a cultura e a sua lógica

 

Mozart Serenatta Noturna k.239 Marcia (1-3)

               Muda o governo,mudam os hábiotos, mud a a educação. Vejaos como                A questão está em entender o amor, já definido ao começo, e ver as bases religiosas que desenvolvem a psicanálise, como prometi referir. Toda criança procura que o seu pai seja quem comande, não perca a omnipotência. O totem faz parte dessa autoridade. Aí é bem tempo de definir o conceito de omnipotência e de totem, e o melhor, mais uma vez, é o estudante de Wundt, Freud, que diz baseado no seu professor: “In the first place, the totem is the common ancestor of the clan; at the same time it is their guardian spirit and helper, which sends them oracles and, if dangerous to others, recognises and spares its own children”[1]. Mas, um totem é também a forma de organizar as relações individuais das pessoas, definir o conceito polinésio de proibição ou tapu ou tabu, pelo que Wundt, Frazer, Durkheim e Freud, salientam uma segunda parte: “It is as a rule an animal (whether edible and harmless or dangerous and feared) and more rarely a plant or a natural phenomenon (such as rain or water), which stands in a peculiar relation to the whole clan”.[2]No entanto, Freud salienta, no


[1] Freud, Sigmund, obra citada, página 55, página web referida.

[2] Wundt, Wilhelm, 1870: Totem e Tabu – Tabu e ambivalência emocional; Wilhelm Wundt
descreve tabú como “the oldest unwritten laws of humanity”. website http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Wundt++on+totemism&btnG=Pesquisar&meta= ; Sir James Frazer, 1922, The Golden Bough. Ha versão portuguesa. Claude Lévi-Strauss, 1962: Le tomemism aujourd’hui, PUF, Paris. A sua ideia central é : Appliquant la méthode structurale, Lévi-Strauss définit le totémisme comme recouvrant des relations réglées entre deux séries, l’une naturelle et l’autre culturelle. La série naturelle comprend des catégories et des individus. La série culturelle comprend des groupes et des personnes. Il y a quatre façons d’associer deux à deux les termes provenant de séries différentes :

 Nature

 Catégorie

 Catégorie

 Individu

 Individu

 Culture

 Groupe

 Personne

 Personne

 Groupe

Website  http://www.ltm.ens.fr/chercheurs/lassegue/notes%20de%20lecture/levi-strauss-totemisme.html

Capítulo 4 da sua obra, que denomina “The return of totemism in chilhood” o agir da infância perante a ideia totémica, essa história à qual vou retornar, a de Jesus e Moisés, porque é importante para entender as diferentes formas de ver o real entre adulto e criança. Vejamos. Para um adulto, o totem organiza a interacção; para uma criança, diz Freud ao analisar o caso do pequeno europeu Hans e do pequeno australiano Arpád, que os dois amam aos seus pais e sentem o orgulho de serem pessoas com uma certa reputação pelo lugar que ocupam na hierarquia[1] e as felonias causadas na base dessesfactos relacionados com as hierarquias que usufruem, de modo que aprendem – e esse é outro papel do totem, o transferir o saber e as regras de comportamento em sociedade – o respeito aos artefactos e comportamentos associados aos ancestrais, especialmente as duas proibições principais: nunca matar o totem – directamente ou relações em relações analógicas, e aprender as relações de exogamia, analisadas em outra lição deste texto.

O que interessa é a base na qual Freud e os seus discípulos organizam a análise que nos leva ao saber da criança. Para Freud, estava nas tábuas mencionadas, ao comparar Jesus e Moisés, ou, por outras palavras, as explicações que permitem perceber o engano primário da psicanálise, que a levara a seguir, pela definição do próprio Freud, a Etnopsicologia. Tábua analisada na lição anterior, mês que reitero nesta.

Talvez, seja necessário antes definir conceitos usados no livro de Moisés, tais como libido, trauma[2], latência,[3] recalcado[4], repressão, já referida antes. Para entender repressão é preciso referir antes a Estrutura da Personalidade

As observações de Freud revelaram uma série interminável de conflitos e acordos psíquicos. A um instinto opunha-se outro. Eram proibições sociais que bloqueavam pulsões biológicas e os modos de enfrentar situações frequentemente chocavam-se uns com os outros.

