que fala de tudo e de todos, discurso que espremido não chega para encher metade de um copo de shots. Mas que razão tem um ateu ou um descrente para julgar a atitude do padre em relação às visadas? Se não crê, não aceita, não integra o corpo laico da Igreja, portanto para que serve ou contribui a sua opinião? Podem atirar pedras de fora, e fazem-no muito bem, mas sem conhecimento de causa, a sua opinião não vale nada. Neste caso, a única opinião que interessa é das visadas e da queixa que fazem em relação ao pároco. Felizmente, a Igreja Católica ainda não é como a Cientologia, a IURD ou certos quadrantes do islamismo que resolvem as dissidências com métodos mais agressivos que uma simples chamada de atenção.

Nota: ainda assim, parece que em Portugal se confia mais na Igreja do que nos políticos.

Comments


  1. pode dar-me um link para os seus posts sobre padres católicos pedófilos? fiquei curioso em conhecê-los, tão católico purista que é. o que lhes terá desejado? católico como é, aposto que lhes desejou perdão eterno.


  2. Posso claro. Desde que escreva aqui o seu nome e a sua identificação, como convém a pessoas que nada têm a esconder.

  3. Rodrigo Costa says:

    Se o Padre estivesse a pensar em Deus, não veria o decote.


  4. Caro Rodrigo, há decotes que ofuscam a luz, mesmo a divina!
    Devia ser o caso! ahahah!

  5. linka says:

    sou ateia, com muito gosto e irritam-me os católicos que se pensam acima dos demais.
    No entanto, considero que a igreja é um local de respeito aonde se deve ir vestido de acordo com as circunstâncias. Não cabe ir a uma igreja, ainda por cima, comungar, vestido duma forma indecorosa. Mas isto, não tem a ver com o facto de se ser católico, ateu, judeu ou outra coisa qualquer…. tem a ver com educação e civismo, ora essa!!!!
    Eu não vou a um hospital ou a uma escola ou universidade ou qualquer instituição vestida como se fosse para a praia. Enfim… mentalidades!

    • maria monteiro says:

      já reparou como é que vão vestidas as noivas e … os convidados? Nessa altura o sagrado do sacramento da comunhão, do matrimónio … não brigam com a indumentária.


      • Mas aplica-se a esse caso o mesmo que eu refiro no texto, Maria. O problema não está, sequer na obrigação, que não existe (como no caso do lenço ou da burqa árabes). É apenas uma questão de reverência, de respeito que, quem professa, deve seguir. A ambas as coisas ninguém obriga, no entanto. Pode escolher não entrar na igreja.

    • Rodrigo Costa says:

      Linka,

      Sem ter a pretensão de a corrigir, devo dizer que, em função do modo como se expressa, não é “ateia”. Quando muito, tem outras crenças, que não têm que ser, necessariamente, religiosas.
      Não há, somente, duas aternativas: ser religioso —professar qualquer religião— ou ser ateu; o que há é a possibilidade de se ser religioso ou não ser, sem que isso afecte a capacidade de acreditar, porque o Universo é, indubitavelmente, a maior e a mais séria Catedral, onde habita o Deus que não tem nem partido nem grupo nem bancos dirigidos por cardeais que manuseiam investimentos.

      Não se pode chamar “ateu” a alguém que tem o sentido das coisas, o Senso. E você demonstrou-o, quando escreveu que não é avisado entrar numa igreja de forma indecorosa. Eu acrescento, “de forma indecorosa” por pensamentos e actos. E, se, de toda a malandragem a que a Igreja tem dado cobertura, os casos de mulheres decotadas fossem os mais graves, acredite que haveria mais santos do que os que existem, apesar de haver um santo por cada dia; tantos que Deus nem a todos conhecerá —e aqui entraria a história da BULA, o preço por que se pode vender e recuperar a alma; negócios em que um Deus nunca entraria.

      Há correcções que, antes de caberem á Igreja —tendo tanto por que se corrigir—, cabem aos cidadãos, eles próprios, enquanto figuras que vivem e convivem em contexto de sociedade. No entanto, na sequência das modificações do modo de viver que vêm sendo apoiadas e estimuladas pela Comunicação Social, é lógico que os jovens, e não só, procurem ultrapassar fronteiras, porque a normalidade não é notícia; vendo-se os pais aflitos, entre moderar o comportamento dos filhos e deixá-los proceder do modo que mais rápida e mais fácilmente os evidencie e os leve a tirar dividendos.

      Só o futuro pode garantir quem é que, no seu passado, esteve certo; e o que é que, aparentando ser lucro, não foi o princípio de grandes prejuizos.

  6. Alfredo says:

    Se para entrar numa sinagoga é obrigatório um quipá, se para entrar numa mesquita é necessário tirar os sapatos, se para entrar em determinados locais é obrigatório o uso de gravata, porque raio não pode a Igreja definir regras, que mais não são que regras de bom senso? É uma questão interna, quem está de fora não racha lenha.

    Quem está de fora tem o direito, e o dever, de questionar, por exemplo, porque é que o edifício onde o episódio ocorreu está isento de IMI, porque é uma questão, essa sim grave, que interfere com não crentes.