Ele tentou ordenar este caos aparente propondo três componentes básicos estruturais da psique: o Id, o Ego e o Superego.

A essência do recalcamento consiste em afastar uma determinada coisa do consciente, mantendo-a à distância (1915, livro 11, p. 60 na ed. bras.). A repressão afasta da consciência um evento, ideia ou percepção potencialmente provocadores de ansiedade e impede, dessa forma, qualquer manipulação possível desse material. Entretanto, o material reprimido continua fazendo parte da psique, apesar de inconsciente, e que continua causando problemas.

Segundo Freud, a repressão nunca é realizada apenas uma vez e definitivamente: exige um continuado consumo de energia psíquica e neuronal, para manter o material nocivo, reprimido. Para ele os sintomas histéricos com frequência têm sua origem em alguma antiga repressão. Algumas doenças psicossomáticas, tais como asma, artrite e úlcera, também poderiam estar relacionadas com a repressão. Também é possível que o cansaço excessivo, as fobias e a impotência ou a frigidez derivem de sentimentos reprimidos[5].

A libido é-me mais importante de analisar, por causa da confusão que causa no saber cultural do conceito. É definido e usado no livro de Moisés e Monoteísmo, da forma seguinte: “Segundo Freud, no ser humano, cada um dos instintos gerais teria uma fonte de energia separadamente. Libido (palavra latina para “desejo” ou “anseio”) seria a energia aproveitável para os instintos de vida. “Sua produção, aumento ou diminuição, distribuição e deslocamento devem propiciar-nos possibilidades de explicar os fenómenos psicossexuais observados” (1905a, livro 2, p. 113 na ed. bras.). Outra característica importante da Libido é sua mobilidade, ou a facilidade com que pode passar de uma área de atenção para outra.
A energia do instinto de agressão ou de morte não tem um nome especial, como tem o instinto da vida (Libido). Ela supostamente apresenta as mesmas propriedades gerais que a Libido, embora Freud não tenha elucidado este aspecto.[6]

Ao referir libido, apesar de não estar considerado no texto de Moisés, queria também entrar pelo conceito muito usado no quotidiano, o de fantasma, derivado de um debate entre Freud, Jung e Adler, começado em 1914, ao organizar a teoria da estruturação de personalidade, teoria em formação, uma novidade. Fantasma, palavra, conceito parte dessa teoria muito usada em Etnopsicologia e Etnopsiquiatria, que eu sintetizaria assim: « une substitution des objets imaginaires aux objets réels, un renoncement à l’action motrice visant à la satisfaction avec l’objet réel, et par suite un renoncement à toute mise en acte du fantasme, ce qui par définition est la fonction même du fantasme.

Le psychotique, quant à lui, celui que Freud désigne alors sous le terme de paraphrène, ne connaît aucune substitution de cet ordre imaginaire après retrait libidinal du monde extérieur.

En ce sens, le fantasme, ou investissement libidinal d’un mode particulier, devient un mécanisme proprement névrotique, dont la fonction essentielle est d’établir une sorte de médiation entre pulsion et réalité, à la différence de la satisfaction hallucinatoire caractéristique du processus primaire, où l’objet est vécu comme réel mais sans lien avec un objet extérieur, où la coupure avec la réalité est effective, et sans substitution fantasmatique[7]. Em 1915, Freud dedicaria um longo artigo da sua meta-psicologia ao inconsciente: Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (Parte III) (1915 – 1916) reproduzido no Volume XVI Editora Imago, Brasil

                O inconsciente, até as datas das suas novas definições, era concebido por ele como instituído pelo recalque, e seu conteúdo era assimilado ao recalcado, exceptuado este dado extra -individual: “o núcleo do inconsciente“, fundamento da fantasia originária, articulado com a hipótese filogenética. Com o artigo de 1915, as coisas mudaram radicalmente, prefigurando as linhas gerais do segundo tópico. Tudo o que é recalcado, esclareceu Freud logo no começo de seu artigo, “tem, necessariamente, que permanecer inconsciente, mas queremos deixar claro, logo de saída, que o recalcado não abrange tudo o que é inconsciente.É o inconsciente que tem a maior extensão entre os dois; o recalcado é uma parte do inconsciente.” A sequência desse artigo é um guia para quem quer conhecer os conteúdos genéricos e as leis de funcionamento do inconsciente, entendendo-se que somente o tratamento psicanalítico, na medida em que permite, uma vez superadas as resistências, uma transposição ou uma tradução do inconsciente em consciente, pode levar o sujeito a tomar conhecimentos dos elementos concretos de seu inconsciente.[8] O conceito de fantasma ou fantasia, como todos os usados na terapia Etnopsicológica ou Etnopsiquiátrica, derivam de ideias religiosas, ou relações conscientes ou inconscientes do mundo real, material, com o mundo imaginado ou imaginário, derivado da falta de objecto da vida: o prazer ou pulsão de morte, ou o medo à morte, minha ou de um ser querido. Freud e equipa, especialmente Jung, Adler, Klein e Dolto, retiram das ideias Bíblicas formas de comportamento. Klein fez comentários na sua obra[9], especialmente ao referir que o seu mestre Freud “(1907) advanced his view of obsession neurosis as “a travesty, half comic and half tragic, of a private religion” (p.117) and his related, some would say reductive (Carveth 1998; Rempel, 1997, 1998), view of religion as a “universal obsession neurosis” (p. 126). However, if on the whole, “psychoanalysts continue to favor secular alternatives to traditional religious beliefs and practices” (Wallwork and Wallwork, 1990, p.160), post-Freudian theory has offered more positive ways of conceptualizing religious experience. Nevertheless, we feel justified in saying that throughout his writings Freud emphasized the defensive rather than the adaptive aspects of religion. [10]. Como os autores comentam no seu texto, a escrita de Freud sobre a religião é muito extensa e é quase impossível de sintetizar em apenas um texto. No entanto, e acrescentando as suas visões anteriores, em Totem e Taboo, oferece uma visão positiva, adaptativa do comportamento, com as suas análises de desonra aos adultos, punição à culpa incestuosa e outras ideias que, eu diria, estão no denominados Dez Mandamentos de Moisés. Bion oferece uma definição pós Kleiniana e, evidentemente, pós Freudiana. Com todo, Freudiana no seu conteúdo, como define “que o religioso proporciona um modelo de ser humano como criatura dotada de intencionalidade que transcende as necessidades físicas imediatas[11]

Parecia-me necessário entender certos conceitos, antes de entrar pelas duas temáticas que explicam a incompreensão entre adulto e criança. Especialmente, por estarem baseadas em ideias religiosas da vida pessoal dos autores, todos eles israelitas. O Édipo e o ante Édipo ou Jesus e o comportamento erótico da infância salientados nestas crenças dos intelectuais adultos mencionados. Talvez seja mais elucidativo dizer que as ideias psicanalistas não são conceitos inventados: são retirados dos aspectos punitivos do que denominamos religião, da forma que tenho definido em outros textos, especialmente (1992 1ª edição, 2001 2ª, Fim de Século, Lisboa. Ou Afrontamento, Porto 2003: A economia deriva da religião. Textos anteriores que definem como a religião é a lógica da cultura e a lógica da história, é dizer, o que orienta, define, incentiva e proíbe comportamentos entre seres humanos cuja base de agir é a felicidade e o desejo que leva à reprodução, à concorrência, ao lucro, à mais-valia. Agostinho de Hipona e Tomas de Aquino, são a minha base para estas ideias Conceitos todos já definidos nos textos denominados sagrados das várias culturas e invocados por mim em páginas anteriores. No entanto, penso eu,  a melhor definição de religião é a proporcionada por Durkheim em 1912, conceito que contribui para o entendimento da terapia e as suas técnicas adaptativas ao comportamento definido pela Divindade, que os psicanalistas não denominam histeria nem neuroses, apenas alienação. Durkheim considera a religião como a representação sagrada que o povo tem de si próprio e definea assim: “Uma religião é um sistema unificado de crenças e práticas relativas a coisas sagradas, ou seja, retiradas da sociedade e proibidas – crenças e práticas que unificam numa única comunidade moral chamada Igreja todos aqueles que a ela aderem. O segundo elemento que encontra assim lugar na nossa definição não é menos essencial do que o primeiro; porque mostrando que a ideia de religião é inseparável da de Igreja, torna claro que a religião deve ser um facto eminentemente colectivo”[12] Esta definição que tenho usado, na língua original noutros textos, porque define, praticamente, o que os terapeutas procuram: a sociedade e a interacção individual e dentro do grupo. Durkheim, ateu mas pertencente à religião judaica, procura o mesmo tipo de análise de comportamento que Freud e discípulos: uma análise ajustada a uma lógica exógama, não incestuosa, a reconhecer a realidade da libido e de todos os outros conceitos que defini antes. Conceitos entre os quais se encontra o Quarto Mandamento comum às religiões referidas em páginas anteriores: o amor aos ancestrais e o respeito, do qual nasce um conceito que já quase não é usado, o de Édipo, e que Freud analisa no seu texto sobre religião, a partir das seguinte tábuas:

Like God.”178 Freud’s concept of the Oedipus complex is obviously interpretable as a powerful psychological representation of the universal desire to be like God: to sin by rebellion, by disobedience, by striving to become the autonomous ruler over one’s own and others’ lives.·

Now, in a Christian framework, Jesus provides the model for the negation—in fact, for the cancelling out or removal—of the oedipal structure. In contrast to Oedipal man, Jesus does not  show intense hatred but perfect love for God the Father. This love is expressed in what has been called “radical obedience”— that is, total identification with the Father’s will (whereas oedipal man shows radical disobedience). Throughout the Gospels, Jesus consistently speaks of doing his Father’s will and not his own: “I seek not my own will, but the will of him who sent me”179; “not my will, but thine, be done.”180 The result of this radical obedience is the death of the Son. He is not killed by the Father, but by a group of conflict-filled, frightened, and hateful men. That is, the group of brothers kills not the Father but the Son. It is then the Son’s death that occurs, and not the Father’s, as was the case for Oedipal man. The results of this death are not the guilt and remorse that follow the Oedipal murder, but atonement, resurrection, and joy. There is a “rebirth,” in which the Father and Son are now together and not estranged. The followers of Jesus— the new group of brothers (brothers in Christ)—are called to become sons of God by modeling their lives on that of Jesus. One important way in which this is done is through Holy Communion, in which the followers are commanded to eat the body and drink the blood of the Son in the bread and wine; this “totemic” meal is the opposite of Freud’s postulated ancient father-focused Oedipal meal. Website: com debate e texto, em:
http://www.paulvitz.com/FreudsXtnUncon/168.html
To round out the Anti-Oedipal pattern, Jesus shows no sign of sexual desire for his mother; in fact, by choosing celibate life, he explicitly puts sexuality completely aside as a determining motivation. In short, the life of Jesus is the life of Anti-Oedipus (see Table 5-1
).·
Now the extraordinary fact is that Freud was, in many important respects, aware of this logic, which is at the very centre of the Christian view of man. He commented in an important, apparently almost completely overlooked, passage near the end of Totem and Taboo:
“There can be no doubt that in the Christian myth the original sin was one against God the Father. If, however, Christ redeemed humankind from the burden of original sin by the sacrifice of his own life, we are driven to conclude that the sin was a murder. The law of talion, which is so deeply rooted in human feelings, lays it down that a murder can only be expiated by bloodguilt. And if this sacrifice of a life brought about atonement with God the Father, the crime to be expiated can only have been the murder of the father.
In the Christian doctrine, therefore, men were acknowledging in the most undisguised manner the guilty primeval deed, since they found the fullest atonement for it in the sacrifice of this one son
. Atonement with the father was all the more complete[13].