  7. Rodrigo Costa says:

    Continuam a incorrer em erro os que pensam ser “ateu” todo aquele que não tem religião —já nem sequer vou dizer “que não é católico”. Pior, ainda, num mau manuseamento da semântica, acha-se que, quem não acredita em Deus —entidade com perspectivas diversas, consoante a religião professada, porque ninguém, realmente, o conhece—, não tem fé. Será o mesmo que dizer-se que quem não tem partido não acredita no Pensamento Político, o que não é assim.

    Começo por dizer que ter fé e crer em Deus —quem quer ou o que quer que seja— são coisas totalmente diferentes; porque, para se ter fé, não há necessidade de qualquer deus. Ter fé é, simplesmente, acreditar num conjunto de princípios, de entre os quais saliento o respeito e o sentido de justiça, de equilíbrio e a necessidade de aprimoramento das qualidades, ganhando-se, como prémio ou contapartida, a leveza de consciência, e, por vezes —quando o mundo de religiosos deixa— a prosperidade e o reconhecimento, como prémio pela crença e pelo autodomínio, porque, convenhamos, ninguém se controla e procura a superação, sem acreditar em alguma coisa; sem acreditar, pelo menos, que a realização se consegue através do conhecimento e da transmissão do que se conhece.

    Claro que não posso levar a sério alguém que, embrulhado numa específica indumentária se apresenta e se diz representante de Deus, na Terra. Não o mando internar, é um facto, porque acho que cada um é livre das suas fantasias; muito embora eu perceba e se saiba —por haver documentos comprovando-o— que, devido às fantasias de indivíduos religiosos e fardados, a Humanidade tem episódios que envergonhariam qualquer animal que pensasse, e que contrariariam, seguramente, qualquer entidade benigna e equidistante, responsável, ainda por cima, por tudo quanto somos e por quanto nos rodeia.

    A existir, Deus tem por templo o Universo, e, como capela, a alma de cada um; não O vejo fechado, reduzido, em espaços fechados e representado por indivíduos que não prescindem dos rituais e da matéria, Ele que é dito Sumo Pontífice do espírito.

    As pessoas devem perguntar-se o que são as missas e as hóstias, qual o significado; se acham que as missas e as hóstias previnem ou redimem de actos menos consentâneos com o que deveria ser o comportamento de um ser que se pretende racional, mas que, em definitivo, permanece, como qualquer outro de outra espécie, sujeito às investidas do Instinto, e sem que haja alguém imune a tais achaques, como o comprova o estado do mundo —ou do País, para ficarmos por perto—, com os desmandos perpetrados, maioritariamente, por religiosos, na medida em que, de acordo com as estimativas ou estatísticas, o número de “ateus”, por comparação, é ínfimo.

    Defendo, de há muito, que a espécie humana é a única geneticamente doente; a única de que os espécimes nascem e, rapidamente, se tornam possuidos de fantasmas e da necessidade de exorcismo… Não sei, de facto, a que se deve o atributo da inteligência, e, por antítese, a entrega ignara a cultos próprios de quem teme Entidade apresentada como protectora e inspiradora de confiança. Há algo que está errado. Há algo que não bate certo.

    O Deus que eu escolhi, aquele em que acredito, é um Deus que, nos Seus limites, me ensina os limites. O meu Deus não tem igreja, nem religião nem exército; comunica, comigo, através do Senso, e explica-me, muito bem, o que é ter Fé. Sem missas nem hóstias, porque, quem não deve, não teme…


    • Está livre de o fazer e de o querer. E eu estou livre de “temer” e pelos vistos querer “ser enganado”. Sem ofensa, é essa soberba que me irrita.

      • Rodrigo Costa says:

        Foi isso que eu fiz, Nuno, explicar a minha posição; fazendo muso da minha liberdade de pensamento.
        Mesmo sem compreender onde viu a soberba, no que escrevi, continuo sem me irritar com os que não pensam como eu —talvez por estar perto de Deus e de O compreender na Sua magninimidade. Devo dizer, inclusive, que, por vezes —muitas—, nos rimos os dois, porque Ele acha que coincidimos na paciência…

  8. Manuel Matos says:

    Fui professor em Valpaços.
    Fui colega do padre da vila (na altura) e suponho que se trata do mesmo.
    Sabe que este padre ficou famoso por interromper uma missa para mandar oa presentes aplaudir o candidato a deputado Cavaco Silva?
    Se é realmente católico, isso de respeitar a liturgia só pode ser piada!
    Eu conheci o padre de Valpaços e ouvi falar do que ele dizia durante as missas.
    Estamos conversados.

  9. Rodrigo Costa says:

    Por mais voltas que queiramos dar ao texto, um padre é, apenas, um homem, que, como tal, pensará e agirá: mais ou menos educadamente; com mais ou com menos sentido de oportunidade e de contexto. Não vale a pena esperar que possa ser outra coisa —há sacristias que se têm fartado de ver decotes e cuecas, como preâmbulo das fases seguintes; e nem sequer é necessário aludir à homossexualidade ou à pedofilia, fico-me pelas relações entre pessoas normais e por mútuo consentimento. Questão de filosofia.

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