  O comentário de Vitz é suficientemente explícito e provado, para apoiar a minha tese da análise terapêutica e procurar a unidade que Durkheim definia entre o grupo social. Era impossível que um intelectual, sem conhecer a teoria religiosa, pudesse criar uma análise sobre o tabu a partir, apenas, da teoria dos australianos. O que procura Freud é elucidar a mente ocidental e a das crianças, enquanto analisa comportamentos à luz do seu próprio saber da sua própria cultura. Os textos que trabalham esta temática estão fundamentados em formas bíblicas e patrísticas de Pater Famílias, como mostrei na lição Segunda. É possível advertir que a maior parte das análises terapêuticas estão baseadas em temas bíblicos que governam a nossa vida. Como o autor faz ao construir uma tábua analítica das definições Freudianas e das dos Evangelhos, como faz Françoise Dolto na sua obra, já referida.

Table 5-1.Jesus as the Anti-Oedipus: A Summary of the Ways in WhichThe Life of Jesus is the Negation of the Life of Freud’s Oedipal Manhttp://www.paulvitz.com/FreudsXtnUncon/169.html
Oedipal Man: The old man(from Freud) Jesus: The new man(from Gospels)

 

1. The son hates the father. 1. The Son loves the Father.
2. The son shows radical disobedience to the father. 2. The Son shows radical obedience to the Father.
3. The son wants sexual possession of the mother (or all women of the group) 3. The Son renounces sexual possession of all women.
4. Radical disobedience results in death of the father, in fantasy or supposedly in fact in the ancient past. 4. Radical obedience results in death of the Son
5. Death of the father is caused by the son or by a band of brothers (sons) who hate the father. 5. Death of the Son is caused by a band of brothers who hate the Son.
6. Death of the father is followed by failed resurrection in the form of a created father-totem, by emotions of guilt and remorse, and by permanent separation and estrangement of father and son. 6. Death of the Son is followed by resurrection of the Son, by the emotions of joy and happiness, and by the complete reunion and identity of Father and Son.
7. Death of the father leads to the son’s identification with the father, now incorporated as superego, or to the band of brothers’ identification with the father-totem. 7. Resurrection leads to the sons’ identification with the Son, who is the center of morality and of ideals (a new Superego); the new band of brothers identifies with the “totem” Son.
8. The old sons identify with the father in a totemic meal in which the father is eaten 8. The new sons (or band of Christians) identify with the Son in a “totemic” meal in which the Son is eaten.
9. The new band, feeling guilt partly from their sexual motives, renounces the women and creates the rule of outmarriage (exogamy). Thus, the women take the name of some other group’s father. 9. The new band of sons and daughters takes the name of the Son (Christians);  women are not excluded from the “tribe” but were the same name.
10. In short: Hatred and disobedience leading to death of the father bring original sin. 10. In short: Love and obedience leading to death of the Son bring redemption.

Se lembrarmos páginas anteriores, vamos recordar o debate Freudiano-Kleiniano, com um Bion no meio a opinar de forma sabida e muito real sobre a dinâmica da mente. O debate mencionado é de especialistas esotéricos na ciência da felicidade ou da sua procura e qual seria o motivo da dinâmica de procura da libido definida por mim em páginas anteriores. É um debate de culpa, a definir a crueldade dos mais novos que ainda não entendem a circulação do mundo, apenas as ordens e normas entregues pelos adultos que, por sua vez, usam os seus textos sagrados, definidos à Durkheim: seres humanos a viverem em grupos de objectivo comum, como se fosse uma Igreja. No entanto, até Melanie Klein tem um olhar clínico cristão na definição da sua hipótese principal sobre a teoria das pulsoes e a angústia da morte, como dinâmica do comportamento, exposto no texto mencionado sobre Inveja e Gratidão de 1957: “Her later theories on constitutional envy, the primary importance of the mother, and reparation bear close parallels to the doctrines of original sin, the Immaculate Conception, and Christian atonement[14]. De facto, analisa a relação do bebé, com o seio materno e a mãe, como gratificante, criadora da vida e isolada de qualquer outra relação. “O bebé não deseja apenas alimento, deseja ver-se livre de ansiedades persecutórias e impulsos destrutivos. O sentimento é da mãe ser omnipotente…Um dos principais derivados da capacidade de amar é o sentimento de gratidão….gratidão ligada à generosidade…à bondade…ao desejo de retribuir com amor…”[15]. Análise retirada não apenas dos autores clínicos citados, como Abraham, Freud, Winnicot, principalmente Chaucer e o seu texto Canterbury Tales, Milton, a Bíblia Luterana, entre outros[16]. A mãe, o seio e o bebé, são uma análise sem outro interveniente que cause inveja…e no texto não há. O Cristianismo Kleiniano é usado para entender o crescimento dos bebés isolados dos pais: apenas o alimento e o carinho reciprocado a quem o dá.

Françoise Dolto usa a sua obra a partir de ideias de entendimento das crianças na base do que denomino a lógica da História. No seu  texto La cause des enfants, começa por atacar a relação com os adultos, ao dizer “En respectant un enfant, on respecte l’être humain”, para acrescentar “la représentation du petit enfant jusque la peinture classique montre bien que son corps n’est pas pris pour ce qu’il est dans la réalité, mais pour ce que la société veut occulter de l’enfance » para comentar apenas esta frase  «La vérité anatomique est jugée indigne dus fils de Dieu…alors, on préfère donner à l’enfant Jesus les proportions normales de l’adulte…»  Continua com ironia a análise da vergonha que o adulto tem da criança, até ao ponto de disfarçar um sentimento denominado de fé. Pelo que, ao falar das faltas – não cometidas -, lembra que o Evangelho diz : «Laizzer venir à moi les petits enfants» ou la source de la culpabilisation». Por outras palavras, a sua análise do comportamento infantil na base dos Evangelhos é para resgatar da culpabilização que o culto católico faz da criança: projecção do pecado original, baptismo, confissão ou um pecador inculcado, etc.[17]. Dolto, na sua obra, usa os elementos da cultura cristã para criticar as formas de culpabilizar crianças e encontrar a base para punir. A criança acaba por não entender que se lhe fale e ensine o amor, se no fim ela é uma grande pecadora, a avaliar pela primeira actividade ritual à qual é submetida. O conceito do pecado dos mais novos, é um apoio para o comportamento ante religioso desse adulto viciado, que começa por limpar as suas nódoas atribuindo-as ao mais novo, que tão esperado como referi ao começo e com toda a ilusão, é lavado de culpas cometidas miticamente pelos adultos em tempos passados e uma grande celebração é feita para o ritual da limpeza. Bem, já não sei, como a própria Dolto diz no seu Au jeu du désir[18] , se a festa é por causa da vida social ou pelo ritual que, no começo do culto cristão, era uma forma de retirar culpas de adultos, para passar com o tempo, a partir do Século XIII em frente, a ser de bebés, por causa de tantas mortes de pequenos que, se não estiverem limpos do pecado – da falta, da desobediência, da luxúria -, perdiam a vida eterna, outra ideia criticada por Dolto ao dizer que as faltas dos adultos passam de imediato aos mais novos e devem ser redimidas  por renovação constante e sistemática de vários rituais, com toda a ideia e sentimento de fé, na escola dominical, na oração de desculpabilização às refeições, à noite, de manhã, a Primeira Comunhão, mais tarde com o denominado Crisma entre os cristãos romanos, ou com os denominados Sacramentos….um conjunto de rituais destinados a limpar a mente, a alma – categoria Platónica – Agostiniana mal entendida dentro da cultura porque causa medo, especialmente aos mais novos – e o corpo para poder interagir de forma conveniente no grupo social. A imagem do corpo e o seu pecado, é o elo central da autora que, infelizmente, era entendida apenas pelas crianças que tratava e não pelos adultos que organizam a cultura e que analisa nos textos publicados no seu La difficulté de vivre[19]. Dificuldade passível de sintetizar em apenas uma frase: a vergonha que a criança tem do seu corpo e que pode ser prevista pelo tratamento que do mesmo fazem os seus adultos, especialmente a mãe[20]. Mas não apenas a mãe, a família, os amigos e, especialmente, o especialista. O texto começa com uma impressionnante definição: “Bien que je soit psychanalyste…au lecteur….trouverá nombre de réfléxtions qui l’évelleiront…à la compréhension de ce que tout en chacun peut entendre, sens préparation ni connaisance particulières, de l’existence en nous d’une énergie de caractère sexuel (libido) qui anime de façon inconsciente tout être humaine…La psychanalyse, tout le monde le sait aujourd’hui, est une pratique spécifique qui permet d’étudier la dynamique des échanges émotionnelles qui accompagnent la relation d’un être humaine à un autre… » Era esta frase que queria salientar, porque define a terapia feita às crianças que não percebem que o seu corpo é uma vergonha social, como os seus adultos, especialmente os consagrados, estão sempre a reiterar perante a sua pobre epistemologia e a sua rica emotividade[21]. Não há sentimento de fé, é usado um culto muito bem estudado, para reivindicar uma infância que não entende a relação e perante a qual é possível falar pela quantidade de contradições entre o que se diz e o que se faz. Dai, a ideia de Marx: a religião aliena. Eu diria, aliena, especialmente, a criança e faz parvo o adulto, como Vitz demonstra no seu quadro Ante Edipiano. Era possível dizer com Françoise Dolto’s legacy: the child is a person. Uma pessoa até para Freud e a sua escola, nunca considerada nas análises culturais da infância[22].

A criança é um subentendido para o adulto, culpado e pecador, conforme a cultura, mas que tem uma infância que passo a analisar entre Ocidente e outras Etnias.


[1] Freud, em análise, páginas 189 a 193

[2] Trauma: designa a angústia que incapacita a um indivíduo para respostas adequadas aos factos que acontecem, ou fluxo excessivo de intolerância que causa um sujeito a outro ou um facto. Website:

http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Freud++trauma&btnG=Pesquisar&meta=

[3] latencia: En la niñez hay con frecuencia intervalos breves durante los cuales los niños tienen la inclinación de acariciar sus genitales. Si ese comportamiento es alentado por la educación sexual prematura, como muchas veces sucede, la masturbación incesante puede ocurrir durante la niñez y la fascinación del niño con sus propios genitales puede llevar a ciertas perversiones. Una niña llevada al juego sexual prematuro por la instrucción sexual puede convertirse en ninfomaníaca, para quien el acto sexual es nada más que un impulso compulsivo de repetir sus seducciones tempranas. Website:

http://www.anael.org/sexo/freud.htm

[4] Recalcado: Não existe nenhuma diferença qualitativa entre as condições de saúde e a neurose. As pessoas sadias enfrentam a mesma luta para dominar a libido, porem é apenas melhor sucedidas.” Mas atenção…dominar” a libido: a libido é a carga energética da pulsão. Definido em 1915, retirado do texto Maria Cristina Ocariz, website com texto: http://www.geocities.com/HotSprings/Villa/3170/CristinaOcariz.htm

[6] Libido: website com texto: http://www.psiqweb.med.br/gloss/

[7] Fantasma, debate de vários autores em vários textos, ligado ao conceito de libido e do inconsciente e do consciente, em consequência, de religião e totem ou, nos conceitos de Wilfred Bion, 1962: Learning from experience, relação do eu –“finito” –, com a meta psicologia ou “infinito” ou conceito religioso do mundo e as suas relações, William Heineman Medical Books, Londres, conceitos que, refere Bion, permitem “fazer” e não “sonhar, como era originalmente o debate entre austríacos e alemães – derivado do conceito Fantasia que existe em alemão e passa a ser fantasma na tradução de começos do Século XX. Fazer, é dizer, mudar de categoria de infinito para finito, passar da fantasia para a materialidade, como refere em Attention and Interpretation, Tavistock Institute, Londres. Website  http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Wilfred+Bion+Attention+and+Interpretation&btnG=Pesquisa+Google&meta=

[8] Definição de nota 52. Website http://www.geocities.com/marcofk2/roudi.htm

[9] Klein, Melanie, especialmente ao longo da sua obra Essai de psychanalyse 1921-1945-Payot 1968 ou website http://www.doctissimo.fr/htm1/psychologie/grands_auteurs/ps_1324_melanie_klein.ht, entre outros. Há versão lusa, Imago, 1991, Rio de Janeiro

[10] Em Forster, Sophia e Carveth, Donald, 1999: “Christianity: A Kleinian Perspective”, texto on-line at Psyche Matter Website com texto: http://www.psychematters.com/papers/carveth.htm .

[11] Bion, obra citada, nota 54, retirada esta parte do texto de Joan e Neville Symington (1997, Routledge), 1999: O Pensamento clínico de Wilfred Bion, Climepsi Editores, Lisboa www.climepsi.pt/catalogo/ livros/972-8449-33-x/972-8449-33-x.htm

[12] Durkheim, Émile, 1912 : Les formes élémentaires de la vie religieuse, Félix Alcan, Paris. Website http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=%C3%89mile+Durkheim+Les+formes+elementaires+de+la+vie+religieuse&spell=1 . Texto completo on- line. No entanto, o debate mais interessante sobre o conceito, especialmente entre ideias do autor e de Weber, pode-se ler na Net em http://geocities.yahoo.com.br/jonhassuncao/durkheim.htm. Debato o conceito entre vários autores no meu texto de 2002: A economia deriva da religião, Afrontamento, Porto, bem como em ainda mais um texto publicado sem o meu consentimento pela mesma editora, em Abril de este ano: “A religião como lógica da cultura, Afrontamento, Porto, 2004.

[13] Vitz, Paul, 2002: Sigmund Freud’s Christian Unconscious, Amazon  http://www.amazon.com/exec/obidos/tg/detail/-/0802806902/002-1307274-1097621?v=glance

[14] Klein, Melanie, obra referida, citação retirada do texto Forster e Carveth, já referido, website http://psychematters.com/papers/carveth.htm , bem como do texto publicado por Imago, Rio de Janeiro, 1991, páginas209 e seguintes.

[15] Klein, Inveja e gratidão, in passim, páginas 215 a 221, versão Imago. Website www2.uol.com.br/percurso/main/pcs02/artigo0218.htm

[16] Chaucer, Geoffrey, 1340-1400, Canterbury Tales http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Chaucer+Canterbury+Tales&btnG=Pesquisa+Google&meta=, histórias éticas e catequistas, base da análise de Klein, bem como Milton http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Milton+Paradise+Lost&btnG=Pesquisar&meta=, livros on line; e O Livro de Salomão da Bíblia Luterana http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=B%C3%ADblia+Luther+Livro+de+Salom%C3%B3n&btnG=Pesquisar&meta= , entre outros textos usados para a sua análise dos conceitos de inveja, gratidão, amor, reciprocidade, desejo de fazer o bem por se ter sido alimentado por um seio adjudicado a uma entidade isolada, a mãe, a sua “proprietária”. Donde, Imaculada Conceição como conceito aplicável a análise cristã de Klein.

[17] Dolto, Françoise, 1985: La cause des enfants, Laffont, Paris, ou website com textos: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Fran%C3%A7oise+Dolto+La+cause+des+enfants&btnG=Pesquisar&meta= , para comentários e debate e troços de texto

[18] Dolto, Françoise, 1981 : Au Jeu du Désir. Essais Cliniques, Seuil, Paris. Há versão portuguesa, que uso, Relógio D’Água, 1993. ou   http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Fran%C3%A7oise+Dolto+Au+jeu+de+d%C3%A9sir&btnG=Pesquisar&meta=

[19] Dolto, Françoise: textos entre anos 1960 e 1980, reunidos em 1995 pela Gallimard, Paris, sob o título La difficulté de vivre.

[20] Dolto, Françoise:obra citada nota anterior, páginas 95 e seguintes.

[22] Dolto, Françoise www.diplomatie.gouv.fr/label_france/ ENGLISH/DOSSIER/enfance/04.html